Mais sobre plágio em tradução

O trabalho de Denise Bottmann continua tendo a divulgação merecida. No blog do Galeno é possível ler o artigo assinado por Marcelo Villela Gusmão para a revista Caros Amigos, intitulado Pesquisadora denuncia publicação de cópias de tradução.

Contos meus não estão aqui

Este blogue não foi criado para a minha ficção. Quem quiser ler contos meus poderá visitar a página do Cronópios (aliás, ela merece ser visitada por muitos motivos, além desse). Ali estão dois deles:

Réquiem: história do unidimensional que não sabe ser de outro jeito

O  jogo da velha, contraponto de primeiríssima espécie: diálogo aparente de dois seres que se desfazem, cada um a seu modo.

Não deixe de ver: A pretexto de Todorov

Na página de Literatura
foi postado um novo artigo intitulado
A pretexto de Todorov, no qual comento seu livro
A Literatura em perigo,
traduzido para a Difel por Caio Meira.
Não deixe de ler e comentar.

Immaculada no Balaio de Notícias

Artigo de Chico Lopes sobre Immaculada é replicado no Balaio de Notícias de Sergipe com o título Um romance paulista.

Não deixe de ver: Mais alguns poemas de Charles d’Orléans

www.instrumentsmedievaux.org

Na página de Tradução,
mais alguns poemas de Charles d’Orléans,
que foram apresentados no
II Encontro de Tradutores de Francês,
na Casa das Rosas em setembro passado.
Aqui, são também comentados.

Não deixe de ver: Minha leitura de Dobras da Noite

dobras da noite

Clique aqui para ler
minha leitura do livro de contos de
Chico Lopes,
Dobras da Noite
,
editado em 2004 (Instituto Moreira Salles).

Immaculada nos Verdes Trigos

Immaculada nos Verdes TrigosSaiu nesta terça-feira, dia 3 de novembro, uma resenha de Immaculada escrita pelo Chico Lopes na revista Verdes Trigos. A revista conheci há cerca de um ano. O Chico também, via net, como comentarista de cinema. Grande cinéfilo, seus conhecimentos da sétima arte me deixam de queixo caído. Recentemente, vim a conhecer o Chico contista, faceta sobre a qual ainda devo falar (não pouco) neste espaço. Por enquanto, convido a ler a resenha que ele escreveu sobre meu romance Immaculada, aquele que é ironicamente um folhetim, assim como sua personagem é ironicamente imaculada. Só lendo. A resenha e o livro.  O link para a revista está permanentemente aí ao lado em bons endereços. Vale a pena acrescentar aos favoritos.

Proposta para a reforma da Lei de Direitos Autorais

escrever

No intuito de contribuir para a reforma da Lei de Direitos Autorais e assim permitir que a sociedade possa voltar a ter acesso, em formato de livro, a tantas obras de tradução esgotadas que têm sido objeto de plágio, o site não gosto de plágio publica hoje o texto de uma sugestão que será apresentada, em forma de carta aberta,  ao III Congresso do Direito de Autor, nos dias 09 e 10 de novembro, quando se inaugura o prazo de consulta pública do governo para a revisão da atual lei do direito autoral.  Conheça a íntegra da proposta e saiba como colaborar clicando aqui.

Ora, pois, queres voltaire a Voltaire?

Saramago-VoltaireE por falar em atraso cultural, tenho lido com atenção o modo como a mídia nos entretém com o recente lançamento de Saramago. Não li ainda Caim, vou fazer força para ler. Mas não sei se em 2009 um ataque à Bíblia é capaz de causar frisson. Devia ser muito mais emocionante para quem tinha a inquisição nos calcanhares: no século XVIII, por exemplo, quando Voltaire escreveu um livro iconoclasta chamado La Bible enfin expliquée (A Bíblia enfim explicada). Qual era sua tática? Relatar com um olhar iluminista os absurdos de um livro dado como sagrado, contar com sarcasmo as aventuras de gente como Jacó, Isaque, Sara etc. Alguma semelhança com táticas atuais? Voltaire era bem-humorado, irreverente, sagaz, ainda hoje capaz de arrancar gargalhadas do leitor. Seu grande pecado, para mim, porém, não foi a iconoclastia. Foi outro: profundamente antissemita (e quem não o era então, impunemente?), não poupa críticas pesadas e revoltantes (para minha sensibilidade, pelo menos) aos judeus. Embolou tudo, não soube ser crítico sem paixão e preconceito. Para quem combatia os preconceitos! Coisa que, aliás, ele fazia o tempo todo, não só nesse livro. Está aí uma faceta desse filósofo que os mal informados não trazem à luz. Só conhecem, ou fingem conhecer, seu lado bom-moço, de defensor da tolerância religiosa e da reforma do sistema judiciário francês. De fato, nesses dois temas ele tem textos arrebatadores, comoventes até. Voltaire era um homem do seu tempo ­­ – argumentam seus defensores, com razão ­–, não era um homem pós-Auschwitz, como somos nós, e seria anacrônico julgá-lo com os nossos olhos de hoje. Aí, dois comentários: o primeiro é que ele mesmo foi anacrônico quando julgou a Bíblia com os olhos do seu tempo; o segundo é que as ressalvas à sua obra, hoje, talvez não sejam feitas por anacronismo, mas por medo mesmo, já que há tanta gente anacrônica por aí…

Como se vê, caímos num círculo vicioso. E por isso volto a Saramago. O que ele faz agora, depois de dois séculos da Enciclopédia, parece, portanto, anacrônico, ou extemporâneo, porque já foi feito lá, em ambiente (diga-se de passagem) bem menos salutar para a integridade física de quem ousasse chutar os pés (nem tão de barro) do gigante católico. Mas hoje, continuando na metáfora do chute, Saramago e outros chutam leão morto.

