RODRIGO – É uma pena que o Brasil não tenha tradição operística, Ivone. Os últimos meses do governo Vargas dariam uma ópera magnífica. Imagine, por exemplo, uma ária verdiana para o suicídio, logo a seguir a filha ouvindo o disparo – e a descoberta do cadáver. Gregório Fortunato poderia ser interpretado por um barítono – e Lacerda por um tenor. Mas seria pedir demais da sensibilidade dos nossos artistas, pois diante de tal história, repleta de elementos dramáticos, intrigas, dramas familiares etc., até hoje ninguém produziu sequer um bom romance. Na verdade, no Brasil, tudo acaba em bufonaria, principalmente nos dias de hoje. O senso do trágico não faz parte da nossa psicologia – tudo aqui se resolve por meio da piada. Ou seja, não se resolve.
Carmen nunca esteve entre minhas óperas preferidas. Acho que a culpada dessa lacuna é minha ascendência espanhola (pelo lado materno): ela me obriga a rechaçar os estereótipos de Mérimée/Bizet. De qualquer forma, é uma bela ópera, com momentos agradáveis, e gosto da interpretação de Maria Callas, que você pode ver clicando aqui. Talvez falte uma dose de sensualidade, mas a técnica parece-me perfeita.
Ainda falando de Mérimée, há certo exagero na sua valorização, e talvez o culpado seja Nietzsche, que o colocou no mesmo patamar de Leopardi e Ralph Waldo Emerson – verdadeiro sacrilégio. Comportamento, aliás, bem nietzschiano…
A Traviata é uma ópera maravilhosa. Puro entretenimento. Diz muito sobre você o fato de, na juventude, não gostar dela. É uma pena que a ideologia de esquerda muitas vezes nos impeça de desfrutar do belo de maneira gratuita, sem julgamentos. Muitos jovens perdem essa oportunidade… De certa forma, o trabalho de Verdi tem mais luxúria, paixão e profundidade do que Carmen. E o longo dueto entre Violeta e o pai de Alfredo está entre as cenas mais belas do mundo operístico. Acho Netrebko maravilhosa – e creio que não teria uma gravação melhor a indicar. Ou melhor, teria: Renata Tebaldi, a predileta de Toscanini, agrada-me muitíssimo – e creio que ainda não temos uma substituta:
EU. Marc Bloch teria dito que o estudo da história é dominado e iluminado por uma palavra: compreender. O pouco interesse que sempre houve pela nossa história é fruto e alimento da ignorância que em torno de nós mesmos reina. Em suma, não nos compreendemos. É tão importante o estudo do passado para a compreensão do presente, que a ditadura aboliu a disciplina “história” do currículo escolar. Toda uma geração que frequentou o segundo ciclo do ensino fundamental na década de 70 aprendeu coisa muito diferente do que se aprendia antes, ou não aprendeu coisa nenhuma, talvez. Se nos falta tradição operística, também nos falta tradição historiográfica. No entanto, não nos faltam tragédias.
Carmen também não é das minhas preferidas. E agora digo outra blasfêmia: Callas também não.
Quanto à Traviata, minha bronca não decorria das minhas convicções políticas de esquerda, e sim dos meus sentimentos femininos (não digo feministas para não criar mal-entendidos: nunca militei em movimentos feministas) e das minhas preferências estéticas. Veja bem: na Itália a francesa dama das camélias se transformou numa “perdida”, pois é esse o sentido da palavra traviata. Por que diabos precisou ganhar esse nome? A palavra dame tem conotações positivas em francês. Não faria parte do título de um livro se o texto não quisesse exaltar as virtudes da heroína. Como de fato exalta: uma mulher de vida pouco ortodoxa, cuja capacidade de renúncia precisou ser reconhecida até mesmo por quem quis afastá-la do filho para não prejudicar promissoras alianças familiares. O romance é uma história de machismo mas não tem um viés machista. O título dado à ópera já denuncia certo ranço que me repugnava. Do ponto de vista estético, confesso que as histórias de amor do romantismo me irritam. Do romantismo prefiro o lado heroico. Portanto, foram essas as razões que sempre me afastaram dessa ópera, embora, como disse, ela tenha maravilhosos momentos musicais.
