O MEC e sua cartilha

Algumas considerações sobre a publicação recentemente adotada pelo MEC
 

(Leia também Cart… ilhas, texto no qual aprofundo as ideias deste artigo)

Fui durante certo tempo professora de português. Nunca achei que a função do professor de português fosse falar em certo ou errado, mas sim desvendar as estruturas linguísticas que estão à disposição de seus falantes como potência à espera do ato, mostrar que são muitas as maneiras de usar a língua criativamente, provar que esta é um patrimônio cultural inigualável e, principalmente, ajudar a escrever cada vez mais e melhor. Não é fácil. Consegui umas vezes, outras não. Mas há os que não conseguem nunca. É coisa difícil para os que foram formados no velho esquema do certo e do errado e não se livraram dele. Mas, por incrível que pareça, também o é para a nova geração, formada pela cartilha linguística das últimas décadas. Nestes professores, a única preocupação parece ser a de matar o pai, no sentido freudiano. Assim, a minha impressão é de que se continua não ensinando o que realmente importa, em virtude da dificuldade que as pessoas têm de se livrar de esquemas unilaterais.

 E o leigo? Leigo é aquele indivíduo que sempre tem uma pergunta do tipo “como se diz ou escreve tal coisa?”. O leigo quer receita. E com razão. Língua é um assunto complicado (qualquer língua, meus senhores!). E com o que é complicado, de duas uma: ou a gente estuda para tentar desvendar os mistérios, ou deixa que os outros estudem e contem os mistérios para a gente. O leigo está no segundo caso. Nascemos todos com a potencialidade da fala, mas não nascemos com a língua, assim como nascemos com a intuição do ritmo, mas a dança exige de nós um aprendizado, e com base na simples intuição ninguém fará parte de uma orquestra sinfônica.

No entanto, parece que hoje em dia a tendência é achar que a gramática (no sentido de conjunto de processos de construção e expressão de uma língua, e não de prescrição de normas) já nasce conosco, é inata, natural, inerente, e só nos cabe dar-lhe ouvidos e vazão; que tudo o que dizemos é expressão dela, e que, portanto, o modo como a fala nos expressa é sacrossanto, sendo profanas e sacrílegas as convenções gramaticais (agora sim, no sentido de normas ou nomenclaturas). O que vale é a interioridade individual e a sua eventual manifestação coletiva, perdendo todo o valor a convenção que nos precedeu, formulada talvez por representantes de uma classe que desprezamos.Tem preeminência a língua falada, expressão imediata dessa individualidade. A escrita, que não é imediata nem espontânea, não passa de reflexo morto da verdadeira vida. Um mal necessário, talvez.

Enfim, é o culto histérico da naturalidade contra a artificialidade, do inato contra o adquirido.

Num país que pouco lê, tudo isso se explica.

Voltando ao leigo. Quando alguém pergunta a um “especialista” como se diz ou escreve algo, a mensagem subliminar é a seguinte: preciso pensar em outras coisas,  quero uma fórmula que resolva este meu problema imediato. E por que aquele é um problema imediato? Se quem pergunta sabe falar (e tanto sabe que perguntou), se usa sua língua a contento para se comunicar (a tal ponto que conseguiu transmitir ao consultado a sua dúvida), por que ele quer saber se (por exemplo) o pronome naquele caso vai antes do verbo ou depois do verbo? Em que a sua comunicação vai ser dificultada ou impedida caso ele diga “Me sinto bem” ou “Sinto-me bem”? Rigorosamente, em nada. Então por que a preocupação?

Aí, duas respostas. A primeira é que com isso o falante quer se integrar na comunidade (importante para ele) que maneja bem o instrumento língua e conhece suas convenções. Sim, porque o conjunto de regras desse tipo acima (não se pode dizer o mesmo sobre todos os fatos da língua) é bem do âmbito da convenção pura e simples. A segunda é que a língua não é só comunicação, e que “Me sinto bem” ou “Sinto-me bem”, na verdade, não significam a mesma coisa em termos simbólicos, e o consulente talvez o intua.

