A estranheza do mito

Retomo o assunto do artigo O mito da estranheza, mas agora de maneira mais dinâmica, quero dizer, caminhando da teoria à prática e dando exemplos. Naquele eu falava da mania de estrangeirizar tudo — como se fosse preciso resgatar os pecados da domesticação — e da grande confusão que se faz entre estrangeirização (legítima em alguns casos) e decalque (ilegítimo sempre). Neste, pretendo tratar da estranheza de aderir à estranheza, contrariando o bom senso. Temos o costume de engolir mitos; não os criamos, mas os acatamos religiosamente. E é da natureza do mito perseverar na contracorrente dos fatos.


O mito do apego à letra é o atual avatar da antiga “fidelidade ao autor”. Essa expressão e sua irmã, “fiel ao autor”, sumiram dos manuais quando começaram a ser questionadas por alguns teóricos, sobretudo das linhas desconstrucionistas. Chegou-se a falar em motivações edipianas, e então muita gente, como que envergonhada, começou a migrar para a bermaniana fidelidade à letra, nova roupagem para um santo antigo. Observância total. A tal ponto que, por exemplo, quando Berman elogia a tradução de Klossowski Ils allaient obscurs sous la désolée nuit para o original latino Ibant obscuri sola sub nocte, dizendo que o francês manteve (eis a estranheza — viva!) a mesma inversão latina, ninguém pergunta por que ele passou batido por aspectos como aliteração, ritmo e outras coisinhas bem importantes em poesia. Quero dizer: em nome de um dogma, ignora-se a alma da tradução poética, que consiste em procurar manter o sentido (ainda que nem sempre o significado) por meio de elementos estéticos, de tal modo que o efeito estético (repito) sobre o leitor do texto traduzido seja o mesmo experimentado pelo leitor do texto original ou o mais próximo possível dele. Nesse sentido, a transcriação é infinitamente mais inteligente. Desde que bem entendida, claro, e não confundida com reprodução caótica (para não dizer paródica ou estrambótica) de sons e ritmos, como em certa tradução premiada, que tanto rumor causou há alguns meses. Ignorar o leitor, esse ator importante da tríade formada com o autor e o tradutor, é o que não confessa quem defende entusiasticamente a fidelidade à letra.

Boa parte dos tradutores, porém, superada a trôpega fase de iniciante, percebe que nada é tão simples quanto leva a crer a dicotomia estrangeirizar<>domesticar. No entanto, para se lidar com o que é complexo, há de haver jogo de cintura. Coisa que pouca escola ensina, privilégio como o batuque de Noel, que ninguém aprende no colégio. Porque, se o original faz rir, sorrir, solidarizar-se ou odiar, é preciso que a tradução também o faça, caso contrário não terá cumprido seu papel. De que vale traduzir um provérbio, um trocadilho ou uma piada ao pé da letra e botar no rodapé a informação de que na língua original isto quer dizer aquilo? O leitor ficará informado (e grato, se tiver paciência de ler a nota), mas frio. E aqui cabe perguntar: qual o papel da tradução, ou melhor, qual o papel desta ou daquela tradução? Pois, se cada uma tem um papel, como usar as mesmas táticas para todas? No entanto, é o que acontece. Muitos tradutores parecem totalmente tolhidos na criatividade. Curvam-se com tanta submissão ao original, que os textos ficam intragáveis, quando não ininteligíveis. E aí se pode sair do terreno da teoria consciente e cair no do decalque. É um passo. Dou um exemplo de decalque frustrante. Outro dia, passeando pela Livraria Cultura, vi um livro chamado Homens maus fazem o que homens bons sonham. Que língua é essa? Será essa a tal interlíngua de que falam os acadêmicos? Em toda a minha não tão curta vida nunca ouvi um brasileiro dizer espontaneamente uma frase assim. Não comprometo aqui o(a) tradutor(a), pois capa e título de livro são atividades conscienciosamente cumpridas à revelia de quem traduz. Eu mesma, publicados alguns livros que traduzi, fui surpreendida pelo título da capa (felizmente nunca com opção tão “estranha”). Dei esse exemplo para mostrar que algumas construções acabam parecendo normais, apesar de não fazerem parte do repertório do falante nativo de uma língua, e que a coisa se generaliza.

