Não deixe de ver: Mais alguns poemas de Charles d’Orléans

www.instrumentsmedievaux.org

Na página de Tradução,
mais alguns poemas de Charles d’Orléans,
que foram apresentados no
II Encontro de Tradutores de Francês,
na Casa das Rosas em setembro passado.
Aqui, são também comentados.

Não deixe de ver: Minha leitura de Dobras da Noite

dobras da noite

Clique aqui para ler
minha leitura do livro de contos de
Chico Lopes,
Dobras da Noite
,
editado em 2004 (Instituto Moreira Salles).

Immaculada nos Verdes Trigos

Immaculada nos Verdes TrigosSaiu nesta terça-feira, dia 3 de novembro, uma resenha de Immaculada escrita pelo Chico Lopes na revista Verdes Trigos. A revista conheci há cerca de um ano. O Chico também, via net, como comentarista de cinema. Grande cinéfilo, seus conhecimentos da sétima arte me deixam de queixo caído. Recentemente, vim a conhecer o Chico contista, faceta sobre a qual ainda devo falar (não pouco) neste espaço. Por enquanto, convido a ler a resenha que ele escreveu sobre meu romance Immaculada, aquele que é ironicamente um folhetim, assim como sua personagem é ironicamente imaculada. Só lendo. A resenha e o livro.  O link para a revista está permanentemente aí ao lado em bons endereços. Vale a pena acrescentar aos favoritos.

Proposta para a reforma da Lei de Direitos Autorais

escrever

No intuito de contribuir para a reforma da Lei de Direitos Autorais e assim permitir que a sociedade possa voltar a ter acesso, em formato de livro, a tantas obras de tradução esgotadas que têm sido objeto de plágio, o site não gosto de plágio publica hoje o texto de uma sugestão que será apresentada, em forma de carta aberta,  ao III Congresso do Direito de Autor, nos dias 09 e 10 de novembro, quando se inaugura o prazo de consulta pública do governo para a revisão da atual lei do direito autoral.  Conheça a íntegra da proposta e saiba como colaborar clicando aqui.

Ora, pois, queres voltaire a Voltaire?

Saramago-VoltaireE por falar em atraso cultural, tenho lido com atenção o modo como a mídia nos entretém com o recente lançamento de Saramago. Não li ainda Caim, vou fazer força para ler. Mas não sei se em 2009 um ataque à Bíblia é capaz de causar frisson. Devia ser muito mais emocionante para quem tinha a inquisição nos calcanhares: no século XVIII, por exemplo, quando Voltaire escreveu um livro iconoclasta chamado La Bible enfin expliquée (A Bíblia enfim explicada). Qual era sua tática? Relatar com um olhar iluminista os absurdos de um livro dado como sagrado, contar com sarcasmo as aventuras de gente como Jacó, Isaque, Sara etc. Alguma semelhança com táticas atuais? Voltaire era bem-humorado, irreverente, sagaz, ainda hoje capaz de arrancar gargalhadas do leitor. Seu grande pecado, para mim, porém, não foi a iconoclastia. Foi outro: profundamente antissemita (e quem não o era então, impunemente?), não poupa críticas pesadas e revoltantes (para minha sensibilidade, pelo menos) aos judeus. Embolou tudo, não soube ser crítico sem paixão e preconceito. Para quem combatia os preconceitos! Coisa que, aliás, ele fazia o tempo todo, não só nesse livro. Está aí uma faceta desse filósofo que os mal informados não trazem à luz. Só conhecem, ou fingem conhecer, seu lado bom-moço, de defensor da tolerância religiosa e da reforma do sistema judiciário francês. De fato, nesses dois temas ele tem textos arrebatadores, comoventes até. Voltaire era um homem do seu tempo ­­ – argumentam seus defensores, com razão ­–, não era um homem pós-Auschwitz, como somos nós, e seria anacrônico julgá-lo com os nossos olhos de hoje. Aí, dois comentários: o primeiro é que ele mesmo foi anacrônico quando julgou a Bíblia com os olhos do seu tempo; o segundo é que as ressalvas à sua obra, hoje, talvez não sejam feitas por anacronismo, mas por medo mesmo, já que há tanta gente anacrônica por aí…

Como se vê, caímos num círculo vicioso. E por isso volto a Saramago. O que ele faz agora, depois de dois séculos da Enciclopédia, parece, portanto, anacrônico, ou extemporâneo, porque já foi feito lá, em ambiente (diga-se de passagem) bem menos salutar para a integridade física de quem ousasse chutar os pés (nem tão de barro) do gigante católico. Mas hoje, continuando na metáfora do chute, Saramago e outros chutam leão morto.

