O mito da estranheza

moon02_edited-1AEste é um momento em que as editoras brasileiras estão dando preferência às traduções feitas diretamente de idiomas originais mais “exóticos”, abandonando de vez as traduções de traduções de línguas pertencentes a um universo cultural mais próximo, como o do francês e do inglês. O enriquecimento de nossa sociedade deve ter relação com essa mudança, que conta já umas duas décadas. Coincide, não por acaso, com uma discussão (já também não muito nova) sobre duas atitudes aparentemente antagônicas: a domesticação e a estrangeirização em tradução. Para os que não pertencem ao ramo, tento explicar: a tradução domesticadora cria um texto fluente, que não parece traduzido, lançando mão de arredondamentos sintáticos, fugas vocabulares e adaptações culturais capazes de criar grande distância em relação àquilo que está na língua original e pode causar estranheza; a estrangeirizadora teria, teoricamente, o objetivo de deixar transparecer essa mesma estranheza, preservando tudo o que seja possível da língua de origem.

As resenhas de livros traduzidos, quando se dão o trabalho de comentar a tradução, oscilam entre esses dois polos: há quem elogie traduções pela fluência ou as critique pelo oposto, e há quem considere positivo o apego ao texto de origem, ainda que a fluência seja sacrificada.

Eu não estaria escrevendo este texto agora se essa oscilação não fosse capaz de desnortear o próprio tradutor.

Um pouco de história. Como nasceu a valorização do apego ao texto de origem, da chamada tática estrangeirizadora em oposição à domesticadora, àquela que costuma ser tachada de etnocêntrica? O paradigma desta é a prática das belas infiéis (belles infidèles), cujo florescimento, segundo os historiadores da tradução, abrangeria o período que vai do século XVI ao XIX (em seus aspectos de defesa ideológica, pelo menos, pois o próprio século XIX é dado como o marco do nascimento da abordagem filológica, que valoriza o texto de origem). Sabe-se, porém, que sua prática se estende pelo século XX adentro. Sabe-se também que na Alemanha do século XIX surgiu, contra essa prática, a mais forte e fundamentada reação, cujos agentes eram representantes de uma burguesia ilustrada (e até certo ponto nacionalista) que se insurgia contra os hábitos culturais e literários de uma aristocracia afrancesada. A literatura consumida pelo povo obedecia aos tais moldes “etnocêntricos” (de inspiração francesa, naturalmente), e assim a atividade do grupo de intelectuais alemães preconizador da busca da verdade do texto foi sempre caracterizada como elitista.

Esse movimento teve profícua posteridade em todo o mundo. A reação aos abusos da domesticação, porém, ainda que perfeitamente legítima em princípio, também incorreu em extremos cuja análise aprofundada não cabe num texto como este. Em linhas gerais, esses extremos se configuram na criação de artefatos linguísticos que não encontram ressonância na língua da tradução, tal qual falada e escrita no momento. Enfim, a prática dessa orientação cria construções artificiais, só presentes em traduções ou, em casos extremos, naquela tradução específica. De qualquer modo, convido a não perder de vista o momento histórico em que essa reação surgiu: o da busca de uma identidade nacional, no bojo do movimento de unificação alemã. Porque, paradoxalmente, naquele momento isso significava, entre outras coisas, lançar mão de um alemão mais antigo e genuíno. Significava a afirmação de uma língua ideal.

Seus adeptos se espalharam pelo mundo e, com o tempo, passaram a atuar no próprio núcleo da cultura contestada e contra ela. Na França, um de seus epígonos foi Antoine Berman, que teorizou dentro do próprio baluarte do etnocentrismo contra as práticas que em todo o mundo eram consideradas típicas da sua cultura. Em sua esteira, no universo anglófono, conta-se como importante a obra de Lawrence Venuti.

Toda visão etnocêntrica parte do pressuposto da superioridade da cultura do sujeito sobre a do outro. Tem sido combatida em todos os quadrantes em nome da compreensão e da consideração desse outro. Nada mais justo em princípio. Trata-se de uma luta que integra todo um legítimo questionamento pós-colonialista. Não por acaso floresceu na segunda metade do século XX.