A respeito de tudo isso muitos já escreveram, o que significa um bom cabedal de sabedoria para se pensar. Na teoria. Porque na prática, das pessoas envolvidas com o assunto, umas agem como se a língua fosse uma entidade aristocrática que precisa ser reverenciada como divindade, e outras, supervalorizando o seu lado plebeu, querem promover, a qualquer custo, a sua ascensão a um novo e reverenciável Olimpo. O resultado é sempre o mesmo: a imposição. Os dois lados são insuportavelmente autoritários. Com algumas nuances: pois alguns, vivendo uma verdadeira guerra, acham que todo o mundo está acreditando que a sua causa é a língua, quando na verdade é uma ideologia. Porque língua não é só língua nunca. E nem eu agora estou falando só de língua: eu estou falando de conflitos de classes e valores simbólicos. Acontece que o poder simbólico da língua é tão abrangente e permeante, que é difícil distinguir as coisas. Principalmente para quem está no meio do jogo. Mas quem se especializou no assunto teria a obrigação de ver com clareza. Para tanto, seria preciso uma boa dose de estudos de filosofia, sociologia, antropologia e psicologia. Quem faz isso?

Voltando à questão da convenção. Desde que Saussure falou do assunto, sacralizou-se a sua cartilha. De pouco adiantou Jakobson e Benveniste fazerem reparos a esse conceito de convencionalidade/arbitrariedade do signo: até hoje, no Brasil, há gente que quando fala em convenção só cita Saussure. Resumindo grosseiramente, o que Saussure quis dizer na sua época (quando devia ser preciso fazê-lo) é que a língua não baixou do céu dada por Deus ou pelos deuses, que ela é fruto humano. Perfeito. O único problema é que a ideia de arbitrariedade passou a ser confundida por alguns com vale-tudo: se tudo é convenção, tudo pode ser mudado. Ora, vivemos de convenções de todos os tipos e achamos normal respeitá-las, porque foram feitas para isso, mas as da língua são altamente questionáveis aos olhos de muitos. Por que essa sanha? Por causa do seu valor simbólico. A ninguém ocorre questionar se devemos ou não comer arroz com garfo, visto que a colher é muito mais prática. Trafegar pelo lado direito da rua quando ela tem duas mãos também é uma convenção (em vez disso, poderia ter sido convencionado o esquerdo). Neste último caso, o desrespeito à convenção pode valer a própria vida (ou a de outros), mas no caso da colher o resultado prático é diferente, ninguém arrisca a vida, seria mais fácil questionar. Quem quiser comer arroz com colher em qualquer restaurante de nossas cidades será visto no mínimo como um roceiro que nunca aprendeu como usar talheres. Preconceito? Sem dúvida. Mas quem quer enfrentá-lo? Alguém poderia até defender o uso das mãos: é o único realmente natural. No entanto, por que tendemos a respeitar convenções? Porque tememos a arbitrariedade total, a anomia. As convenções linguísticas não são muito diferentes das outras: seu objetivo é criar pontos de referência dentro de dada comunidade (basta consultar a história das gramáticas das línguas modernas). Quando alguém pergunta: “como se diz isso?”, está implicitamente dizendo: “quero ser aceito nessa comunidade linguística”. Por que lhe negar a resposta? Por que passar sermão a cada vez que alguém se preocupa com uma regrinha gramatical? Por que demolir quem dá a resposta? Por que impingir aos leigos reflexões que caem muito bem em ambiente acadêmico, mas para as quais estes estão pouco se lixando?

Que impertinência!

Quem escreve num livro didático: “se você disser xxx, poderá ser alvo de preconceito linguístico” deve entender de linguística, mas não entende nada de preconceito. A roupagem linguística do preconceito esconde muito mais coisas do que mostra. O preconceito é de classe, de pertencimento social, não de língua. Quem diz “nós vai” passa o atestado de sua origem humilde, do estrato social pouco valorizado a que pertence. Portanto, tem-se aí uma manifestação simbólica, em que a forma linguística está por outra coisa. Logo, falar em preconceito “linguístico” é eufemismo. Ora, o estudante está na escola para aprender aquilo que não lhe foi dado com o nascimento nem com a paternidade: um nível de saber que ele não pode encontrar em outro lugar. É interessante os autores da frase do livro adotado pelo MEC não terem percebido (ou terão?) as mensagens implícitas do que escreveram. Quais são elas? Em primeiro lugar, uma espécie de negação ou, no mínimo, atenuação da importância da escola para o ensino daquele saber. O aluno poderá se perguntar: se tanto faz, por que esse esforço? E aí o professor de português que se vire para justificar sua presença lá. Em segundo lugar, está a ideia de que língua só serve à comunicação imediata. É falso. Para a comunicação imediata o que se aprende em casa dá e sobra. Qualquer um entende o que significa “Nós vai” sem ir à escola. A terceira mensagem é: quem considera errônea uma forma como essa é preconceituoso, portanto desprezível. Porque a palavra preconceito e derivados têm o dom de acender o justo anseio de justiça e punição, a divina, angelical, indignação da vítima e de seus defensores.