Que a Bíblia é uma reunião de textos mitológicos, históricos, políticos e outros, uma mescla heterogênea de fatos escabrosos, ditos sublimes e dados duvidosos, isso é coisa sabida por qualquer pessoa minimamente esclarecida. É notório o fato de antes dela terem existido outros livros fundadores que relatavam com palavras muito semelhantes a gênese, o dilúvio, a expulsão do paraíso e outras coisas, o que faz dela apenas um elo a mais de uma cadeia cuja origem se perde nos tempos. E entre as pessoas esclarecidas que sabem disso incluo até mesmo alguns católicos e judeus. Então para quem Saramago escreve? Não me consta que o pastor que brande a Bíblia numa igreja improvisada em ex-galpão a dois quarteirões da minha casa leia Saramago. Nem sua grei.

Outra coisa que me parece fugir a todos os artigos que li ultimamente na imprensa (como exceção à superficialidade geral, cito Bucci, no Observatório da Imprensa, que vai mais fundo na questão) é a confusão entre anticatolicismo ou antijudaicocristianismo e ateísmo. Já sabia Voltaire que, mesmo não se aceitando a Bíblia como “palavra de Deus”, é possível acreditar na existência de um arquiteto para este universo inteligentemente construído, seja lá que nome se dê a ele: Deus, Zeus, Júpiter, Alá, Jeová ou até mesmo Acaso. Isso para ficar no Ocidente. O que dizer se pensarmos no Oriente xintoísta, budista, hinduísta etc.? Nesse caso, ater-se à Bíblia para tratar do assunto é querer desvendar galáxias com lupa.

Enfim, seria de se esperar, no século XXI, uma visão mais abrangente e menos ressentida desses assuntos. Não é o que vi até agora. Espero vir a mudar de opinião.

O pato afinal quem somos?

Darwin-Donald

Leio hoje no blogue não gosto de plágio uma postagem da incansável colega Denise Bottmann, intitulada isso lá é comemoração?. Nela, Denise prova por cotejo que o recente lançamento A origem das espécies, de Darwin, pela editora Madras é uma cópia ligeiramente modificada de uma tradução portuguesa de 1913, assinada por Joaquim Dá Mesquita Paul (Lello & Irmão). Logo depois, Denise postou mais um artigo em que demonstra que a própria tradução de Mesquita Paul não foi feita a partir do original, mas a partir do francês (o interessante trajeto da pesquisa pode ser visto por inteiro aqui).

São fatos espantosos. Denise afirma reiteradamente que sua maior preocupação é com o patrimônio cultural. Termina seu primeiro artigo dizendo que esse tipo de coisa “é ruim para todo mundo, sobretudo para os leitores e a cultura geral da sociedade”. É verdade.

Mas tentarei aqui subir o rio na contracorrente.

O fato de em 1913 esse livro escrito em língua inglesa ter sido (mal) traduzido em Portugal a partir de um original francês já dá mostras do atraso cultural do mundo lusófono. Não era fato isolado. Dostoiévski também foi traduzido do francês, aqui no Brasil. Freud foi traduzido do inglês, todos sabem, e agora aí está Luiz Alberto Hanns fazendo um trabalho de reconstrução que dura anos. Mas quanto tempo é preciso para desfazer o que foi sendo montado durante décadas? Prejuízo para a cultura? Sem dúvida. Mas por que seriam legião esses tais agentes deletérios, tão numerosos que parecem brotar de alguma misteriosa colônia pululante? Uma produção assim tão exuberante só pode se alimentar de um déficit cultural acumulado durante séculos de subdesenvolvimento geral. Questão de contabilidade educacional? Sim, mas talvez algo além.