Mas agora cabe perguntar: o que temos nós com isso? O nosso etnocentrismo, a exemplo do etnocentrismo combatido na Alemanha com sucesso no século XIX, sempre foi o alheio. Agora, é também alheia a sanha estrangeirizadora por nós assumida. Quando girávamos em torno das belas e infiéis traduções anglófonas e francófonas não sabíamos que praticávamos o etnocentrismo alheio. Agora, que giramos em torno dos duvidosos textos estrangeirizantes, fazemos o mesmo, também sem saber. Enfim, nós somos o “outro” do etnocentrismo, mas nunca soubemos disso ou nunca soubemos impor a nossa “outridade”; sempre engolimos o alheio como nosso. Continuamos antropófagos no pior sentido oswaldiano.

Entre a estranheza consciente e o decalque inconsciente a linha divisória geralmente não é visível ao leitor. Aliás, Henri Meschonnic não dobrou a língua (sem trocadilhos) e deu à nobre estranheza exatamente o ignóbil nome de decalque. Falava ele em clivagem do signo, coisa sutil, que regala os teóricos. Qual seria a diferença entre intencionalidade estrangeirizadora e decalque? Reduzindo, a consciência. Na primeira, é como se o tradutor dissesse: “Aqui a sintaxe estrangeira é x, o vocábulo estrangeiro é y, eu sei muito bem do que estou falando, e meu intuito é mostrar que este texto é estrangeiro”. No decalque, o tradutor importa estruturas inconscientemente e confunde cognatos sem perceber. A diferença entre os dois é a mesma que existe entre o pintor que faz o abstrato por opção e o que o faz só porque não domina as técnicas figurativas. Portanto, equiparar os dois é extremamente degradante para os estrangeirizadores. Contudo, o resultado final nem sempre denuncia a presença ou a ausência dessa consciência, e o texto é espinhoso (e não estou falando de erro).

A criação de estruturas estranhantes em certos idiomas é um ato de coragem. Isso ocorre em inglês e francês, por exemplo, línguas nas quais as posições de sujeitos, verbos, objetos e advérbios são legisladas com mão de ferro. O oposto é o português. Temos uma flexibilidade espantosa. Chegamos às raias da anarquia. Metemos os advérbios onde bem entendemos, podemos criar verdadeiros bailes de sujeitos e verbos numa troca atordoante de passos. Intercambiamos infinitivos e gerúndios com a maior cara de pau e não somos capazes de perceber a diferença entre este e o particípio presente porque reduzimos tudo a um denominador incomum, e ninguém parece se escandalizar. O maior índice da nossa irreverência está no uso dos pronomes: não uniformizamos nada, numa clara opção pela anomia. Para não dizer caos.

Por isso, as estruturas das línguas estrangeiras entram no nosso território sem pagar alfândega. E, quando alguém decalca, há quem o justifique: está deixando que em seu texto transpareçam as diferenças, transpareça o “outro”. Mas nós sabemos que não é bem assim. O decalque é prática cotidiana, fruto do desconhecimento da língua materna, fruto da perplexidade de quem não sabe muito bem para onde ir, porque precisa abrir seu caminho a facão. Qual é a melhor técnica de tradução? As alternativas parecem simples, mas não são. O tradutor, diante do elogio da prática estrangeirizadora, muitas vezes fica perplexo. Segui-la é estar na moda, é praticar o que a academia preconiza, afinal. E é produzir um texto que sempre encontrará defesa ou, no mínimo, complacência por parte de uns, mas também, quem sabe, profunda aversão por parte de outros.

Ser estrangeirizador, no caso brasileiro (desculpem) não é nada original, para não dizer revolucionário. Está longe da temeridade que representa derrubar os ícones de sua própria cultura ou desafiar os de uma cultura hegemônica. Significa, justamente, ir-maria-com-as-outras, em vez de enfrentar a maré. Afirmar conscientemente as características da própria língua, buscá-las no que há de mais genuíno, conhecer suas estruturas mais fluidas e elegantes, optar por uma terminologia mais apropriada e criativa são atitudes mais corajosas e originais, mais dignas de uma nação que se preze. E mesmo assim, paradoxalmente, é possível não ser etnocêntrico. Enfim, entre as duas táticas geralmente apresentadas como antagônicas há uma terceira via, pela qual na prática enveredam os bons tradutores, os que são capazes de escapar à balbúrdia reinante. Mas isso depois de muito autodidatismo, porque neste país o uso da língua é visto como coisa intrinsecamente intuitiva. Tal como criar filhos ou gingar num ritmo qualquer.