Por contraste, lembro aqui Alison Entrekin, em sua entrevista à revista Época. Quando lhe perguntaram qual era sua palavra favorita em português, ela respondeu: orelhudinho. E depois explicou:

É muita informação embutida numa palavra só. Acho isso maravilhoso. Esta elasticidade da língua portuguesa. Dos diminutivos e dos aumentativos.
Engraçado é que uma estrangeira veja isso, enquanto muito brasileiro seria capaz de usar algo como pequeno menino de orelhas grandes.
Mas à Alison volto depois. Por enquanto fico na estranheza estrangeirizadora consciente. Não nego que nos meus tempos de meninice tradutória já tenha até sido sua adepta. Perpetrei desatinos que hoje renego. Adoraria reparar alguns. Com o tempo e a prática percebi que o leitor quer ler, não tropeçar, que está se lixando para teorias da tradução, que quer se enternecer, se divertir ou chorar tanto quanto o leitor estrangeiro. Mas, para causar efeito, é preciso ousar. Quem ousa peca, tanto quanto quem não. Mas com o tempo começou a me parecer melhor pecar pela ousadia que pela covardia.
Haveria muitos exemplos, mas eu precisaria escarafunchar meus arquivos (alguns foram perdidos em disquetes frágeis) ou reavivar minha memória (já um tanto combalida).

Caso mais recente foi o de Ilusões perdidas, que alguns acompanharam. Ilustra bem duas concepções opostas, com efeitos tragicômicos. Quando a L&PM encomendou a tradução, sua editora informou que não gostaria que os nomes fossem traduzidos (coisa que ocorreu na coleção da Globo, dirigida por Rónai, em que Lucien virou Luciano etc.). Concordei. Esse é justamente um aspecto da estrangeirização que me parece legítimo. Nome é fato cultural, e mantê-lo ajuda a preservar um clima que dê ao leitor a dimensão do estrangeiro, necessária para que ele não tenha a falsa impressão de estar lendo um romance brasileiro ou português. Isso em princípio, mas não incondicionalmente. Há nomes e nomes. Há os que “querem dizer” alguma coisa, aqueles cujo significado é importante no enredo. Para o bem da literatura, será preciso traduzi-los. Foi o que fez Lia Wyler com frequência no Harry Potter, por exemplo. E há nomes que a tradição histórica impõe traduzidos, e ignorar esse fato é, justamente, demonstrar ignorância. Exemplo? Certos nomes de cidades, reis, papas, santos, artistas, filósofos etc. Mas em Ilusões perdidas algum revisor, em algum momento, não entendeu por que eu mantinha Lucien, mas escrevia Francisco I, e resolveu “estrangeirizar” tudo, atendendo decerto a algum princípio mal compreendido. Na época, fiquei muito zangada. Comento esse fato agora porque tive a grata satisfação de receber, oficiosamente, a notícia de que será lançada em breve a segunda edição com as devidas correções.

Mas, voltando ao princípio. Por que eu disse que essa tradução ilustra concepções opostas? Porque, enquanto o revisor tentava estrangeirizar a qualquer custo, eu procurava domesticar (com perdão da palavra) os trocadilhos, rotulados como intraduzíveis ao longo de todo o texto pela equipe de Rónai na edição da Globo (que, parece, está sendo relançada). Não sei se fui bem-sucedida ao traduzir, por exemplo, le temps est un grand maigre (paródia de le temps est un grand maître = o tempo é um grande mestre) por o tempo é o melhor remendo (paródia de o tempo é o melhor remédio); ao traduzir les vers dévoreront la librairie ! (os versos/vermes devorarão os livros) por com versos não quero prosa! num momento em que um livreiro arrogante faz o trocadilho para rejeitar a produção poética do herói e dizer que prefere a prosa… Mas ousei. Não me amarrei à letra, porque naquele momento isso me parecia empobrecedor. Em compensação, num livro de exercícios filosóficos, quando a autora usa tomber amoureux para fazer elucubrações sobre o uso de tomber (cair) nas relações amorosas, como traduzir a expressão pelo seu correspondente usual (= apaixonar-se), se com ele não se conseguiria estabelecer um nexo com os comentários em torno de cair? Então precisei do apego ao original, com a condição de não criar um monstrengo tradutório. Lancei mão de “estar caído por alguém”, e assim resolvi a questão.

Enfim, estrangeirização ou domesticação? Nenhum dos dois. Jogo de cintura é a resposta. É o que faz Alison Entrekin, como deixa claro em sua entrevista à revista Época. A propósito de Cidade de Deus, diz a certa altura, numa evidente demonstração de que tenta evitar estranhamentos inúteis, mas ao mesmo tempo precisa manter a cor local:

Se eu fizesse apenas para o inglês britânico e a mesma coisa saísse nos Estados Unidos, os ingleses achariam muito natural e se entregariam à leitura. Mas os americanos não iriam se entregar porque toda hora se deparariam com palavras que soariam britânicas. Isso poderia levar o leitor americano a imaginar uma história se passando na Inglaterra e não no Brasil. Da mesma forma que não posso usar as gírias de um bairro pobre de Nova York para falar da realidade de uma favela no Brasil, porque os leitores vão entender aquela realidade como sendo a de Nova York e não a do Brasil. É bem complexo .

Em outro trecho, sobre a mesma Cidade de Deus, numa evidente demonstração do esforço por manter dados culturais, fala do momento em que tentou adaptar a gíria carcerária brasileira à inglesa:
Só que depois desta pesquisa toda, acabei traduzindo mais ao pé da letra. Embora na Inglaterra possam não chamar de xerife [um tipo de preso], achei que [a palavra] refletia algo daqui, pelo fato de terem escolhido chamar de xerife.