Que a Bíblia é uma reunião de textos mitológicos, históricos, políticos e outros, uma mescla heterogênea de fatos escabrosos, ditos sublimes e dados duvidosos, isso é coisa sabida por qualquer pessoa minimamente esclarecida. É notório o fato de antes dela terem existido outros livros fundadores que relatavam com palavras muito semelhantes a gênese, o dilúvio, a expulsão do paraíso e outras coisas, o que faz dela apenas um elo a mais de uma cadeia cuja origem se perde nos tempos. E entre as pessoas esclarecidas que sabem disso incluo até mesmo alguns católicos e judeus. Então para quem Saramago escreve? Não me consta que o pastor que brande a Bíblia numa igreja improvisada em ex-galpão a dois quarteirões da minha casa leia Saramago. Nem sua grei.

Outra coisa que me parece fugir a todos os artigos que li ultimamente na imprensa (como exceção à superficialidade geral, cito Bucci, no Observatório da Imprensa, que vai mais fundo na questão) é a confusão entre anticatolicismo ou antijudaicocristianismo e ateísmo. Já sabia Voltaire que, mesmo não se aceitando a Bíblia como “palavra de Deus”, é possível acreditar na existência de um arquiteto para este universo inteligentemente construído, seja lá que nome se dê a ele: Deus, Zeus, Júpiter, Alá, Jeová ou até mesmo Acaso. Isso para ficar no Ocidente. O que dizer se pensarmos no Oriente xintoísta, budista, hinduísta etc.? Nesse caso, ater-se à Bíblia para tratar do assunto é querer desvendar galáxias com lupa.

Enfim, seria de se esperar, no século XXI, uma visão mais abrangente e menos ressentida desses assuntos. Não é o que vi até agora. Espero vir a mudar de opinião.

O pato afinal quem somos?

Darwin-Donald

Leio hoje no blogue não gosto de plágio uma postagem da incansável colega Denise Bottmann, intitulada isso lá é comemoração?. Nela, Denise prova por cotejo que o recente lançamento A origem das espécies, de Darwin, pela editora Madras é uma cópia ligeiramente modificada de uma tradução portuguesa de 1913, assinada por Joaquim Dá Mesquita Paul (Lello & Irmão). Logo depois, Denise postou mais um artigo em que demonstra que a própria tradução de Mesquita Paul não foi feita a partir do original, mas a partir do francês (o interessante trajeto da pesquisa pode ser visto por inteiro aqui).

São fatos espantosos. Denise afirma reiteradamente que sua maior preocupação é com o patrimônio cultural. Termina seu primeiro artigo dizendo que esse tipo de coisa “é ruim para todo mundo, sobretudo para os leitores e a cultura geral da sociedade”. É verdade.

Mas tentarei aqui subir o rio na contracorrente.

O fato de em 1913 esse livro escrito em língua inglesa ter sido (mal) traduzido em Portugal a partir de um original francês já dá mostras do atraso cultural do mundo lusófono. Não era fato isolado. Dostoiévski também foi traduzido do francês, aqui no Brasil. Freud foi traduzido do inglês, todos sabem, e agora aí está Luiz Alberto Hanns fazendo um trabalho de reconstrução que dura anos. Mas quanto tempo é preciso para desfazer o que foi sendo montado durante décadas? Prejuízo para a cultura? Sem dúvida. Mas por que seriam legião esses tais agentes deletérios, tão numerosos que parecem brotar de alguma misteriosa colônia pululante? Uma produção assim tão exuberante só pode se alimentar de um déficit cultural acumulado durante séculos de subdesenvolvimento geral. Questão de contabilidade educacional? Sim, mas talvez algo além.

Essa retradução malfeita de cem anos atrás já era grave sinal de deficiência, de débito cultural por ser saldado. Mas tomar esse texto em pleno século XXI e apresentá-lo como original depois de maquiagem amadora é não só sinal de patologia cultural crônica como também de indigência ética.

Nada, infelizmente, que soe como novidade. Em 1922 os modernistas apregoavam a necessidade do abandono do ato da cópia. Vejam só que ironia. Eles se referiam à mania brasileira de copiar o que vinha do exterior. Quase cem anos depois continuamos na mesma e ainda somamos cópia a cópia.

Não é fácil ir às profundezas na tentativa de encontrar a fonte de nossa renitente pobreza intelectual. Não me parece trabalho para poetas, embora eles com certeza possam colaborar. Todos os verdadeiros intelectuais desta terra (escassos ultimamente, não?) andam meio calados. Será de susto? Quem é da minha geração se lembra que a ditadura parecia eterna. Incrível: ela acabou. Passar à democracia por aqui seguiu uma velha trilha, a da fuga ao trauma. Nada de abalos! Somos mestres da velha receita: mudar para perpetuar. Com isso, nossas instituições não balançam. Não reconstruímos, empilhamos. Não reformamos, caiamos.  Somos os mesmos há mais de 500 anos. Copiar traduções é só uma migalha dessa pizza de dimensões continentais.