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29 comentários em “O mito da estranheza

  1. ivone, estupendamente bom seu artigo. daria uns dois anos de discussão. na verdade, é de tão alto nível que parece sobrepairar às práticas comezinhas de nosso ofício.
    sem dúvida alguém surgirá para respaldar a encarniçada defesa da mocinha que queria traduzir “empower” por “empoderar” para manter a força do original (!)
    e quando vejo como nossos escritores escreviam e alguns ainda escrevem deliciosamente bem, de uma maneira que nunca ou raramente é adotada por qualquer tradutor, vejo se abismar ainda mais o fosso entre o “português nativo” e o “português de tradução”, e fico realmente achando cada vez mais urgente, premente, necessário um tratamento intensivo: para cada hora traduzindo, duas horas lendo machado, guimarães, clarice – ou ivone.

  2. Olá, Ivone. Quem dera nossos “clientes” entendessem um décimo da lucidez de seu texto. Infelizmente, a discussão de uma tradução “bermaniana”, ou da adaptação, ou de qualquer outra preocupação “filosófica” sobre a tradução fica restrita à academia. Essa, por sua vez, se fecha cada vez mais ao mundo real, ocupando-se de suas lutas “egoístas”, desconsiderando por completo a realidade impiedosa imposta aos mortais que lutam para se manter com a cabeça fora d’água e “no mercado”
    Um abraço orgulhoso e agrdecido pelas belas reflexões,

    Fátima Abbate

  3. mas, ivone, eu me pergunto qual seria um ou alguns eixos minimamente norteadores de uma proposta estranhicizante, digamos assim, ou estranhizante, para que a coisa não se resuma a simples postulados e desideratos conceituais? e, aliás, como vc indica, postulados e desideratos que vêm desde a origem tingidos (ou até determinados) por preocupações de outra ordem, ou de outra esfera e que, portanto, mais do que intrínsecos, são quase que florescências de enxertos e transplantes por transmissão eminentemente – claro – ideológica e com objetivos ou intenções instrumentalizadoras – pobre da linguagem, pobre da tradução – ora guerrilheira recrutada à força para a causa do nacionalismo, ora ponta de lança (ou bucha de canhão) do elogio da alteridade.

    tá, e mesmo que se conceda a possibilidade de reduzir a linguagem a uma função basicamente instrumental (ao estilo do realismo socialista ou da ideologia de plantão naquele momento), quais seriam os eixos, retomando minha perplexidade inicial, para a “práxis”, como se dizia antigamente, dessa estratégia estranhizante?

    pois, uma vez conversando com um tradutor que muito aprecio, e aqui dou o exemplo da posição contrária, ele defendia a estratégia domesticizante numa obra que tinha acabado de traduzir, onde adotara para algumas divindades (não lembro quais eram) nossos oxuns e exus. na estratégia estranhizante, eu me pergunto: o que me nortearia? question mark eu diria marca de questão ou questão-marca, por exemplo? o que poderia me balizar? ou como eu me balizaria?

    e não é pergunta irônica ou maliciosa. é curiosidade genuína.

  4. Claro que sempre há escolhas. Ninguém estrangeiriza tudo nem domestica tudo. As escolhas dependem de mil fatores. Dou aqui um exemplo extraído do próprio Berman, que faz parte de um texto meu: “Ao comentar a tradução da Eneida feita por Klossowski […], Berman cita como exemplo de tradução bem-sucedida o verso Ils allaient obscurs sous la désolée nuit para o original latino Ibant obscuri sola sub nocte. O motivo do elogio é o uso do adjetivo antes do substantivo, em désolée nuit; comenta ele que existe inversão em francês tanto quanto em latim, mas o lugar da inversão no verso mudou, de tal maneira que o francês pode aceitá-la.”

  5. é, mas aí já é covardia, e só pode parecer estranhizante para uma língua tão formalizada e cristalizada como é o francês. e que é exatamente o que vc diz, e que muito bem fundamenta tua conclusão sobre a mariice de ir com as outras. me parece o tipo de questão onde a montanha, na melhor das hipóteses, pariria um rato.