Essa retradução malfeita de cem anos atrás já era grave sinal de deficiência, de débito cultural por ser saldado. Mas tomar esse texto em pleno século XXI e apresentá-lo como original depois de maquiagem amadora é não só sinal de patologia cultural crônica como também de indigência ética.

Nada, infelizmente, que soe como novidade. Em 1922 os modernistas apregoavam a necessidade do abandono do ato da cópia. Vejam só que ironia. Eles se referiam à mania brasileira de copiar o que vinha do exterior. Quase cem anos depois continuamos na mesma e ainda somamos cópia a cópia.

Não é fácil ir às profundezas na tentativa de encontrar a fonte de nossa renitente pobreza intelectual. Não me parece trabalho para poetas, embora eles com certeza possam colaborar. Todos os verdadeiros intelectuais desta terra (escassos ultimamente, não?) andam meio calados. Será de susto? Quem é da minha geração se lembra que a ditadura parecia eterna. Incrível: ela acabou. Passar à democracia por aqui seguiu uma velha trilha, a da fuga ao trauma. Nada de abalos! Somos mestres da velha receita: mudar para perpetuar. Com isso, nossas instituições não balançam. Não reconstruímos, empilhamos. Não reformamos, caiamos.  Somos os mesmos há mais de 500 anos. Copiar traduções é só uma migalha dessa pizza de dimensões continentais.

Não deixe de ver: artigo sobre Ruffato

Artigo:  Minha leitura de Estive em Lisboa e lembrei de você, na página de Literatura.

Da educação editorial (comentário a uma reportagem do Estadão)

Estante-blogueO Caderno Cultura do Jornal O Estado de São Paulo traz na página 6 (D6) da edição de hoje em artigo de Francisco Quinteiro Pires sobre a reedição de uma antiga tradução de Educação sentimental e a previsão de uma nova tradução que deverá ser lançada em 2010 pela Cosac Naif. A tradução antiga é da autoria de Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), e a editora é a Nova Alexandria. A da Cosac Naif será assinada por Samuel Titan Jr.

Não conheço a tradução de Adolfo Casais Monteiro, li a obra em francês, mas, segundo Titan, ele “não percebeu a modernidade de Flaubert”, e, por causa disso, “nos pontos em que Flaubert é mais prosaico, ele adota um viés metaforizante, arredonda frases e parágrafos para privilegiar o fluxo da ação”.

Conheço traduções assim, Titan deve ter razão, ele que sabe em que terreno está pisando. Mais não digo porque não fiz nenhum cotejo, e o objetivo principal destas linhas não é discutir esse caso particular.

O que eu gostaria de comentar, numa visão mais global, é um desdobramento a que esse assunto levou, adiante no mesmo artigo, quando o jornalista insere comentários de Ivo Barroso. Diz este último: “Fiquei contente em saber que a Nova Alexandria preferiu sua [de Casais Monteiro] tradução a encomendar uma nova, que poderia incidir em alguns vezos censuráveis entre nossos jovens tradutores”. Quais seriam esses vezos? Segundo o mesmo Barroso, “modernizar a linguagem e a lexicografia, tirando ao texto original o seu sabor de época”, o que “equivaleria a fazer um copidesque nas obras de Machado de Assis, eliminando as mesóclises, as construções vernáculas, os termos raros ou que caíram em desuso”.

Não caberia a esse tipo de matéria jornalística tentar esclarecer a aparente discrepância entre Titan e Barroso: enquanto o primeiro diz que Casais Monteiro metaforiza e arredonda (o que é condenável), o segundo diz que sua tradução é um clássico porque preserva o espírito da época e nos livra dos vezos dos “jovens tradutores”. Digo aparente porque, por mais engraçado que pareça, os dois podem ter razão.

Bom tema para discussão. Precisamos aguardar a tradução de Titan para voltarmos a ela.

Mas, mesmo sem entrar nos pormenores desse caso, é possível falar de algumas questões gerais que costumam ficar esquecidas pelos que abordam esse tipo de assunto não só nesse artigo, mas em todas as discussões.