Será que isso tudo não foi capaz de deter o ímpeto do autor? Ou nem lhe passou pela cabeça?

Se ele pensou em tudo isso e mesmo assim escreveu essa frase, faltou-lhe prudência. Se não pensou, faltou-lhe instrução.

Para não tornar este texto muito longo, passo ao aspecto da língua como algo mais que mero meio de comunicação imediata e banal. Ela não é só isso. Língua é muito mais. Língua é repositório cultural. Língua é arte na literatura. Língua é o meio de que nos servimos também para expressar ideias abstratas e complexas, e tanto mais abstratas e complexas quanto mais avançam nossas sociedades, nossos estudos, nossos afazeres. Dizer a um aluno que ele deve usar a norma culta para não ser vítima de preconceito (e só isso!) é omitir que ele está lá para aprender a usar um instrumento que lhe possibilitará no futuro — quando ele for engenheiro, médico, cientista, astronauta, pedreiro ou mecânico — a melhor expressão de suas ideias, a comunicação mais rigorosa de seus pensamentos, de seus dados, de suas descobertas. Em vez de passar a mão na cabeça do “coitadinho”, não seria mais positivo ensinar a ele que o aprendizado aprofundado da língua faz parte do seu aperfeiçoamento global como indivíduo? Não seria mais interessante descortinar o futuro que o aguarda como sujeito de sua história, como pessoa capaz de dominar e expressar bem todos os seus saberes? Como cidadão pleno de um país que se quer adiantado? Não está na hora de abandonar o paternalismo? O cordialismo à brasileira?

Tão estreito quanto ditar regras gramaticais como se elas tivessem baixado com o Decálogo no Sinai é promover verdadeiras cruzadas contra quem defende o respeito às convenções da língua culta. Porque essa convenção, como todas as outras, foi criada para uniformizar usos e (extremo paradoxo!) facilitar a comunicação. Língua é mutável? Sem dúvida. Mas não tão mutável quanto parecem crer alguns. Porque, como tudo o que está inscrito na tradição de uma sociedade, ela é fruto da luta entre um impulso de mudança e um impulso de permanência. A cada momento, cada forma linguística é a manifestação da resultante dessas duas forças, de tal forma que cultuar a mudança é tão estúpido quanto cultuar a permanência.

Mas, como diz Michel Villey[1], “Os produtos de toda dialética são precários: é raro manter-se no meio, na linha de crista, mais tentador é deslizar para um lado ou para outro”. E as pessoas sempre se agarram a um só lado das coisas, porque contemplar os dois lhes dá vertigem.

Adendo. Hoje, um dia depois da postagem acima, me ocorre um adendo. É sobre a inverossimilhança de um dos exemplos dados no livro do MEC: “Os livro mais interessante estão emprestado”. Quem chega a ponto de achar um livro mais interessante que outro deve ter lido o suficiente para já não cometer essa desconcordância, se tiver um dia cometido. Por outro lado, quem comete esse tipo de desconcordância não usa “estão”. Mais verossímil seria aí um ‘tão ou até um ‘tá. Enfim, é o típico exemplo forjado em mesa de professor.


[1] Questions de Saint Thomas sur le droit et la politique, PUF, 1987, p. 90.

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27 comentários em “O MEC e sua cartilha

  1. Ótimo artigo! Sinto-me feliz e confortado em ver que, diante de tantas opiniões infundadas sobre “certo X errado” em língua, ainda há aqueles que, como você, sabem explicar, com clareza e pertinência, questões tão importantes quanto estas abordadas em seu texto.

    Parabéns!

    Um abraço,

    Luciano.