  6. Não sei se o tradutor realmente pode optar por ser domesticador ou estrangeirizante, se ele não deve se situar precisamente num lugar intermediário, feito de infinitas ponderações, negociações, compensações, entre esses dois extremos. O que mais me preocupa é certa exigência, por parte de editores, mas sobretudo por parte de jornalistas que não entendem nada do ofício, de que toda tradução seja absolutamente “fluente”. O critério que costumo adotar é bastante simples: tentar produzir uma tradução fluente quando o original é fluente; e tentar produzir uma tradução “estranha” quando o original é estranho. Aliás, é preciso levar em consideração o fato de que existem muitos graus de fluência como de estranheza.

  7. A terceira via sempre é a mais interessante 😉 Apesar da conexão inevitável que fazemos entre língua e cultura, gosto de pensar que há uma terceira variante, que é a da linguagem. Não acho que adaptar a fluência de uma linguagem à fluência da outra, seja domesticar, mas sim, tornar viável a compreensão e a coerência. Como disse o Eduardo, “existem muitos graus de fluência como de estranheza”, e decisões têm de ser tomadas caso a caso. Fora do âmbito teórico, a verdade é: os leitores de obras mais populares reclamam de traduções cuja sintaxe e estrutura soam “estrangeiras”, pois isto dificulta o fluir da leitura – aí passamos para a questão da recepção do texto, pois o tradutor traduz para alguém, é lógico. E mesmo conceitos como “texto de origem” são um tanto questionáveis, pois além da revolução dos estudos culturais que introduziu a questão pós-colonial e de gênero nas discussões sobre a tradução, há a máxima de que “quem conta um conto aumenta um ponto” – histórias são nômades, não há tradução final ou definitiva (como defendi em minha “míni-tese” de mestrado). Enfim, um assunto que rende.

  8. Olá, Ivone. Gostei muito do seu texto, bastante lúcido e corajoso. Apreciaria bastante se discorresse mais numa próxima oportunidade sobre a terceira via que sugere no final do artigo, pois acho que é bem o que muitos tradutores bons desejariam conseguir fazer: um texto agradável na língua da tradução que ainda contivesse riquezas do texto/cultura/língua do original. Não acho que haja uma receita para isso (como para nada relacionado a tradução), mas imagino que você possa oferecer considerações muito interessantes a respeito, a julgar pelas que já fez neste texto.
    Vou me atrever a lhe sugerir que leia, quando tiver tempo, este meu artigo: http://www.pget.ufsc.br/in-traducoes/public/papers/artigo_1_2009_reginaldo_francisco.pdf
    Não é um texto muito bom, talvez ingênuo em alguns pontos, porque o escrevi ainda no início do mestrado (é daqueles que quando são publicados já nos arrependemos de ter escrito várias coisas) e também porque não tinha este seu texto para citar e considerar. Gosto, porém, da ideia de que tratei nele: uma possibilidade, proposta pelo próprio Berman, embora de forma bastante superficial, de inserir estranhamentos na tradução que, acredito, não a tornam ilegível.
    Aproveito para expressar minha gratidão por seu dicionário italiano-português publicado pela Martins Fontes, que tem sido há vários anos uma preciosa ferramenta em meu trabalho, e para confessar minha esperança de um dia receber a notícia da publicação de um semelhante na direção inversa, português-italiano.
    Abraços e mais uma vez obrigado pelas reflexões.

  9. Bela reflexão Ivone, lúcida, como sempre. Mas eu me pergunto, qual o ponto de equilíbrio? O problema – e aí eu entro em outro problema – é que muitos textos são tão cifrados que, ou se faz uma tradução clara (domesticadora?), ou se faz uma tradução mais cifrada ainda que ninguém entende (estrangeirizante?)… Qual o ponto de equilíbrio – deixar cifrado ou deixar claro e mais fluente… mas o objetivo da tradução não é transportar culturas, fazer entender a cultura de origem à cultura de chegada? E me parece ainda que o ofício de tradutor, como o de arquiteto, é solitário no momento da escolha, da decisão; sempre haverá outras possibilidades e o ponto de equilíbrio depende das escolhas e do conhecimento profundo de nossa bela língua, ou da língua de chegada. Abraço
    Anita Di Marco

    1. O cifrado haverá de ser sempre inteligível. O cifrado é endereçado a quem possa entendê-lo. Se ninguém entender, não é cifrado, é abstruso. O tradutor precisa entender o cifrado e transformá-lo num outro cifrado tão compreensível quanto o primeiro. Nem menos, nem mais, de preferência. É dirigido a iniciados? Todo cifrado é. O suprassumo do cifrado? A poesia. E o resultado há de ser bonito. Se não, não vale a pena. Abraço.