Por fim, uma frase da Alison, que eu assinaria embaixo:
É possível explicar em nota de rodapé, mas aí esbarra na fluidez, em não querer quebrar a suspensão da descrença do leitor.
Suspensão da descrença, a chave do encantamento da ficção. Que direito tem a tradução de quebrá-la?

O mito da estranheza

Este é um momento em que as editoras brasileiras estão dando preferência às traduções feitas diretamente de idiomas originais mais “exóticos”, abandonando de vez as traduções de traduções de línguas pertencentes a um universo cultural mais próximo, como o do francês e do inglês. O enriquecimento de nossa sociedade deve ter relação com essa mudança, que conta já umas duas décadas. Coincide, não por acaso, com uma discussão (já também não muito nova) sobre duas atitudes aparentemente antagônicas: a domesticação e a estrangeirização em tradução. Para os que não pertencem ao ramo, tento explicar: a tradução domesticadora cria um texto fluente, que não parece traduzido, lançando mão de arredondamentos sintáticos, fugas vocabulares e adaptações culturais capazes de criar grande distância em relação àquilo que está na língua original e pode causar estranheza; a estrangeirizadora teria, teoricamente, o objetivo de deixar transparecer essa mesma estranheza, preservando tudo o que seja possível da língua de origem.
As resenhas de livros traduzidos, quando se dão o trabalho de comentar a tradução, oscilam entre esses dois polos: há quem elogie traduções pela fluência ou as critique pelo oposto, e há quem considere positivo o apego ao texto de origem, ainda que a fluência seja sacrificada.
Eu não estaria escrevendo este texto agora se essa oscilação não fosse capaz de desnortear o próprio tradutor.
Um pouco de história. Como nasceu a valorização do apego ao texto de origem, da chamada tática estrangeirizadora em oposição à domesticadora, àquela que costuma ser tachada de etnocêntrica? O paradigma desta é a prática das belas infiéis (belles infidèles), cujo florescimento, segundo os historiadores da tradução, abrangeria o período que vai do século XVI ao XIX (em seus aspectos de defesa ideológica, pelo menos, pois o próprio século XIX é dado como o marco do nascimento da abordagem filológica, que valoriza o texto de origem). Sabe-se, porém, que sua prática se estende pelo século XX adentro. Sabe-se também que na Alemanha do século XIX surgiu, contra essa prática, a mais forte e fundamentada reação, cujos agentes eram representantes de uma burguesia ilustrada (e até certo ponto nacionalista) que se insurgia contra os hábitos culturais e literários de uma aristocracia afrancesada. A literatura consumida pelo povo obedecia aos tais moldes “etnocêntricos” (de inspiração francesa, naturalmente), e assim a atividade do grupo de intelectuais alemães preconizador da busca da verdade do texto foi sempre caracterizada como elitista.
Esse movimento teve profícua posteridade em todo o mundo. A reação aos abusos da domesticação, porém, ainda que perfeitamente legítima em princípio, também incorreu em extremos cuja análise aprofundada não cabe num texto como este. Em linhas gerais, esses extremos se configuram na criação de artefatos linguísticos que não encontram ressonância na língua da tradução, tal qual falada e escrita no momento. Enfim, a prática dessa orientação cria construções artificiais, só presentes em traduções ou, em casos extremos, naquela tradução específica. De qualquer modo, convido a não perder de vista o momento histórico em que essa reação surgiu: o da busca de uma identidade nacional, no bojo do movimento de unificação alemã. Porque, paradoxalmente, naquele momento isso significava, entre outras coisas, lançar mão de um alemão mais antigo e genuíno. Significava a afirmação de uma língua ideal.
Seus adeptos se espalharam pelo mundo e, com o tempo, passaram a atuar no próprio núcleo da cultura contestada e contra ela. Na França, um de seus epígonos foi Antoine Berman, que teorizou dentro do próprio baluarte do etnocentrismo contra as práticas que em todo o mundo eram consideradas típicas da sua cultura. Em sua esteira, no universo anglófono, conta-se como importante a obra de Lawrence Venuti.
Toda visão etnocêntrica parte do pressuposto da superioridade da cultura do sujeito sobre a do outro. Tem sido combatida em todos os quadrantes em nome da compreensão e da consideração desse outro. Nada mais justo em princípio. Trata-se de uma luta que integra todo um legítimo questionamento pós-colonialista. Não por acaso floresceu na segunda metade do século XX.
