Rodrigo Gurgel – 1ª parte

 

Crítico literário (jornal Rascunho e revista Sibila), editor da Miró Editorial, editor associado da Editora Leya e leitor crítico (avalia originais para editoras, particulares e agências). Em 2009 e 2010, foi jurado do Prêmio Jabuti. Também atua como coach literário. Em 2004, foi um dos dez vencedores do Concurso de Contos Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo.

EU. Rodrigo, acredito serem muitas as nossas diferenças, mas numa coisa coincidimos: o gosto por música e por literatura. Agora, onde é que música e literatura se encontram com mais grandiosidade? Na ópera, que nós dois apreciamos. Então vamos falar um pouquinho disso? Por exemplo, certos textos da considerada grande literatura, eu conheci já na adolescência por meio da ópera, quando fui morar com um tio, que me iniciou nessa arte. Vou te dar um exemplo pouco conhecido, que eu adoro. Mefistófeles de Arrigo Boito, baseada no texto de Goethe. Começo com ela. É o momento em que Mefistófeles se autodefine como espírito que nega, no primeiro encontro com Fausto. A interpretação é do grande baixo americano Samuel Ramey. O texto italiano conserva grande parte da densidade filosófica do original.:

Abaixo, só para comparar, a mesma cena da apresentação de Mefistófeles a Fausto na visão de Gounod: Repare que a densidade filosófica se dilui, e há grande ênfase na figura projetada de Margarida, que leva Fausto a aceitar o acordo:

RODRIGO. É um prazer trocar ideias com você, Ivone. Confesso que minha formação operística é basicamente verdiana. O Mefistófeles de Boito, por exemplo, agrada-me, mas não me transmite a intensidade dramática de um Iago cantando “Son scellerato/perchè son uomo;/e sento il fango originario in me”, versos tão shakespearianos quanto os do texto original. Aliás, certamente por influência de Verdi, Boito, que é o libretista de Otello, foi mais feliz nessa ópera do que em seu Mefistófeles. Ou não. Talvez tudo se resuma à minha maneira de ver as coisas, pois gostaria que Fausto tivesse um final semelhante ao de Don Giovanni, de Mozart: um final mais justo, sem redenção.

Ainda falando de Verdi – e da transposição do texto literário para a ópera –, a segunda cena do quarto ato de Macbeth, em que lady Macbeth, sonâmbula, tenta inutilmente limpar as mãos – “Una macchia è qui tuttora…” –, parece-me também perfeita. Mas falando em baixos – e as vozes masculinas de registro grave são as que mais aprecio –, um dos ótimos cantores contemporâneos é o René Pape, cujas gravações recomendo. Veja este Mefistófeles dele, de Fausto de Gounod:

O que você acha?

EU. Gosto dele. Essa gravação é com Alagna e a Gheorghiu, se não me engano. Na verdade, nesse papel, acho o Boris Christoff inesquecível. Aliás, inesquecível em todos. Mas, ainda em defesa de Boito só quero alegar sua originalidade ao se basear na segunda parte de Fausto, de cunho mais filosófico e preocupações mais sociais. A redenção de Fausto quando ele vislumbra um novo mundo sempre me emocionou. Pieguices utopistas. Não que também não me entusiasme o final do Don Giovanni. Por outro lado, imagino que a adaptação da uma peça literária à ópera enfrente os mesmos problemas da adaptação a um roteiro de cinema: é preciso selecionar porque, embora uma peça de teatro e uma ópera possam durar mais ou menos o mesmo tempo, a ópera é preenchida com outros ingredientes, a música requer o seu tempo, o seu andamento. Aí a escolha do libretista ou do compositor é crucial. Boito era poeta, e minha impressão é que para ele devia ser muito difícil renunciar a certos trechos, mesmo correndo o risco de criar uma obra menos popular. O que de fato é Mefistófeles.