  10. faço coro com o reginaldo: “Apreciaria bastante se discorresse mais numa próxima oportunidade sobre a terceira via que sugere no final do artigo”; não receitas, mas considerações.

  11. Senti-me incomodado com o comentário da Fátima Abbate, que parece criar uma certa distância entre o cliente, que comprendi como leitor, e o tradutor. Eu acredito que há sim certa ignorância nos leitores por não saberem como funciona uma tradução, não por ser um elemento de difícil compreensão como soou o comentário. Honestamente, tanto eu quanto vocês sabem que boa parte da compreensão do texto vem da sua linguagem. O texto é incrível, mas imagino que ninguém discordará que funciona mais para iniciados do que um novato que descobre que por trás do seu autor gringo preferido há a figura de um tradutor. Acho que talvez artigos voltados a um público mais amplo seja o que falta. Afinal, estamos aqui falando de tradutores / letrados para outros. Nenhum dos comentários até agora pareceu ser de alguém que não soubesse, ao menos, o básico dos conceitos linguísticos / filológicos. E um texto que se aprofunda demais em conceitos, mesmo com as melhores da intenção de tentar se explicar, vai afugentar um público geral que precisa, a cada parágrafo, pesquisar o que é isso ou aquilo no google.

    Sobre as traduções, há algumas línguas que ainda sofrem com esse problema. Não tenho conhecimento do mercado sueco no Brasil mas tanto a trilogia Millenium quanto um autor sueco publicado na bela coleção policial da Cia das Letras foi traduzido, respectivamente, do frances e do inglês.

    Porém, mesmo sendo traduções das traduções, recentemente li Desculpa Se Te Chamo de Amor da Editora Planeta e notei erros feios da tradução para o portugues, onde manteve-se o uso do estilo italiano nas frases em portugues, omitindo palavras comuns aos italianos mas que, para nós, criam uma frase quase sem sentido.

    Nesses casos não sei se é melhor a tradução vinda de uma tradução de lingua mais conhecida ou a direta de um original que venha repleta de erros que são nítidos.
    Em ambos os casos fica uma questão bem delicada. Talvez a tradução da tradução da Cia das Letras tenha se saido mais compentente do que a do original da Planeta.

    Sobre a questão das diferenças de tradução, não trabalho com isso, mas faço Letras – também sou um iniciado, como mencionei no inicio – e já notei que muitas traduções acompanham a boa cadência de seu original, assim como há obras que são truncadas em sua composição, o que gera uma tradução mais presa, por assim dizer.

    Guimarães Rosa acompanhou a tradução de sua obra para outras línguas, imagino, justamente para evitar que ela se perdesse e ficasse simples. A prosa de Rosa é bastante rica, mas necessita de uma leitura mais lenta por causa de suas construções. Logo, o cuidado para que as traduções acompanhassem isso.

    Ao mesmo tempo faço uma breve reflexão sobre Shakespeare. Vejo muitas traduções de suas peças com muita pompa e quando lembro que tais peças foram encenadas para o povo em sua época, só posso deduzir que a linguagem era acessível e que as nossas traduções exageram no estilo afetado.

  12. Como bem disse Brodsky:

    ‘a tradução é a procura de um equivalente, e não de um substituto’

    O que me leva a crer que temos sempre que navegar nesse mar cinzento entre as possibilidades.