Mas agora cabe perguntar: o que temos nós com isso? O nosso etnocentrismo, a exemplo do etnocentrismo combatido na Alemanha com sucesso no século XIX, sempre foi o alheio. Agora, é também alheia a sanha estrangeirizadora por nós assumida. Quando girávamos em torno das belas e infiéis traduções anglófonas e francófonas não sabíamos que praticávamos o etnocentrismo alheio. Agora, que giramos em torno dos duvidosos textos estrangeirizantes, fazemos o mesmo, também sem saber. Enfim, nós somos o “outro” do etnocentrismo, mas nunca soubemos disso ou nunca soubemos impor a nossa “outridade”; sempre engolimos o alheio como nosso. Continuamos antropófagos no pior sentido oswaldiano.
Entre a estranheza consciente e o decalque inconsciente a linha divisória geralmente não é visível ao leitor. Aliás, Henri Meschonnic não dobrou a língua (sem trocadilhos) e deu à nobre estranheza exatamente o ignóbil nome de decalque. Falava ele em clivagem do signo, coisa sutil, que regala os teóricos. Qual seria a diferença entre intencionalidade estrangeirizadora e decalque? Reduzindo, a consciência. Na primeira, é como se o tradutor dissesse: “Aqui a sintaxe estrangeira é x, o vocábulo estrangeiro é y, eu sei muito bem do que estou falando, e meu intuito é mostrar que este texto é estrangeiro”. No decalque, o tradutor importa estruturas inconscientemente e confunde cognatos sem perceber. A diferença entre os dois é a mesma que existe entre o pintor que faz o abstrato por opção e o que o faz só porque não domina as técnicas figurativas. Portanto, equiparar os dois é extremamente degradante para os estrangeirizadores. Contudo, o resultado final nem sempre denuncia a presença ou a ausência dessa consciência, e o texto é espinhoso (e não estou falando de erro).
A criação de estruturas estranhantes em certos idiomas é um ato de coragem. Isso ocorre em inglês e francês, por exemplo, línguas nas quais as posições de sujeitos, verbos, objetos e advérbios são legisladas com mão de ferro. O oposto é o português. Temos uma flexibilidade espantosa. Chegamos às raias da anarquia. Metemos os advérbios onde bem entendemos, podemos criar verdadeiros bailes de sujeitos e verbos numa troca atordoante de passos. Intercambiamos infinitivos e gerúndios com a maior cara de pau e não somos capazes de perceber a diferença entre este e o particípio presente porque reduzimos tudo a um denominador incomum, e ninguém parece se escandalizar. O maior índice da nossa irreverência está no uso dos pronomes: não uniformizamos nada, numa clara opção pela anomia. Para não dizer caos.
Por isso, as estruturas das línguas estrangeiras entram no nosso território sem pagar alfândega. E, quando alguém decalca, há quem o justifique: está deixando que em seu texto transpareçam as diferenças, transpareça o “outro”. Mas nós sabemos que não é bem assim. O decalque é prática cotidiana, fruto do desconhecimento da língua materna, fruto da perplexidade de quem não sabe muito bem para onde ir, porque precisa abrir seu caminho a facão. Qual é a melhor técnica de tradução? As alternativas parecem simples, mas não são. O tradutor, diante do elogio da prática estrangeirizadora, muitas vezes fica perplexo. Segui-la é estar na moda, é praticar o que a academia preconiza, afinal. E é produzir um texto que sempre encontrará defesa ou, no mínimo, complacência por parte de uns, mas também, quem sabe, profunda aversão por parte de outros.
Ser estrangeirizador, no caso brasileiro (desculpem) não é nada original, para não dizer revolucionário. Está longe da temeridade que representa derrubar os ícones de sua própria cultura ou desafiar os de uma cultura hegemônica. Significa, justamente, ir-maria-com-as-outras, em vez de enfrentar a maré. Afirmar conscientemente as características da própria língua, buscá-las no que há de mais genuíno, conhecer suas estruturas mais fluidas e elegantes, optar por uma terminologia mais apropriada e criativa são atitudes mais corajosas e originais, mais dignas de uma nação que se preze. E mesmo assim, paradoxalmente, é possível não ser etnocêntrico. Enfim, entre as duas táticas geralmente apresentadas como antagônicas há uma terceira via, pela qual na prática enveredam os bons tradutores, os que são capazes de escapar à balbúrdia reinante. Mas isso depois de muito autodidatismo, porque neste país o uso da língua é visto como coisa intrinsecamente intuitiva. Tal como criar filhos ou gingar num ritmo qualquer.