Mas você falou em lady Macbeth e me deu água na boca. Em Macbeth, mais que em outras obras de Shakespeare (salvo engano), a culpa tem um foco especial. E ela se manifesta na mulher, naquela que tinha agido antes como fria instigadora dos crimes. Acho que essa dimensão da culpa poucas vezes foi explorada com tanta maestria. A culpa, grande filão literário, hoje está perdendo terreno. Você não acha? Mereceria um estudo isso, que eu não ouso. Enquanto isso, curtindo a culpa de lady Macbeth, Maria Guleghina em cena (com legendas em francês):

Mas, se você tiver paciência e curiosidade, só gravação, sem cena: a grande, profunda, soturna e maravilhosa voz de Leontyne Price (outra inesquecível):

RODRIGO.  Por um inexplicável motivo, a voz de Leontyne Price não me agrada. Amigos já me criticaram por isso, mas o que posso fazer? Se eu fosse musicólogo, talvez conseguisse explicar, em termos técnicos, o motivo do meu desagrado… Prefiro, no papel de Lady Macbeth, a fenomenal Birgit Nilsson. Que voz! É pena que não tenha sido uma bela mulher.

Você fala sobre a questão da culpa. Seria possível, hoje, escrever um romance como Crime e castigo? O dilema moral está fora de moda, o que é um índice da promiscuidade em que vivemos. O laicismo – que não é um mal em si – parece ter degenerado numa completa desnecessidade de valores éticos, e é curioso perceber que a maioria das pessoas quase não estabelece nuanças entre bem e mal. Aliás, cada vez mais, quando se trata de separar certo e errado, o filtro, o elemento balizador é o “eu”. Esse utilitarismo decadente sempre foi atacado pela esquerda como fruto do liberalismo (o que é um terrível erro). No entanto, oito anos de governo de esquerda mostram que a Lei de Gérson não é apanágio exclusivo da direita… Essa cosmovisão degenerada provoca consequências na arte, é claro. Hoje, em literatura, o ilícito não é mais uma prisão – G. K. Chesterton diz muito bem: “Macbeth no final da peça não é simplesmente uma besta selvagem; ele é uma besta selvagem enjaulada” –, mas é insistentemente visto como uma forma de libertação ou, no mínimo, um comportamento aceitável, normal, que não desencadeia nenhuma consequência digna de nota. É o reflexo da nossa vida social, sem dúvida. Mas que arte pobre a nossa, que se contenta em ser apenas o reflexo da sociedade!

EU. Birgit Nilsson, sem dúvida, grande intérprete de lady Macbeth. Conheci essa ópera na voz dela, que é ouvida acima de todo o coro no final do primeiro ato. Inesquecíveis também sua Salomé e sua Elektra.

Mas, voltando à culpa, acho que o fenômeno do seu alijamento da literatura é já bem mais antigo que o atual governo (que, discordo, não é de esquerda). Também ultrapassa em muito as nossas fronteiras e acho mesmo que por aqui, como sempre, imitamos mais essa pose pós-moderna. Desde a década de 80 ou 90, por exemplo, já venho percebendo o vale-tudo cínico no chamado cinema comercial americano, de onde o seu oposto (o bom-mocismo ascético e hipócrita) foi mandado para o espaço, desta vez não pela NASA. A culpa (e a reparação, como complemento) pressupõe a crença em valores éticos monolíticos. Num momento em que eles são fragmentários, relativizados ou simplesmente derrubados (pense nos grandes traumas ao longo de todo o século XX), a culpa perde o pedestal, desmorona, soa falsa e é descartada da arte. Mas nem por isso deixa de existir na vida real: continua lá, pode manifestar-se das maneiras mais bizarras e inesperadas possíveis, sendo às vezes até irreconhecível. Em literatura e arte o tratamento do crime e do seu cortejo de sentimentos (entre os quais a culpa) ocorre desde sempre, mas a moda de eliminar o espanto diante dessas coisas me parece episódica, e acho que estamos vivendo um desses episódios. Crime e castigo, acredito sinceramente, envolve atitudes e sentimentos eternos, universais, entre os quais a crença na consciência. Eu afirmaria que seus ingredientes podem, sim, ser usados hoje, porque eles continuam existindo na vida vivida, com caras diferentes, talvez, mas continuam. O que ocorre é que é muito complexo o tratamento dos meandros da culpa, principalmente numa sociedade de costumes mais relaxados, sem referenciais tão visíveis. Quero dizer: uma vez que suas manifestações hoje têm aparências diferentes das que tinham no século XIX, não é possível tratá-la como se fazia então: é preciso detectar os seus atuais meios de expressão e usá-los. Por isso, muito mais fácil é fazer de conta que ela não existe, com a vantagem colateral de estar na moda.