  13. Um artigo do Rubem Alves da FSP de terça-feira (10.8.10) traz um pouco dessa discussão espinhosa: erro ou opção? (No caso apresentado pelo escritor, erro crasso.) Profa. Ivone, seu texto serve bem para aquele que se arrisca a pavonear-se tradutor e mal sabe onde pisa. E já existe uma reação do público leitor, pois, buscando pelo nome do (mal)feitor da tradução comentada, encontrei a “reclamação” de uma leitora no site de uma grande livraria, dizendo que o livro lhe parecia fascinante, porém a tradução não estava tão estranha que não conseguiu saber se havia gostado ou não do texto. Isso mostra que nosso “cliente” não é mais tão ingênuo e começa a exigir o que é de direito: um texto legível e traduzido com consciência.
    Contribuição inestimável a da senhora.

  14. caro thiago, e com a licença da ivone: o que a tuca abbate quis dizer com os “clientes” são as editoras, e que as boas discussões teóricas muitas vezes passam longe do “mercado”. porque, thiago, é uma luta mesmo. muitas editoras não fazem a menor ideia da atividade concreta de traduzir, dos partidos tradutórios que a gente pondera, avalia, pratica e adota, preferindo um a outro e assim por diante. e não é raro passarem em cima de nosso texto com uma motoniveladora, aplastrando soluções que não poderiam ter sido alteradas etc.

    quanto ao pessoal mais leigo ou iniciante, talvez se sinta meio perdido com tais discussões, mas o importante é haver um espaço com textos de maior complexidade também, não concorda? do contrário, onde iríamos trocar ideias? e e graças a deus que existem blogs com textos que dizem respeito de perto à nossa atividade.

    lembrei do ivo barroso quando vc diz: “Nesses casos não sei se é melhor a tradução vinda de uma tradução de lingua mais conhecida ou a direta de um original que venha repleta de erros que são nítidos”. ele não tem dúvidas: melhor uma boa tradução por interposição do que uma medíocre tradução direta. naturalmente, o melhor mesmo seria uma boa tradução direta, e aos poucos o brasil está chegando lá.

    concordo tb quanto ao que vc comenta sobre algumas traduções do shakespeare. notório é o caso de carlos alberto nunes, que de fato adotou um partido enobrecedor ou nobilitante, como a gente diz, com um registro muito elevado, demais até, que realmente às vezes se afasta bastante do registro original. já barbara heliodora, millor fernandes e beatriz viegas-faria trabalham em outra linha. é o famoso “tem pra todos os gostos” 😉

  15. Uma experiência como editor que vale apena contar. Quando, na falecida Marco Zero, compramos os direitos de tradução do “Dicionário Khazar” tentamos fazer a tradução do servio e procuramos um professor da usp, do qual não lembro mais o nome. Foi uma desgraça. As páginas que ele nos apresentou estavam simplesmente ilegíveis. Tivemos que esperar a tradução americana (editada pela Knopf) para fazer a nossa.
    Infelizmente para alguns idiomas a alternativa de tradução direta é simplesmente inviável.
    Já para a edição do “Último Imperador da China” tivemos mais sorte. Estava em S. Paulo – também fazendo um curso na usp – o tradutor que havia vertido as obras escolhidas do Mao para o português, Li Junbao. Ele fez a tradução. Com uma polida, ficou bem interessante. Mas, o quanto era fiel ao chinês, chi lo sa?
    E esse é outro problema. Às vezes o editor não tem condições de fazer o “controle de qualidade” pela impossibilidade de ler o original. Aí tem que se basear apenas na fluência da tradução e conversar com o tradutor para ver qual o partido adotado.
    E, caros, assim como há tradutores e menininhas que “fazem” tradução, também existem editores e editores.

    1. Felipe, o modo como as editoras escolhem os tradutores não evoluiu muito nos últimos 400 anos. Não é de surpreender que ninguém ache um tradutor de sérvio, azerbaidjano, finlandês ou mesmo grego na hora em que precisa. Se a ave é rara, o método de procura haverá de ser mais sofisticado, e o preço, claro, maior. Uma vez precisei procurar alguém que traduzisse grego moderno. Isso foi em 1991, mais ou menos. A editora (já falecida) me incumbiu dessa tarefa (imagine), e o preço oferecido era merreca. Quem achei não deu conta. Parece que as coisas não mudaram muito de lá para cá. É no boca a boca. Enfim, coisas que comprovam nosso perene subdesenvolvimento.

