Da educação editorial (comentário a uma reportagem do Estadão)

O Caderno Cultura do Jornal O Estado de São Paulo traz na página 6 (D6) da edição de hoje em artigo de Francisco Quinteiro Pires sobre a reedição de uma antiga tradução de Educação sentimental e a previsão de uma nova tradução que deverá ser lançada em 2010 pela Cosac Naif. A tradução antiga é da autoria de Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), e a editora é a Nova Alexandria. A da Cosac Naif será assinada por Samuel Titan Jr.

Não conheço a tradução de Adolfo Casais Monteiro, li a obra em francês, mas, segundo Titan, ele “não percebeu a modernidade de Flaubert”, e, por causa disso, “nos pontos em que Flaubert é mais prosaico, ele adota um viés metaforizante, arredonda frases e parágrafos para privilegiar o fluxo da ação”.

Conheço traduções assim, Titan deve ter razão, ele que sabe em que terreno está pisando. Mais não digo porque não fiz nenhum cotejo, e o objetivo principal destas linhas não é discutir esse caso particular.

O que eu gostaria de comentar, numa visão mais global, é um desdobramento a que esse assunto levou, adiante no mesmo artigo, quando o jornalista insere comentários de Ivo Barroso. Diz este último: “Fiquei contente em saber que a Nova Alexandria preferiu sua [de Casais Monteiro] tradução a encomendar uma nova, que poderia incidir em alguns vezos censuráveis entre nossos jovens tradutores”. Quais seriam esses vezos? Segundo o mesmo Barroso, “modernizar a linguagem e a lexicografia, tirando ao texto original o seu sabor de época”, o que “equivaleria a fazer um copidesque nas obras de Machado de Assis, eliminando as mesóclises, as construções vernáculas, os termos raros ou que caíram em desuso”.

Não caberia a esse tipo de matéria jornalística tentar esclarecer a aparente discrepância entre Titan e Barroso: enquanto o primeiro diz que Casais Monteiro metaforiza e arredonda (o que é condenável), o segundo diz que sua tradução é um clássico porque preserva o espírito da época e nos livra dos vezos dos “jovens tradutores”. Digo aparente porque, por mais engraçado que pareça, os dois podem ter razão.

Bom tema para discussão. Precisamos aguardar a tradução de Titan para voltarmos a ela.

Mas, mesmo sem entrar nos pormenores desse caso, é possível falar de algumas questões gerais que costumam ficar esquecidas pelos que abordam esse tipo de assunto não só nesse artigo, mas em todas as discussões.

O primeiro é o da real necessidade de retraduções. Quem as defende se baseia no postulado de que tradução envelhece. De fato. Tanto quanto qualquer texto. Com uma diferença: o texto original é amado mesmo com alguns séculos de aniversário e só quando deixa de ser reconhecido pelos mais sabidos alguém se lembra de lhe fazer alguma plástica restauradora ou de lhe dar a companhia de uma linda paráfrase para que ele possa reafirmar sua potência e tornar-se de novo atraente. A tradução, já nas primeiras rugas, é repudiada e substituída por uma jovem retradução.

Metáforas à parte, suponhamos que temos em mãos uma tradução boa, muito boa mesmo, e que não se encontre no momento ninguém do gabarito do tradutor primeiro: por que não permitir que o texto envelheça tanto quanto o texto original?

Por duas razões. A primeira é cultural: considera-se como ponto pacífico que texto intocável é só o do autor, não o do tradutor. Autor escreveu, está escrito e sacramentado; tradutor, não. O que o autor escreve ganha a força da pedra; o texto do tradutor mal tem a fluidez do vapor. Porque se espera que este, afinal, crie algo idêntico ao original e, como isso não é possível, fica sempre aberta a possibilidade de se tentar algo mais perfeito. Está aí em jogo a utopia da identidade, sobre a qual, aliás, remeto ao meu artigo sobre Paul Ricoeur, na página de tradução deste blogue. Enfim, o texto do autor é imperfectível; o do tradutor é perfectível.