  2. (1) Orquestra sinfônica é uma manifestação cultural mais elaborada como a norma culta de uma língua. Muita música e dança é criada simplesmente com base na intuição. Línguas também surgem e evoluem intuitivamente em códigos mais ou menos elaborados.
    (2) Embora eu discorde, liguistas como Noam Chomski partem do princípio que “a gramática (no sentido de conjunto de processos de construção e expressão de uma língua, e não de prescrição de normas) já nasce conosco, é inata, natural, inerente” sim.
    (3) Muita coisa que é escrita dá margem a diferentes interpretações, por vezes com base na intuição do leitor que é moldada de forma complexa. Uma ‘leitura’ mais simples favorável da polêmica frase em questão, levando em conta o contexto do capítulo no qual ela se insere, seria: existem variações linguísticas de maior ou menor prestígio. Você que nasceu e cresceu envolto nessa variedade de menor prestígio, “têje ciente”! 🙂

    Seguindo a minha humilde interpretação, a justificativa da ‘cartilha’ em questão para que se aprenda a norma culta não se resume ao mero intuito de que se evite o preconceito linguístico. Mais uma vez, uma orquestra sinfônica é apenas uma das várias formas de manifestação musical. Dentre muitos outros, Ariano Suassuna, Guimarães Rosa e Mário de Andrade estão aí pra provar que com a língua não é diferente.

    A meu ver, o que esta cartilha ‘prega’ é mais simples do que estão querendo pintar por aí: conheça a norma culta e saiba usá-la competentemente, mas não se envergonhe de seu dialeto que também expressa uma riqueza cultural, muito embora esta não tenha prestígio.

  3. Ivone, querida, dar-lhe os parabéns por este texto é chover no molhado.

    Você pergunta: “Quando alguém pergunta: “como se diz isso?”, está implicitamente dizendo: “quero ser aceito nessa comunidade linguística”. Por que lhe negar a resposta? Por que passar sermão a cada vez que alguém se preocupa com uma regrinha gramatical? Por que demolir quem dá a resposta?”

    Simples: quando a escola nega os conhecimentos a quem não tem acesso a eles a não ser na escola, está impedindo a ascensão social dessas pessoas. Todas essas desculpas esfarrapadas que você citou são meramente isto: desculpas esfarrapadas. O que pretendem com isso? Reserva de mercado. Não querem mais ninguém apto a ocupar seu lugar, então o jeito é esmagar lá no fundo do poço todos aqueles que sonham aprender alguma coisa para poder subir na vida. Assim eles ficam “em seu devido lugar” e “azelite” não perde a boquinha.

  4. “A meu ver, o que esta cartilha ‘prega’ é mais simples do que estão querendo pintar por aí: conheça a norma culta e saiba usá-la competentemente, mas não se envergonhe de seu dialeto que também expressa uma riqueza cultural, muito embora esta não tenha prestígio.” [2]

    excelente texto, Ivone, sem se perder no certo x errado e abordando as questões envolvidas e pertinentes. a meu ver, o livro é apoio, mas trabalhar a existência de variantes, e não só daquela trazida pelo aluno, é tarefa do professor, e há os que o fazem brilhantemente, exatamente porque tem esse conhecimento.

  5. Ivone,

    Não gosto de falar sobre o que não estudei. Por isso, pedi à Global uma cópia do livro para saber de primeira mão o que estava escrito ali. Não confio na Veja e muito menos na Falha de S. Paulo e no Globo para basear qualquer opinião a partir do que eles publicam. Logo o Luiz Alves me enviou um PDF do capítulo em questão, intitulado precisamente de “Escrever é diferente de falar”. O texto é excelente, ponderadíssimo, e reivindica mesmo a importância do escrever segundo a norma culta. Para se fazer entender em um código mais abrangente e geral. Se há alguma observação a fazer, é aquela que você faz sobre o preconceito “linguístico”, que na verdade é pura e simplesmente preconceito de classe. Mas o capítulo também menciona como o escrever “errado” pode ser – e é mesmo – uma pista de como o autor está criticando o ambiente social, cultural e político em que está vivendo. E tasca o Sunetto futuriste do Juó Bananere ao lado da Canção do Exílio como exemplo. “A gente não somos inútil”, mas o que tem de preconceito, raiva e violência circulando por aí em relação a esse assunto, “num tá no gibi”.