Ainda Número zero – desta vez no Jornal Rascunho

Umberto_Eco_ilustra_De_Almeida_186Em setembro o Jornal Rascunho publicou um artigo intitulado Sonolento e previsível, cujo autor fazia algumas afirmações sobre o mais recente romance de Umberto Eco, Número zero. Rebati essas afirmações em outro artigo, publicado em outubro, que recebeu o título de Em defesa de Eco.

Aí vai ele na íntegra.

Não tinha pensado em escrever nenhuma resenha ou artigo sobre o Número zero, de Umberto Eco, além do que já tenho escrito ou dito sobre minha tradução dessa obra. Aliás, não costumo publicar comentários sobre obras que traduzo, mas resolvi fazer uma exceção depois de ler o artigo de Luiz Horácio no número de setembro do Rascunho.

Farei uma abordagem literária inicial, que espero seja breve, pois o referido artigo também menciona minha tradução, o que me obriga a falar desse assunto numa segunda parte.

O título do artigo de Luiz Horácio é Sonolento e previsível [página 30]. Os dois epítetos se aplicam ao romance de Eco, e o resenhista se pergunta se foi esse mesmo Eco que escreveu outras obras de melhor qualidade, como O nome da rosa, por exemplo. Concordo nisso com o autor do artigo. Número zero de fato não atingiu o alto nível literário de outras obras de Eco. Mas não qualificaria o romance de “sonolento e previsível”. Afirmo até que ele nada tem de sonolento. Ao contrário, o clima de suspense consegue ser mantido com razoável sucesso, e os chistes que o percorrem também contribuem para avivar o interesse do leitor. Por outro lado, não sei se o desfecho pode ser qualificado de previsível. A mim parece que lhe falta um final bem engendrado, daqueles que nos fazem fechar o livro dizendo: onde é que esse cara foi buscar uma ideia tão feliz?

Nesse livro, é como se Eco não tivesse encontrado um bom modo de arrematar a trama tecida desde o começo. Mas nisso ele está bem acompanhado. Por si mesmo, em primeiro lugar, como ocorreu em L’isola del giorno prima (em português, A ilha do dia anterior), que começa promissor e acaba decepcionante. Ou por Calvino, que não me parece ter encontrado uma boa solução para sua genial ideia de O cavaleiro inexistente. Ou por tantos de nossos autores contemporâneos daqui e de além-fronteiras, que constroem historietas malparadas em cima de ideias precárias. E de repente são incensados. Portanto, se previsibilidade for sinônimo de falta de desfecho surpreendente, o termo está bem usado. Mas acho que o desfecho do romance mereceria uma análise mais minuciosa e aprofundada.

Ele diz muito sobre o clima mental de nossa época, aquele em que mergulha toda uma geração quando seus sonhos são destruídos e não há outros para pôr no lugar. Esse tipo de abordagem não vi em nenhum lugar.

Outra afirmação discutível: o romance é policial. Não, o romance é eminentemente político. Além da alusão a um crime logo no início, nada há que leve a enquadrar a obra no gênero policial. O desenrolar posterior da trama não comprova essa ilação. Assim, só poderá acabar frustrado quem tomar como fio condutor fundamental do enredo o crime mencionado nas primeiras páginas, pois ele só serviu de pretexto. Em grandes autores, não é incomum que a eventual roupagem policial sirva para prender a atenção do leitor e assim remetê-lo a outras camadas (estas, aliás, nem sempre percebidas). Há como que uma aposta do escritor: sigo a pista de um crime para envolver o leitor, que assim acaba por perceber outros elementos mais profundos da obra; e, se ele não perceber, perco a aposta, mas ganho um leitor. Essa nem sequer é a técnica de Eco aqui. O que prende a atenção do leitor não é a iminência nem a tentativa de desvendar algum crime, mas a sequência de uma história que começa com o pequeno mistério de uma torneira seca e a menção a alguma tramoia que vai sendo contada. E, permeando uma narrativa que dá destaque aos mecanismos do mau jornalismo (motivo talvez do grande sucesso do livro no Brasil), emerge a grande protagonista da história: a Itália do pós-guerra até nossos dias. Isto ficou escamoteado em todas as análises que li até agora. Por esse motivo as personagens são superficiais, como diz o autor do artigo. E são mesmo. Porque não são as verdadeiras protagonistas. As personagens de Número zero não passam de figurantes num teatro maior. E a existência de personagens superficiais na pena de escritores dessa envergadura deveria levar o leitor a buscar outras explicações.

Também infundada me parece a seguinte afirmação: “a mediocridade estapafúrdia de uma redação que trabalha para um jornal que jamais será publicado é representada pela pessoa de Bragadoccio (sic), retratado como Kojak e sua teoria da conspiração onde o assassinato é sempre a mola propulsora da trama”. Antes de mais nada, ocorreu-me sugerir uma pequena correção gramatical, qual seja, a de se colocar uma vírgula depois de Kojak, pois a teoria da conspiração não é de Kojak, e sim de Braggadocio. Mas talvez isso não resolva, porque é, sim, próprio das histórias de Kojak que o assassinato seja a mola propulsora da trama. Então deixemos de lado esse pequeno percalço e passemos adiante. Braggadocio não é “retratado” como Kojak. O que se diz é que ele “era calvo como von Stroheim, tinha a nuca em linha reta com o pescoço, mas com a fisionomia de Telly Savalas, o tenente Kojak”. Enfim, Braggadocio era uma mescla de duas figuras vistas em telonas e telinhas. Por que esquecer o primeiro e citar apenas o segundo, senão para forçar a barra e enquadrar o romance no gênero policial?