Vesguice pura. Qualquer texto é perfectível, mesmo o do autor. Para este, salvo raríssimas exceções, nenhum texto seu é imperfectível. Mas, também segundo nossos hábitos culturais, em texto do autor só ele mesmo mexe. Como o tradutor não é autor e como seus textos são vendidos a uma editora, e quem compra é dono, o texto do tradutor é sempre passível de mexidas e remexidas, antes e depois da publicação.

O segundo aspecto é mercadológico. Interessante que em nenhum dos congressos, colóquios, simpósios e que tais, em que presenciei a discussão desse assunto, se mencionou jamais a questão mercadológica. Em todos eles precisei lembrar que ela existe. Há clássicos de domínio público que representam venda garantida, sem os riscos inerentes ao lançamento de autor desconhecido. Além disso, não havendo necessidade de pagar direitos, os custos se reduzem substancialmente. É tão voraz a fome por esses mercados, que certos clássicos têm quatro, cinco traduções simultâneas em circulação e (pior!) algumas editoras inescrupulosas não resistem à tentação de lançar plágios de traduções já existentes, furtando-se até a pagar um tradutor. Ocorre que o mercado não intelectualizado não digere bem linguagens que não lhe sejam familiares, portanto, as editoras precisam adaptá-las. Ou fazem isso, ou não vendem tanto quanto desejam.

Essa questão me leva de volta à afirmação de Ivo Barroso sobre os “jovens tradutores”, ou seja, aqueles que têm o vezo de “modernizar a linguagem e a lexicografia, tirando ao texto original o seu sabor de época”. E por que me levou de volta a essa afirmação? Porque esse vezo pode não ser do “jovem tradutor”, e sim da editora. De qualquer modo, o tradutor, jovem ou não, nunca atua sozinho, e o jovem não só é mais permeável às imposições da editora (afinal, está tentando se afirmar na carreira) como também, talvez, mais afinado com as preferências dos editores e seus auxiliares, no mais das vezes também jovens.

Não é incomum essa confusão de atribuir ao tradutor o que não lhe cabe, pelo menos em parte. Este ou é superestimado ou subestimado, como se seu trabalho não estivesse intimamente atrelado ao dos editores. Esse vínculo às vezes não é visto com clareza nem por suas duas partes. É sempre árdua e às vezes desastrosa a relação entre os dois atores. Jogo de cintura e capacidade para discutir questões linguísticas são qualidades nem sempre presentes dos dois lados. As editoras que conseguem manter uma relação de alto nível entre seu departamento editorial e seus tradutores são as que obtêm mais qualidade em seus produtos. Mas para isso é preciso que todos tenham bom nível.

Voltemos à linguagem. Fez parte da prática de vários tradutores e editores do passado (e alguns do presente) o arredondamento do anguloso, o embelezamento do feio, sem falar da omissão de trechos obscenos ou considerados como tais. Afinal, era forte então a influência dos métodos adotados pelos partidários das belles infidèles. Ainda há resquícios disso. Nem sempre é fácil a uma encantadora senhora de classe média meter os dedos na merda que algum autor pouco preocupado com sua pudicícia lhe joga no monitor. Os jovens descolados têm menos problemas com esse tipo de coisa. Mas o que dizer dos editores? Só eles podem responder. Não é incomum o tradutor receber um telefonema ou um e.mail de certos editoriais perguntando se não daria para trocar esta palavra por aquela. E o tradutor pensa: mas é trocar seis por meia dúzia. Não, não é. Há conotações que incomodam, e é mais fácil dialogar com base em regras gramaticais do que em conotações.