    1. Felipe, há anos, meus filhos recebiam nas apostilas da escola textos semelhantes, que comparavam a norma culta e a coloquial, com exemplos interessantes etc. Sempre achei bom, considerei um progresso em relação ao que eu aprendia na mesma idade. Era algo que eu mesma usava em minhas aulas, pois, afinal, minha geração foi a que começou a quebrar certos tabus, entre os quais esse. Acredito que praticamente todos os jovens de hoje tenham sido formados com essa visão. Por isso mesmo, visto que essa abertura já vem de décadas, não entendo a necessidade de lidar com o assunto como se fosse preciso defender uma posição que estivesse sendo virulentamente atacada. Não é o caso. A história do “preconceito linguístico” foi de fato muito infeliz. Outra coisa interessante (que estou reservando para comentar num próximo artigo) é que a celeuma se levantou desse modo justamente por ter sido incluída como aceitável uma forma só usual entre os “incultos”, pois há outras formas que ferem a gramática, mas, como são usadas pelos “cultos”, não causam revolta. Isso prova que o preconceito é realmente de classe.

      1. “[…] a celeuma se levantou desse modo justamente por ter sido incluída como aceitável uma forma só usual entre os “incultos”, pois há outras formas que ferem a gramática, mas, como são usadas pelos “cultos”, não causam revolta. Isso prova que o preconceito é realmente de classe.” – De acordo. Entretanto, uma coisa não anula a outra. A expressão “preconceito linguístico” faz tanto sentido quanto “preconceito racial”, “preconceito religioso” e assim por diante, todas elas diretamente ligadas ao (pre)conceito de classe, não? Isso talvez seja mas visível em países onde se fala amplamente mais de uma língua, como no Peru e no Paraguai, ou ainda de forma mais evidente, na Espanha, e na Bélgica, para ficar só no ocidente.

      2. Não sei se é a mesma coisa. Quando falamos em preconceito imaginamos um sentimento “de cima para baixo”. Mas o contrário também pode ocorrer. Cresci num bairro operário de São Paulo, onde percebia perfeitamente o preconceito dos que “falavam errado” contra os que “falavam certo”. O que quero dizer é que o preconceito linguístico nunca é só linguístico. Ele sempre é símbolo de outra coisa.

      3. Sim, do mesmo modo que o preconceito religioso e racial, entre outros, tampouco são exclusivamente religioso, racial, etc. A língua e, no caso, as variedades de uma mesma língua, funcionam do mesmo modo que religiões, ‘raças’ e até mesmo, música e arte em termos de marcadores de identidade. Qualquer preconceito, não só linguístico, é sempre símbolo de outras coisas além de um mero desgosto por certa forma que desvia da norma culta e não por outra que também desvia, certa cor de pele, formato de nariz ou cabeça, certa (des)crença em certo deus, (des)gosto musical, artístico, alimentar, etc. E essa loucura humana vai além quando notamos que muitas vezes o “de cima pra baixo” em determinada cultura é o “de baixo pra cima” em outra. Desculpe se extrapolo. A discussão me agrada. 🙂

  6. Ivone, você tem toda razão. essa abordagem da diferença entre a fala e a escrita já vem de longe. Desde o governo do Itamar o Murilo Hingel promoveu discussões a respeito disso e acerca do material distribuído pelo PNLD. O Paulo Renato e a Iara Prado levaram isso adiante – e a discussão sobre o construtivismo teve a ver com o caso. Ou seja, não tem nada “do PT” na história. Nessa história toda, para mim ficaram claras duas coisas: 1) O assunto é gerado a partir de uma posição política. Não quiseram nem saber se isso já vinha de longe: importava é que o MEC “do PT” “estava ensinando e aceitando o erro”. Ora, você, eu e muita gente sabe perfeitamente que o “MEC do PT” faz burradas e toma atitudes complicadas (o caso do Monteiro Lobato está aí). Mas não por ser “do PT”, mas precisamente por estar no meio de discussões sobre linhas pedagógicas que muitas vezes se enfrentam e se confrontam. E a discussão tem que ser levada nesses termos. A Dora Kramer e o Sardenberg, que evidentemente não leram o livro, não se furtam de dar opiniões. 2) Mas o que me deixou mais triste foi a quantidade de gente que deitou falação sem ter se dado ao trabalho de ler o texto, de saber sobre o que estava falando. Gente pautada pela VEJA, putsgrila. E triste ver tantos pseudo intelectuais se comportando dessa maneira. E a quantidade de gente nas listas de discussões das quais fazemos parte – de tradutores – que não leu o texto e deita cátedra sobre o assunto. É triste mesmo.
    Aliás, aquela lista de tradutores está insuportável. Ninguém de bom senso quer mais pedir ajuda aos colegas, receoso de sofrer humilhações do bando de sábios que pontifica grosseiramente por lá. Mas isso já é outra história.