      1. Denise,
        Conhecendo os dois lados da questão, dou razão a você… em termos. A tradução de alguns idiomas para o português não é simplesmente uma questão de preço. Acho que o problema é mais complexo, e inclui também a pouca penetração da literatura brasileira no exterior. O intercâmbio cultural deve ser nas duas mãos, e nós não temos políticas que apoiem a tradução dos autores brasileiros no exterior. E o inverso também é verdadeiro. Apenas alguns abnegados se envolvem nessa empreitada. Hoje, graças ao trabalho que temos desenvolvido no projeto Conexões – Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira, sei que existe uma tradutora do português em Belgrado. Suponho que ela domine muito bem o sérvio, mas não sei se o domínio dela do português permitiria que ela fizesse uma tradução do Pavic para o português. O “mercado” cria tradutores das línguas mais conhecidas, mas a formação de tradutores do sérvio, do azerbaijano etc. para o português simplesmente não existe, e vira caso de sorte achar um competente. Os cursos de letras ensinam alunos brasileiros a falar e até mesmo a ler outrs idiomas, mas acredito que esse papel essencial do tradutor – ponte entre idiomas e culturas – é totalmente relegado. Aí, sem políticas públicas – e sem universidades comprometidas com essa tarefa de criar “pontes” culturais, só sobra o tal mercado… E olha, no caso do sérvio, o próprio era professor da USP, de sérvio. Ainda era Iugoslávia na época, e a embaixada também não conseguiu nos indicar ninguém. Infelizmente não achamos o milho capaz de atrair tal ave. E, sinceramente, não era questão de preço. Tínhamos sido os primeiros a adquirir os direitos do livro, que depois virou sucesso mundial, e estávamos interessadíssimos em publicar logo, e bem.

  16. Petê Rissatti :Um artigo do Rubem Alves da FSP de terça-feira (10.8.10) traz um pouco dessa discussão espinhosa: erro ou opção? (No caso apresentado pelo escritor, erro crasso.) .Contribuição inestimável a da senhora.

    venho em socorro de raul de polillo. deixei um comentário no post do blog de petê:
    http://peterissatti.com/2010/08/10/o-saber-e-o-querer-saber/
    minha leve impressão é que rubem alves é que não tem familiaridade com expressões correntes como “águas servidas” ou “duro de ouvido” ou a terra das sombras longas para designar a região ártica.

  17. Denise, agradeço pelo esclarecimento e pela citação do Ivo. Evidente que o espaço para a discussão mais graúda, por assim dizer, é sempre bem vinda. Eu só posso imaginar o quanto existe a pressão das editoras em relação a forçar certas mudanças na tradução.

    Ao mesmo tempo que creio que o público leitor possa ajudar. Uso-me de exemplo ao dizer que foi graças aos seus textos sobre plágio que descobri o grande problema daquela editora e pude, não só fuzilar com os olhos toda vez que vejo uma edição dela, como alertar todos os meus amigos a não aproveitar o preço camarada e comprar gato por lebre. E tal aviso funcionou, vejo-os procurando outras edições para evitar tal problema.

    Mas a discussão é sempre incrível e ajuda a observar outras visões que não a sua. E sempre enriquece.

  18. uma coisa muito interessante, que tb deve atormentar editores, e que a gente não se dá conta e nem imagina que possa ser problema, é a simples redação em português. quantas vezes editores aflitos não recorrem à gente porque pegaram “alguém da área” para traduzir algum livro, mesmo do inglês, a coisa está ilegível e não há copidesque que dê conta. incrível isso, né? e aí, com todos os prazos estourados, aquela tradução devidamente paga ao doutor da área, o editor tem que sair correndo para encomendar outra tradução… simplesmente não entendo como isso pode acontecer. em primeiro lugar, que um brasileiro altamente competente em sua área, poliglota etc., não consiga escrever na própria língua; em segundo lugar, como é que um editor contrata alguém, por mais titulado que seja, sem conhecer o tipo de texto que a pessoa tem.
    antigamente eu achava tradução coisa muito fácil: só sentar, ter dicionários, pegar lápis e papel e transpor o original para o português. hoje em dia, concluo que é bem mais complicado, e me pergunto se o primeiro e o segundo graus aboliram o dia de redação nas aulas de português.

    e aí, ivone, se a dobradinha pode funcionar (exemplo precípuo: paulo rónai e aurélio buarque de hollanda), a questão da remuneração complica ainda mais…

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