Mas lembro que nem só a culpa rodeia o crime. Também a loucura. E, observe, até agora temos falado de peças teatrais que viraram ópera. Mas há também romances e contos. E, já que estamos falando em russos, lembro de um exemplo de crime e loucura: o romance A dama de espadas de Pushkin, que foi magistralmente musicado por Tchaikovsky. Aqui está a cena final, pena que sem legenda. Nela Hermann, depois de cantar a ária em que compara a vida a um jogo, lança um desafio para uma terceira rodada (ele já ganhou duas). Seu rival aceita, e a carta que sai, ao contrário do esperado ás, é uma dama de espadas, e ele perde. E se suicida. Lindo o reaparecimento do tema de amor no momento da morte. Não sei se você gosta.

RODRIGO – Mas eu não disse, Ivone, que o fenômeno do alijamento da culpa na literatura começou no atual governo… Aliás, jamais diria isso… Afirmar tal coisa seria demonstrar uma visão estreitíssima da realidade e da história… Será que me expressei tão mal?… O que você chama de “vale-tudo cínico” começou faz muito, muito tempo… Para recuperar suas origens precisaríamos ir muito longe… muito antes das décadas de 80 e 90… E parte do cinema comercial norte-americano é somente uma de suas consequências…

Quanto ao atual governo, desculpe-me, mas devo discordar de você. Ele é de esquerda, sim. Talvez não do tipo de esquerda que você aprecia, mas é populista, demagógico e de esquerda. Daquela esquerda que finge acreditar na democracia enquanto é oposição e precisa da liberdade garantida pelos regimes democráticos para convencer a sociedade de que seus projetos e intenções são os melhores, mas que, assumindo o poder, gradualmente coloca a questão da liberdade em xeque, recuperando o discurso de que o estômago cheio e o poder de consumir são mais importantes do que esse valor – para ela imaterial, e por isso menor – chamado liberdade. Já vimos essa história várias vezes… Para eles, é mais importante ser feliz – claro, a felicidade deles – do que ser livre.

Alegro-me por você acreditar que é possível escrever um romance como Crime e castigo nos dias atuais. Prova, eu já havia percebido, que você não é uma artista que se satisfaz em ser apenas reflexo dos tempos atuais. Quando ao A dama de espadas, crime, loucura e culpa estão lá, sem dúvida, mas a ambição os antecede, não é mesmo? A ópera de Tchaikovsky é belíssima. E já que chegamos aos russos, veja esta bela gravação de Boris Godunov, com o seu querido – e magnífico – Boris Christoff:

EU. Desculpe o mal-entendido. Agora está explicado. Este bicho político que sempre fui anda meio adormecido. Tenho olhado tudo com muito ceticismo, por isso prefiro não me manifestar. Confesso que minha descrença já é velha de pelo menos duas décadas. Nasceu logo depois que a ditadura morreu, nasceu com a frustração. É trágico. Aliás, não por acaso, a política foi tema para tantas tragédias. Os grandes autores e compositores perceberam isso. Boris Godunov é um exemplo. Obrigada pela lembrança. Aliás, ouvindo Boris Christoff, fiquei pensando na raridade desse timbre. Acho que vai ser preciso esperar mais um século para ter algo parecido.