O primeiro é o da real necessidade de retraduções. Quem as defende se baseia no postulado de que tradução envelhece. De fato. Tanto quanto qualquer texto. Com uma diferença: o texto original é amado mesmo com alguns séculos de aniversário e só quando deixa de ser reconhecido pelos mais sabidos alguém se lembra de lhe fazer alguma plástica restauradora ou de lhe dar a companhia de uma linda paráfrase para que ele possa reafirmar sua potência e tornar-se de novo atraente. A tradução, já nas primeiras rugas, é repudiada e substituída por uma jovem retradução.

Metáforas à parte, suponhamos que temos em mãos uma tradução boa, muito boa mesmo, e que não se encontre no momento ninguém do gabarito do tradutor primeiro: por que não permitir que o texto envelheça tanto quanto o texto original?

Por duas razões. A primeira é cultural: considera-se como ponto pacífico que texto intocável é só o do autor, não o do tradutor. Autor escreveu, está escrito e sacramentado; tradutor, não. O que o autor escreve ganha a força da pedra; o texto do tradutor mal tem a fluidez do vapor. Porque se espera que este, afinal, crie algo idêntico ao original e, como isso não é possível, fica sempre aberta a possibilidade de se tentar algo mais perfeito. Está aí em jogo a utopia da identidade, sobre a qual, aliás, remeto ao meu artigo sobre Paul Ricoeur, na página de tradução deste blogue. Enfim, o texto do autor é imperfectível; o do tradutor é perfectível.

Vesguice pura. Qualquer texto é perfectível, mesmo o do autor. Para este, salvo raríssimas exceções, nenhum texto seu é imperfectível. Mas, também segundo nossos hábitos culturais, em texto do autor só ele mesmo mexe. Como o tradutor não é autor e como seus textos são vendidos a uma editora, e quem compra é dono, o texto do tradutor é sempre passível de mexidas e remexidas, antes e depois da publicação.

O segundo aspecto é mercadológico. Interessante que em nenhum dos congressos, colóquios, simpósios e que tais, em que presenciei a discussão desse assunto, se mencionou jamais a questão mercadológica. Em todos eles precisei lembrar que ela existe. Há clássicos de domínio público que representam venda garantida, sem os riscos inerentes ao lançamento de autor desconhecido. Além disso, não havendo necessidade de pagar direitos, os custos se reduzem substancialmente. É tão voraz a fome por esses mercados, que certos clássicos têm quatro, cinco traduções simultâneas em circulação e (pior!) algumas editoras inescrupulosas não resistem à tentação de lançar plágios de traduções já existentes, furtando-se até a pagar um tradutor. Ocorre que o mercado não intelectualizado não digere bem linguagens que não lhe sejam familiares, portanto, as editoras precisam adaptá-las. Ou fazem isso, ou não vendem tanto quanto desejam.

Essa questão me leva de volta à afirmação de Ivo Barroso sobre os “jovens tradutores”, ou seja, aqueles que têm o vezo de “modernizar a linguagem e a lexicografia, tirando ao texto original o seu sabor de época”. E por que me levou de volta a essa afirmação? Porque esse vezo pode não ser do “jovem tradutor”, e sim da editora. De qualquer modo, o tradutor, jovem ou não, nunca atua sozinho, e o jovem não só é mais permeável às imposições da editora (afinal, está tentando se afirmar na carreira) como também, talvez, mais afinado com as preferências dos editores e seus auxiliares, no mais das vezes também jovens.

Não é incomum essa confusão de atribuir ao tradutor o que não lhe cabe, pelo menos em parte. Este ou é superestimado ou subestimado, como se seu trabalho não estivesse intimamente atrelado ao dos editores. Esse vínculo às vezes não é visto com clareza nem por suas duas partes. É sempre árdua e às vezes desastrosa a relação entre os dois atores. Jogo de cintura e capacidade para discutir questões linguísticas são qualidades nem sempre presentes dos dois lados. As editoras que conseguem manter uma relação de alto nível entre seu departamento editorial e seus tradutores são as que obtêm mais qualidade em seus produtos. Mas para isso é preciso que todos tenham bom nível.