Mas, voltando à Callas, não sei se você reparou, ela se embanana totalmente nas palavras da habanera, o que me pareceu muito pitoresco. E quero agradecer a excelente lembrança da Tebaldi que, na minha opinião, é muito melhor que a Callas. Só para exemplificar, repare na dinâmica de sua voz (crescendi, diminuendi etc.) e no domínio da respiração nesse mesmo vídeo que você incluiu e compare com outro vídeo do mesmo trecho cantado pela Callas, facilmente encontrável no youtube. Depois me conte.
Agora para encerrar, algo que você já citou no começo e deixei escapar: Don Giovanni, na catártica e interessantíssima cena final:
Mas não posso deixar de fazer um comentário. O librettista está para a ópera mais ou menos como o roteirista para o cinema na adaptação de uma obra literária. O produto final tem sempre a cara dele. Neste caso, Lorenzo da Ponte caprichou. As cenas estão bem mais ricas que no texto de Molière. Na peça, o final não tem nada da apoteose da ópera. Resume-se a uma cena breve e prosaica. Quem encerra a peça sozinho é Sganarelle, o lacaio (na ópera chamado de Leporello), dizendo que, com a morte do patrão, todos ficavam contentes, menos ele, que perdia o salário:
Ah mes gages ! mes gages ! Voilà, par sa mort, un chacun satisfait. Ciel offensé, lois violées, filles séduites, familles déshonorées, parents outragés, femmes mises à mal, maris poussés à bout, tout le monde est content ; il n’y a que moi seul de malheureux. Mes gages, mes gages, mes gages !
A ópera encerra-se com todo o coro contente, e a visão de Leporello também é otimista (Ed io vado all’osteria /a trovar padron miglior). Veja que todo o enfoque é diferente. O final da peça é uma reiteração do clima irônico que reina em todo o texto; na ópera, o clima final é épico. Na peça, põe-se em questão a própria condenação, que, embora vingue os ultrajados, prejudica a parte mais fraca, o miserável que ficou sem emprego. São as manhas daquilo que hoje se há por bem batizar de tradução intersemiótica, desde sempre nascida, porém sem nome imponente até anos recentes.
RODRIGO. A censura, Ivone, não há dúvida, é sempre perniciosa. Mas a mistificação que encontramos em vários livros escolares atualmente, nos quais a história é interpretada sob um viés marxista, parece-me igualmente infame. Aliás, o pensamento marxista é pródigo em deturpar a realidade, passada e presente.
Mas falemos das nossas óperas. Então você não gosta da Callas… Ora, ora, ora… Ela teve um período áureo, mais ou menos na década de 1950, que a coloca entre as melhores cantoras do mundo, Ivone. Procure algumas dessas gravações… Você verá que ela foi uma artista de grande talento, voz admirável, ainda que eu também prefira a Tebaldi.
E já que estamos falando das nossas divas, lembremos de Joan Sutherland, falecida neste 10 de outubro. Belíssima voz. Acompanho um ótimo blog de música clássica, o Euterpe, que fez justíssima homenagem a ela (oferecendo, inclusive, uma bela gravação da Traviata): aqui.
O final da ópera Don Giovanni é bem melhor. Permite, no mínimo, uma catarse mais profunda. Inclusive pelo fato de que o final da peça soa algo demagógico: Sganarelle, se fosse realmente esperto, não ficaria sem emprego – afinal, tipos como Don Giovanni existem a mancheias! (risos)
Quanto ao romantismo, Ivone, sonho com o dia em que alguma editora brasileira traduza o Lucinde, de Friedrich Schlegel, e o Mémoires d’outre-tombe, de Chateaubriand. Mas são sonhos de um crítico algo visionário, que sempre anseia pelo melhor – mas, quase sempre, só vê a mediocridade triunfar.

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