A verdade é que von Stroheim e Telly Savalas estão juntos aí porque quem faz a descrição é Colonna, que arremata: “Pronto, sempre a citação”. A citação: seu grande defeito. No caso, duas figuras da nossa “cultura do espetáculo”. Há dezenas de citações de todos os tipos no livro inteiro. Aliás, o próprio Braggadocio a certa altura é comparado ao Cardeal Hipólito. Essa comparação foi esquecida? A que pista levaria? Ou só vale a fisionomia de Kojak?

Continuando com a afirmação acima, do articulista, não discordo do caráter estapafúrdio da ideia de uma redação que trabalhe para um jornal do passado que não saiu no passado nem sairá no futuro. É, sim, estapafúrdia, mas quase todo enredo envolvente parte de alguma ideia estapafúrdia. Quem não tiver ideias estapafúrdias escreverá melhor na área científica ou jornalística, não na ficcional. Ficção é fábula. O que se deve analisar é com que inteligência, verossimilhança ou congruência essa ideia estapafúrdia foi desenvolvida e arrematada. É aí que a maioria dos romances desfalece.

Mas minha principal discordância é relativa ao seguinte segmento: “a mediocridade estapafúrdia […] é representada pela pessoa de Bragadoccio (sic)”. Ora, Braggadocio é a menos medíocre de todas as personagens. Em termos de, digamos, brilhantismo só Maia compete com ele. Não por acaso colidem, porque a fantasia dela se quer poética, enquanto a dele se quer realista. A meu ver, o representante da mediocridade é outro: Simei. Devidamente acompanhado por Colonna, o fracassado confesso. E não por acaso os dois. Para poder concretizar sua “ideia estapafúrdia”, Simei precisa de um Colonna. Simei se aninha numa espécie de núcleo narrativo. Em artigo que publiquei recentemente, qualifico Simei de “indigestão de Eco”[1]. Uma coisa que nenhum resenhista até agora se perguntou foi o seguinte: por que Simei, tão pusilânime diante de todas as propostas mais ousadas de pauta, deu total adesão à pauta de Braggadocio, a mais audaciosa de todas as estapafúrdias ideias apresentadas nas reuniões de redação? Será que nossos resenhistas não estão subestimando Eco? As afirmações de Braggadocio seriam tão delirantes assim? O seu desfecho e o filme da BBC (“duvidoso” por quê?) não seriam uma credencial a favor do que ele dizia, de tal modo que, confirmando-se como real uma parte de suas afirmações, a outra parte seria merecedora de pelo menos alguma condicional suspensão da descrença? Em termos de trama, seu próprio fim não lançaria luzes sobre a atitude de Simei? Ou Eco precisaria ter sido redundante para que os leitores desconfiassem dessas coisas?

E não é verdade que “Eco traz à tona fatos históricos completamente alterados devido ao desequilíbrio de Bragadoccio (sic), o editor paranoico”. Não, Eco traz à tona fatos históricos comprovados, alguns dos quais interpretados de maneira delirante por Braggadocio, mas não todos. E aqui não direi quais são comprovados e quais não, pois o leitor interessado não deverá encontrar dificuldades nessa pesquisa. Ademais, não quero me estender mais na análise para não tornar este artigo excessivamente longo. Encerro então esta primeira parte com uma pergunta: a realidade política e histórica de todos os tempos, em seus fatos comprovados, não terá tornado pálidas, tantas vezes, as mais delirantes hipóteses de qualquer ficcionista?

A tradução

Passo aos comentários relativos à tradução. A frase do resenhista que os desencadeia é a seguinte: “seria a enxurrada de clichês, entre eles, ‘no olho do furacão’, creditáveis a Eco ou a uma tradução etnocêntrica, domesticadora?”.

Vamos ver se entendi: Eco não usa clichês, mas a tradutora os enfia no texto porque gosta de “domesticar” suas traduções. Por quem me tomará o senhor Luiz Horácio? Não terá o resenhista prestado atenção à fala das personagens? Peço a paciência do leitor para a seguinte citação de um trecho de Número zero:

  • — A ira de Moscou? Mas não é banal usar sempre expressões assim enfáticas, a fúria do presidente, a ira dos aposentados e assim por diante?