Voltemos à linguagem. Fez parte da prática de vários tradutores e editores do passado (e alguns do presente) o arredondamento do anguloso, o embelezamento do feio, sem falar da omissão de trechos obscenos ou considerados como tais. Afinal, era forte então a influência dos métodos adotados pelos partidários das belles infidèles. Ainda há resquícios disso. Nem sempre é fácil a uma encantadora senhora de classe média meter os dedos na merda que algum autor pouco preocupado com sua pudicícia lhe joga no monitor. Os jovens descolados têm menos problemas com esse tipo de coisa. Mas o que dizer dos editores? Só eles podem responder. Não é incomum o tradutor receber um telefonema ou um e.mail de certos editoriais perguntando se não daria para trocar esta palavra por aquela. E o tradutor pensa: mas é trocar seis por meia dúzia. Não, não é. Há conotações que incomodam, e é mais fácil dialogar com base em regras gramaticais do que em conotações.

E por falar em jovens, mas não só tradutores, eu diria que os vezos a que Ivo Barroso alude têm implicações mais amplas. Por exemplo, somos etnocentristas. Questão pronominal, para começar. Só engolimos o tu quando na pena, (opa) no teclado, de algum português, de preferência incensado. Afinal, é assim que eles falam lá, paciência. E o etno- do etnocentrismo aí não está para Brasil, mas para Sudeste do Brasil, mais especificamente para eixo Rio—São Paulo, onde é muito comum a cegueira em relação ao restante do País, que dirá ao restante do universo lusófono. Outro aspecto, mais sutil, da questão pronominal é que nossa proverbial anomia implica enorme flutuação nos vínculos entre os vários pronomes e respectivas hierarquias, conotações de respeito ou intimidade e coisas desse tipo. Sem atingirmos a democrática unicidade do you, passeamos a esmo entre você, senhor e senhora, evitando o tu e (cruz-credo!) o vós. Parece fácil e prazerosa essa anomia, desde que não sejamos obrigados a traduzir outras culturas mais estratificadas. Quem só conta com um you não quebra a cabeça e procura transmitir tais conotações por outros meios, desde que tenha capacidade para isso. Mas quem conta com meia dúzia de possibilidades flutuantes às vezes se enrasca, sobretudo se for jovem. Jovem que, por falhas da formação escolar mais recente, muitas vezes foge de pronomes menos usuais porque o uso deles implica a concordância da conjugação verbal, e aí a coisa pega.

Isso quanto aos pronomes.

A questão lexical é também complexa. Primeiro porque em geral se conhece ínfima parcela do que nossos dicionários registram. E olhe que temos palavras interessantíssimas, capazes de traduzir coisas inimagináveis, palavras cujo único pecado é a ignorância dos falantes. Essas, quando desenterradas pelo tradutor, por mais úteis que sejam, correm o risco do descarte pelo editor. Por outro lado, há a questão do anacronismo. Quem se interessa em saber se, ao traduzir um autor do século XIX, está empregando palavras que entraram para o léxico português no século XX? Quem se preocupa em manter a simplicidade lexical de uma época na qual só existia metade das palavras que registramos hoje? Por outro lado, o que fazer quando a obra nunca foi traduzida? Imaginar o que teria sido sua tradução na época da escrita e tentar reconstruí-la? Tarefa insana.

E a sintaxe? Muito mais complexa é a análise da construção sintática. O que manter e o que mudar? O que faz parte dos usos estruturais da língua e o que é da alçada das opções do autor? Como saber disso sem noções filológicas, sem um estudo diacrônico mínimo? Como saber disso sem nem dominar a sintaxe?

Enfim, há sutilezas que é preciso ter vivência literária para identificar. Todo candidato a tradutor de literatura deveria frequentar, pelo menos como ouvinte, algum curso de teoria literária na faculdade mais próxima. Aliás, eu daria o mesmo conselho a revisores e editores em geral. Mas nestas plagas a tradução de literatura não é vista como atividade especializada.

Pobre leitor!

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Entrevista à Rádio Jovem Pan

microfoneClique no triângulo abaixo para ouvir entrevista a Fernando Zamith, da Rádio Jovem Pan.

Nela se fala de Immaculada, traduções, São Paulo e outras coisinhas.

Não deixe de ver: artigo sobre Os Cus de Judas

Na página de Literatura, postado artigo
Os Cus de Judas – uma questão de pulsação

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