Tenho um cavalo alfaraz

“Toda história é feita de duas histórias: a que as letras contam e a que as letras escondem.” Esta sentença, retirada de um dos contos de Tenho um cavalo alfaraz, talvez seja o que melhor expresse as preocupações de Ivone C. Benedetti. Aqui, assim como em seu excelente romance Immaculada, História e história se entrelaçam para compor um painel dos impasses, pessoais, mas coletivos, do Brasil. Seja remetendo aos incêndios dos edifícios Andraus e Joelma, seja evocando um episódio do Brasil do século XVII, sobreleva-se o magnífico trabalho de linguagem da autora, uma das mais interessantes destes novos tempos.”

Luiz Ruffato, na quarta capa


Conheça o livro

Oito contos, numerados de 7 a 0 em ordem decrescente. Em cada um, a intenção do regresso a um ponto de partida que talvez já não exista. Ou talvez quem regressa já tenha partido irremediavelmente.

7

O tímpano 

Visitas frequentes, comecei a melhorar a arrumação da despensa. Pintei, troquei a porta e comprei um tímpano novo, maior, mais ruidoso. Também reformei o armário embutido. Nunca faltavam uma garrafa com chá, outra com café e vários pacotes de bolacha. Mas Letícia nunca se serviu. Letícia ia lá pelo menos uma vez por semana, mas nunca ficava muito tempo. O que ficava muito tempo mesmo era o perfume, que se chamava Je reviens. Disso sei porque um dia me apareceu um representante na loja e ofereceu essa marca. Quando abriu o frasco, elogioso, botei o nariz no bocal e reconheci. Comprei uns 15 e dei um para a Letícia.


6

Conto ignóbil 

Joaquim foi dos últimos que conseguiram varar o muro de fumaça densa e quente. Atravessou a avenida ainda com a camisa servindo de máscara, carregando nos ouvidos os gritos dos que ficaram. Da calçada oposta, com o coração aos pulos, parado, atoleimado, ficou vendo o alastramento das labaredas e esperando inutilmente que saísse mais gente por uma porta acima da qual ele lia o nome Andraus.

5

O cântaro

O sentimento que brotava dele vinha de um caroço enterrado, espécie de cancro não diagnosticado que era preciso extirpar.  Sonhou  que, em vez do jardim dos fundos, o que havia era um grande lago-piscina, onde ele nadava. Clifford, nadando, era ele mesmo e também lorde inglês mais grego e romano. Uma clâmide vermelha atada ao ombro flutuava atrás de seu nado, numa espécie de voo aquático. Do alto do solário, um mundo de gente aplaudia. Só então se percebeu observado. Saía do lago-piscina e entrava seco como agora pela casa-varanda Inesgotável casa, ele percorria salas e salas forradas de mármore castanho, habitadas por esculturas vivas…

         — Aliás, aquele busto feminino do vestíbulo, que o Mourão dizia ter comprado em Roma? — Clifford perguntara a Horácio

         — Vendido.

4

Porphyria

        O nome dele era Jonas. Nos conhecemos num ponto de ônibus. Sou das pessoas que trilham o destino apalpando, cheirando, sem plano. O vulto ao lado fez minha cabeça virar. Antes de olhar, reconheci o macho, eu, mulher das cavernas, que fareja sem órgão nem sentido. Só não rastejo para não espantar a civilização. Em compensação, porejo e, como Clarice, me doo.

        Pouca gente sabe que meu nome é Porphyria. P-o-r-p-h-y-r-i-a, não P-o-r-f-í-r-i-a. Ideia de pai, que apareceu no cartório, com um papelucho em punho, dizendo minha filha vai ser chamada com o nome da avó, tal como escrito por ela: com ph e y.

3

O major

Ele estava me esperando no portão do prédio, quero dizer, o carro dele estava estacionado em frente ao portão do prédio, e ele dentro, esperando minha saída. Quando desceu do carro e me abordou, demorei um tempinho para reconhecer, não muito. Deve estar pela casa dos setenta. Sendo sujeito de traços rijos, como é, ficou aquela parecença básica que não engana. As pessoas de traços frouxos logo perdem a própria cara e ganham a de todos os velhos, cara impessoal, como camiseta branca. Ele, não. Ele é dos que podem ser reconhecidos mesmo depois de quarenta anos. Por isso, quando me perguntou “Lembra de mim?”, eu já estava começando a sentir aquele mal-estar que sempre sinto quando alguma coisa me lembra o DOPS.

2

A armada

        — Quero saber, santo, quando aporta a armada d’El-rei, pois dela dependo para a ação.

A cabeça do velho se ergueu, carregando atrás de si o resto do corpo. O rosto quem revelou foi a claridade da tocha que Licurgo trazia. Nem a alva que se destacava sob os revérberos da tocha lhe mostrava o homem do sonho. Aquele tinha a secura dos que definham no sertão, ser de vida recolhida para fora do corpo esquecido de morrer.

        — Não sei de armada — dizia o rosto.

Licurgo enfiou o lume na tocheira do muro, tomando tempo de pensar. Perguntou:

— Não sabes porque não sabes ou porque não há?

1

Cobre

E dali do escuro me vinha a voz do Moço contando agora. Eu só ouvia, não via, e fala sem cara é janela quando o outro lado do vidro escureceu, a gente só percebendo o que está do lado de cá, mas não o do lado de lá, a cara dele estava desmanchada na escuridão, era o lado de lá do vidro, e o que eu via era a minha própria cara na janela da voz dele, não a dele. Que tinha perdido o pai, dizia a voz. Mãe e irmão de dez anos fugidos para a cidade. Nenhum vizinho em mais de cinco léguas em volta, nenhum mais restava, bando de encabulados, que entregaram tudo com o rabo no meio das pernas, sempre a voz dizendo.

0

Réquiem

Parece que Zacharias tropeçou na calçada, antes de ser colhido em cheio pela Kombi. Vinha a Kombi ladeira abaixo feito um embrulho solto, num baticum sem ritmo, andamento desenfreado, rouco timbre, espirrando o que estivesse na frente, esgarçando o caminho dos outros carros, tentando desvios, até alcançar a calçada, fugir do poste, voltar à rua, dar com outro carro e reassumir a mesma calçada um tiquinho adiante, bem onde, assustado com o escarcéu, Zacharias tropeçava. Ia a Kombi parece que com a intenção primária de encontrar Zacharias. Pois só então parou.

Anúncios

9 comentários em “Tenho um cavalo alfaraz

  1. Título instigante. Apresentaçao sui generis faz-me imaginar o que encontrarei nesse “Tenho um cavalo alfaraz”. Sem dúvida, uma leitura agradável, surpreendente como em “Immaculada”. Alvíssaras, Ivone!

  2. Quinta-feira lá, Ivone!! Direto da MickeyLand… hahahahahaha!!!

    Quem já leu o livro, será que consegue escolher um conto favorito? Pra mim, “O cântaro” e “Conto ignóbil” seriam fortes concorrentes! São tão gostosos de ler, que dá até raiva… rs. Ivone, eu tenho orgulho de ser seu fã! Um beijo e até breve!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s