  • — Não — disse eu —, o leitor espera exatamente essas expressões, foi acostumado a isso por todos os jornais. O leitor só vai entender o que está acontecendo se lhe disserem que há uma queda de braço entre duas forças, que o governo anuncia um pacote de sacrifícios, que vamos subir a ladeira, que o Quirinal está em pé de guerra, que Craxi disparou à queima-roupa, que o tempo urge, que não deve ser demonizado, que não é hora de dar apoio tapando o nariz, que estamos com a água no pescoço, ou então que estamos no olho do furacão. E o político não diz nem afirma com energia, mas dispara. E as forças da ordem agiram com profissionalismo. [grifos meus]

Em que contexto foi dito isso? O leitor atento perceberá que no diálogo quem faz a pergunta (por acaso Braggadocio) está pondo em dúvida a necessidade do uso de clichês, e quem responde (Colonna) afirma que eles são necessários porque o leitor só entende um texto quando eles estão presentes. Que o leitor me perdoe por precisar fazer uma paráfrase de um texto absolutamente claro. Portanto, Colonna defende o uso de clichês. E a tradutora os inventou?

Não, a tradutora não os inventou. Mas a tradutora traduziu, sim, clichê como clichê, em sua correspondência de sentido, registro e frequência de uso no Brasil. Não traduziu o clichê italiano ao pé da letra, entregando ao leitor uma “fórmula estrangeirizadora”, um estranhamento, um texto opaco, mas fiel à letra do original. Com perdão de papai Berman e de titio Venuti, a tradutora domesticou, sim, para que o leitor brasileiro entendesse como clichê o que é clichê, como chiste o que é chiste, e não como frase sem sentido o que para os italianos faz todo sentido e até os faz rir. Mas não foi necessário “domesticar” occhio del ciclone, pois sua tradução literal é olho do ciclone, que tomei a liberdade de “domesticar” (com perdão da má palavra), substituindo ciclone por furacão, pois é como olho do furacão que se conhece a figura por aqui.

Outras fórmulas foram muito mais premeditadamente “domesticadas”, e eu poderia entregar todas as minhas pecaminosas domesticações de bandeja ao resenhista, se não corresse o risco de me estender demais. Aliás, em Florianópolis mesmo estive há pouco tempo expondo a uma plateia de estudantes e professores todos os meus bárbaros etnocentrismos, entre os quais a criminosa tradução de Preciso Smentuccia por Elucídio Desmentino. Porque Preciso Smentuccia é uma paródia transparente para um italiano, e sua tradução “estranhadora” seria opaca, sem sentido e sem graça para um brasileiro. Ou eu deveria manter a opacidade em nome da sacrossanta “fidelidade à letra”, como gostam de preconizar os bermanistas?

Sei que para a maioria dos leitores estou falando grego. Mas não fui eu que introduzi esse assunto. E, já que ele veio à baila, quero finalizar este artigo com alguns comentários sobre esse tema.

Faço parte do grupo não muito grande de tradutores que têm um pé na Academia e outro na prática de mercado. E na Academia existem, felizmente, algumas pessoas com suficiente clareza de ideias para defender e praticar o diálogo entre a teoria e a prática. E algumas dessas pessoas estão — justamente — em Florianópolis. O que nos une? É a ideia de que toda teoria, para continuar válida, deverá ser confirmada pela prática; e toda prática, para ser digna, deverá ser iluminada pela teoria. É uma dialética. Quem não a enxerga teoriza no deserto ou pratica às cegas. A dicotomia domesticação-estranhamento, como toda dicotomia, está fadada à esterilidade porque deixa de reconhecer as inúmeras interações em jogo no ato da tradução.

Não costuma parecer pertinente a quem defende a estratégia da estranheza a qualquer custo verificar em que contexto histórico surgiram os teóricos que a preconizam. Pois bem, essas teorias nasceram em contexto hegemônico, em países de tradição colonialista, e não em países como o nosso, colonizados econômica e culturalmente desde sempre. Lá, no Hemisfério Norte, alguns tradutores mais lúcidos repararam que as nuances culturais do estrangeiro costumavam ser obliteradas em nome da criação de um texto que fosse recebido com mais naturalidade pelos leitores da cultura de chegada da tradução, cultura tradicionalmente etnocêntrica. E passaram a defender o contrário. Com muita pertinência, aliás. Mas aqui, abaixo do Equador, dois fatos nos distinguem: primeiro, não somos cultura hegemônica, e sempre fomos permeáveis demais a tudo o que vem do exterior, a ponto de ser necessário estabelecer algumas fronteiras bem demarcadas para o que é válido ou pertinente “estrangeirizar” e o que não é; segundo, é preciso verificar com que tipo de texto se está lidando, pois a cada texto e — digo mais — a cada segmento de texto podem caber estratégias diferentes e opostas de tradução. Só o bom senso e a bagagem cultural e vivencial são capazes de indicar ao tradutor que estratégia usar e em que momento. De uma coisa tenho certeza: o chiste (e, como eu disse, há chistes no livro inteiro) ou é traduzido como chiste ou perde a razão de ser. E a tradução do chiste como chiste vai muito além de considerações dicotômicas desse tipo. Ao lado do chiste alinham-se a poesia e a publicidade, como tipos de textos geralmente invalidados pelas técnicas rígidas de “fidelidade à letra”.