E, por falar em drama político, me lembrei do Don Carlo de Verdi, baseado na obra de Schiller. A trama dá tanta atenção às questões políticas, que não é de admirar que essa não seja das óperas mais conhecidas. Só mesmo com muita maturidade alguém faria o que ele fez. Acho que por isso mesmo é das que mais gosto. A paixão do infante Carlos pela mulher do pai (Isabel, filha de Catarina com Henrique II) ao que consta é mito, mas rendeu bem. Ainda hoje os historiadores precisam jurar de pés juntos que tudo não passa de invenção. Neste vídeo, o trecho mais político da ópera: dueto de baixo (Felipe II) e barítono (Marquês de Posa), em que o marquês faz ao próprio rei crítica à sua política  em Flandres:

 

Mas, como vou ficar uma semana fora, quero te deixar material para farta diversão. Eu estava aqui observando que só falamos de coisas pesadas, não por acaso com muitos baixos e barítonos. Vou tornar a conversa mais leve. Vou falar de Carmen. Quem é que se lembra que Carmen é uma novela escrita por um sujeito chamado Prosper Mérimée? Aliás, quem conhece Prosper Mérimée? Por incrível que pareça, a Carmen novela é um texto até bem-humorado, em que um narrador arqueólogo se confronta com a cultura espanhola naquilo que ela tem de mais exótico para um francês e acaba tomando conhecimento da história do malfadado amor de Don José pela cigana. A ópera tem um tom muito mais trágico, porque, com a omissão do narrador, sobrou a história nua e crua. Sobrepujou o pesadume hispânico, apagou-se a ironia gaulesa. Não me parece fácil fazer o papel da cigana. Carmen era bela, voluntariosa e vulgar, mas sobretudo sensual. Essa mistura é complicada. Tenho uma gravação lamentável com Agnes Baltsa, que confundiu tudo e se tornou agressiva. Vi Cecilia Bartoli tentando uma habanera certa vez no Cultura Artística: parecia uma freira. Enfim, é preciso ter temperamento. Mando aqui um vídeo com Maria Ewing, que me parece das mais convincentes (embora lhe falte um dos ingredientes: a beleza).

E, para finalizar com personagem feminina, vou falar de uma ópera que sempre detestei: a famosa Traviata, versão operística da Dama das camélias de Dumas. Explico. Musicalmente, acho que ela tem momentos belíssimos, mas a história sempre me pareceu ridícula, irritante. Imagine se eu, nos meus tempos libertários, podia engolir uma história preconceituosa e machista como essa. Cheguei a brigar com uma tia-avó que ia lá em casa a cada dois, três meses e, sempre que aparecia, queria ouvir a Traviata. Pois um dia eu disse que odiava aquela ópera, ela ficou muito irritada, tivemos uma discussão irada. Ficou nos anais da família. Veja aqui a Netrebko. Netrebko tem muita movimentação em cena. Às vezes, acho que se movimenta demais, se cansa e acaba sem fôlego para cantar. Mas, é a tal história: o temperamento. Esta montagem é de Salzburgo.

 

[Resposta de Rodrigo e continuação da conversa na próxima semana]

  1. Pingback: Dedos de prosa com Rodrigo Gurgel « A Grenha

  2. Ótimo, este papo, entre duas pessoas que admiro, Rodrigo e Ivone. Infelizmente, não conheço ópera como os dois e me perdi um pouco nesses meandros, mas, quando se trata da grandeza artística, fico de olho (e ouvidos) a tudo. Meu gosto em música clássica se inclina para concertos, sinfonias e gosto muito de música sacra (vou aos céus e me desespero de paixão humana pelo Divino com o “Magnificat em ré maior”, de Bach). De óperas, só conheço trechos isolados, árias.
    Mas quero dizer que, no tocante à culpa, tão fora de moda segundo a análise de ambos (e por motivos tão tristemente torpes e poseurs), o banimento dela anda lado a lado com o banimento da responsabilidade individual numa cultura que autoriza tudo, desde que dê lucro e torne as pessoas escravizadas às suas leis de capitulação e prostituição. E, nesse aspecto, direita, centro e esquerda dão-se as mãos, porque a necessidade consumista de “ser feliz” fez escombros de tudo, colocando o desfrute acima de qualquer ideia de responsabilidade. Não se tolera a frustração, e por isso não se sai da infantilidade, não se cresce humana ou culturalmente. É o pior tipo de cenário para a culpa, que denuncia o trágico de nossa condição. Trágico, aliás, que tem grande lugar na ópera. Ópera, claro, que passou a ser anacrônica para muitos.
    Excelente, este papo. Parabéns, Ivone, pela iniciativa deste cantinho essencial para quem quer fugir à banalidade…

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