E por falar em jovens, mas não só tradutores, eu diria que os vezos a que Ivo Barroso alude têm implicações mais amplas. Por exemplo, somos etnocentristas. Questão pronominal, para começar. Só engolimos o tu quando na pena, (opa) no teclado, de algum português, de preferência incensado. Afinal, é assim que eles falam lá, paciência. E o etno- do etnocentrismo aí não está para Brasil, mas para Sudeste do Brasil, mais especificamente para eixo Rio—São Paulo, onde é muito comum a cegueira em relação ao restante do País, que dirá ao restante do universo lusófono. Outro aspecto, mais sutil, da questão pronominal é que nossa proverbial anomia implica enorme flutuação nos vínculos entre os vários pronomes e respectivas hierarquias, conotações de respeito ou intimidade e coisas desse tipo. Sem atingirmos a democrática unicidade do you, passeamos a esmo entre você, senhor e senhora, evitando o tu e (cruz-credo!) o vós. Parece fácil e prazerosa essa anomia, desde que não sejamos obrigados a traduzir outras culturas mais estratificadas. Quem só conta com um you não quebra a cabeça e procura transmitir tais conotações por outros meios, desde que tenha capacidade para isso. Mas quem conta com meia dúzia de possibilidades flutuantes às vezes se enrasca, sobretudo se for jovem. Jovem que, por falhas da formação escolar mais recente, muitas vezes foge de pronomes menos usuais porque o uso deles implica a concordância da conjugação verbal, e aí a coisa pega.

Isso quanto aos pronomes.

A questão lexical é também complexa. Primeiro porque em geral se conhece ínfima parcela do que nossos dicionários registram. E olhe que temos palavras interessantíssimas, capazes de traduzir coisas inimagináveis, palavras cujo único pecado é a ignorância dos falantes. Essas, quando desenterradas pelo tradutor, por mais úteis que sejam, correm o risco do descarte pelo editor. Por outro lado, há a questão do anacronismo. Quem se interessa em saber se, ao traduzir um autor do século XIX, está empregando palavras que entraram para o léxico português no século XX? Quem se preocupa em manter a simplicidade lexical de uma época na qual só existia metade das palavras que registramos hoje? Por outro lado, o que fazer quando a obra nunca foi traduzida? Imaginar o que teria sido sua tradução na época da escrita e tentar reconstruí-la? Tarefa insana.

E a sintaxe? Muito mais complexa é a análise da construção sintática. O que manter e o que mudar? O que faz parte dos usos estruturais da língua e o que é da alçada das opções do autor? Como saber disso sem noções filológicas, sem um estudo diacrônico mínimo? Como saber disso sem nem dominar a sintaxe?

Enfim, há sutilezas que é preciso ter vivência literária para identificar. Todo candidato a tradutor de literatura deveria frequentar, pelo menos como ouvinte, algum curso de teoria literária na faculdade mais próxima. Aliás, eu daria o mesmo conselho a revisores e editores em geral. Mas nestas plagas a tradução de literatura não é vista como atividade especializada.

Pobre leitor!

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3 comentários em “Da educação editorial (comentário a uma reportagem do Estadão)

  1. Vejo no seu texto uma síntese das questões teóricas e práticas essenciais de que deve ter consciência o tradutor, além da necessária lembrança de que traduzir e escrever estão submetidos às leis do mercado.

  2. Prezada Ivone.
    Existe outro elemento a ser considerado na tradução de um clássico. Os clássicos não são “imutáveis”, na medida em que tem uma história editorial. Quem teve em mãos a edição comemorativa do IV Centenário Dom Quixote, da Santillana, onde existem facsímiles de algumas páginas da edição original, percebe claramente que a leitura desse original seria, hoje, possível apenas para especialistas. A vida editorial do Quixote não apenas normatizou ortografia: abriu parágrafos, normatizou a pontuação, etc. A própria disposição gráfica da edição “traduz” determinados contextos culturais e sociais da “evolução” da apreciação do clássico. E isso tudo se reflete nas traduções feitas em diferentes épocas. Para ficar no nosso idioma, as Peregrinações, do Fernão Mendes Pinto não tiveram essa intensa vida editorial do Quixote, e por isso mesmo as edições modernas podem parecer mais “distantes” do original quinhentista. E não são traduções.
    Assim como a percepção social da obra original se modifica no país de origem – e provoca “intervenções” editoriais (no bom sentido, dito seja de passagem), as traduções refletem a percepção que, a partir de outra cultura, se tem da obra original, marcadas pelas condições históricas e sociais em que se faz a tradução.

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