Mas preciso encerrar, não por me faltar o que dizer, mas justamente por ter muito o que dizer sobre um assunto árduo, pelo qual o leitor deste jornal logo logo deixará de se interessar.

 

[1] “A personagem número zero de Umberto Eco”, A Grenha, 12/08/2015, https://ivonecbenedetti.wordpress.com/2015/08/12/a-personagem-numero-zero-de-umberto-eco/

Suplemento especial com tradutores brasileiros

São Jerônimo escrevendo - Caravaggio
São Jerônimo escrevendo – Caravaggio

A hora e a vez do tradutor brasileiro

Suplemento especial da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais

Organização de João Pombo Barile 

Arquivo PDF: SuplementoTradutores-Novafonte2

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A personagem NÚMERO ZERO de Umberto Eco

umberto eco

ENTREVISTA DE UMA PERSONAGEM POR UMA TRADUTORA

ou Diálogo de uma invisibilidade com uma ficção, em que a primeira arranca à segunda informações que esta não quer dar sobre as citações do livro Número Zero de Umberto Eco

Simei, uma das personagens centrais de Número zero, é a síntese da ausência de grandeza. Simei não é herói nem anti-herói porque no mundo dele essa palavra não tem significado, e o mundo dele é o mundo real, no sentido mais rasteiro da expressão “mundo real”. Simei é uma daquelas personagens que pesam no estômago do autor e precisam ser expelidas antes que o matem, como aconteceu ao oficial Kane na fábula cinematográfica Alien.

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Minha avó analfabeta

ouro para o bem do brasil

Eu vivia meio distante dela, de minha avó analfabeta, que me criou até os dez anos de idade com afagos de mãe. Por problemas familiares, estávamos afastadas, morando cada uma de um lado da cidade: ela adoentada, e eu numa idade que não me permitia ainda plena capacidade de ir e vir. Foi quando soube que ela estava hospitalizada, não me lembro por qual doença. Lembro que peguei vários ônibus e fui visitá-la numa tarde chuvosa. Entrei no quarto com uma de minhas tias: ela dormia. Eu nunca tinha visto aquela mulher tão entregue, tão desarmada e derramada em sono tão profundo. Logo me informaram que não acordaria tão depressa, estava sedada. Continuar lendo “Minha avó analfabeta”

O tradutor e o português

mapamundi01Este texto é transcrição de uma apresentação que fiz em 2002, a convite de Regina Alfarano e Adauri Brezolin, no auditório Mozart da UNIBERO, por ocasião do evento comemorativo do dia do tradutor e do lançamento do no. 11 da revista Tradução e comunicação. Aborda a repercussão da atual (não) formação profissional do tradutor sobre a sua proficiência em língua portuguesa, a necessidade de domínio dos diversos registros da sua língua para o bom exercício da profissão, o modo como o ensino de língua portuguesa tem sido encarado nos últimos tempos e a inserção do tradutor na realidade político-social através do uso que ele faz do seu idioma.

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Immaculada – uma entrevista sai do baú

estatueta de mulher-com ladrilhoClique aqui para ler um trecho de Immaculada.

Esta minha conversa com Duanne Ribeiro é de 2010. Foi publicada na revista eletrônica Capitu. Gostei muito da abordagem dele ao meu romance, mas, infelizmente, a revista parece que saiu do ar e, com ela, esta entrevista. Remexendo os guardados, descobri o texto, que agora reproduzo.Continuar lendo “Immaculada – uma entrevista sai do baú”

O Pequeno príncipe – notas de (uma) tradução – 3

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ATENÇÃO: OS TRÊS ARTIGOS SOBRE A TRADUÇÃO DE O PEQUENO PRÍNCIPE ESTÃO REUNIDOS EM NOVO ENDEREÇO. LEIA A ÍNTEGRA CLICANDO AQUI.

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GÊNEROS E GÊNEROS

Não é novo o assunto “diferença de gêneros nas diversas línguas para designar a mesma coisa”. Sobre ele já li coisas interessantes e também ouvi algumas besteiras. A mais memorável, para mim, saiu de uma professora de latim: segundo ela, arbor (árvore) era feminino porque dava frutos. Então me perguntei por que o francês teria transformado seu descendente arbre em masculino e por que cargas d’água flos, que é a flor, da qual sai o fruto, Continuar lendo “O Pequeno príncipe – notas de (uma) tradução – 3”

O espectro do recato

charcot03Comecei a pensar neste texto uns anos atrás. Como se vê, resisto a escrever crônicas.

Aos fatos.

Foi no Theatro São Pedro, ao voltar da escapada ao banheiro, no intervalo entre o primeiro e o segundo ato do Barbeiro de Sevilha de Paisiello. Uns quinze minutos antes, chegando à porta da toalete, tinha deparado com uma fila de mulheres que me impedia de entrar. De onde parei, pude avistar lá dentro duas portas, duas privadas: Continuar lendo “O espectro do recato”

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