  7. Ivone:
    Adorei a sua resposta.Quantas maluquices serao ainda realizadas em nome de “ideologias mal digeridas”.Vc foi fundo na exposicao dos seus argumentos,e fico orgulhosa de ter entre minhas companheiras de profissao alguem que defende o mesmo ponto de vista que eu tenho de forma tao competente.
    Sem querer fazer piadas,mas aproveitando a ocasiao,como seria possivel alguem expressar-se com clareza e contundencia sem dominar qualquer das formas do bom portugues?(desculpe-me a falta de acentos,estou com um teclado estrangeiro.
    Obrigada por sua brilhante argumentacao.

  8. caros ivone, felipe, georgeumbrasileiro,
    obrigada pela discussão inteligente, cheguei aqui por acaso, via post do facebook. Seu texto, ivone, é excelente, agora, você há de convir, seus 2 interlocutores estiveram à altura: foram precisos onde você, digamos, deixou-se levar pelo rio do discurso e não percebeu o preconceito “partidístico” :-)) (que tb é de classe, claro), a velha pecha: “do PT”. Agradeço a vocês por usar argumentos (em vez de xingamentos), por investigar os fatos, pela conversa com cortesia e ponderação. Coisa rara hoje em dia. Felipe, adorei o “deita cátedra”! abs.

  9. Ivone, concordo plenamente com sua visão.
    Parabéns pela clareza e discernimento com que sustentou seus argumentos.

  10. Ivone, por trás dessa celeuma toda há uma questão que não está sendo vista. Como me lemboru a minha mulher, professora, linguista e tradutora, essa discussão revela um problema da educação no Brasil: o livro didático é tomado como se fosse a Bíblia. Ele é tão somente um APOIO. Se o professor não souber usá-lo e a aula não for boa, o livro, por mais maravilhoso que seja, não serve para muita coisa.

  11. Ivone,
    É uma pena que esta discussão não tenha precedido a cartilha. O tempo traz mudanças numa lingua falada e consequentemente na escrita depois. Depende se “pegar “ou não. O que eu acho é que não se pode forçar a aceitação do ‘erro” dentro de uma escola que tem que ter regras para ensinar e que não pode flutuar entre o certo e o errado. Estamos ladeira abaixo com imposições de pensamento partidárias ( não necessariamente políticas) sem uma discussão real da sociedade pensante. Parabens pela sua colocação que nos fez pensar .

  12. Adriana,

    Discussão houve, e muita. Todo o processo de elaboração e aprovação dos Parâmetros Curriculares Nacionais – ocorrida no governo FHC – teve uma participação muito grande de professores de sala de aula, pedagogos, etc. Depois, nas discussões de avaliação dos livros didáticos (prática que foi iniciada pelo Murilo Hingel) a discussão continuou, inclusive com a contestação da “sabedoria” supostamente inconteste dos avaliadores. O resultado foi uma modificação muito significativa no modo de abordagem dos livros didáticos. O que persiste, evidentemente, é a deficiência na formação dos professores que, infelizmente e muitas vezes, não estão preparados para usar bem o material e acabam transformando o “apoio” em “muleta”. Aí continuam seguindo o programa dos livros. Mas os resultados são positivos, ainda que insuficientes (muito). Essa discussão, a dos PCNs, foi feita para todas as matérias do ensino fundamental.
    Outra observação sobre o livro em questão: é destinado aos EJA – Educação de Jovens Adultos (o antigo “madureza”). Ou seja, seu público é constituído por pessoas cujo universo vocabular, experiência de vida, etc., já estão muito mais consolidados que nas crianças do ensino regular, por já serem adultas. A ênfase na não culpabilização do suposto erro do falar, portanto, deve ser maior e mais enfática que nos livros do ensino regular.

  13. Tempestade em copo d’ádua!!!

    A lingua escrita e falada é um mero instrumento de comunicação. Um meio entre muitos. Sinais manuais também comunicam algo. O que nos importa como humanos que somos em qualquer circunstãncia é o ATO, o FEITO, o RESULTADO ou o REALIZADO.

    Falar de modo culto é bonito, admirável, mas através dela prejudicar outros é deplorável.

    Os maiores gênios da humanidade não frequentaram universidades. Apenas fizeram o que tinha que ser feito e nos legaram CONHECIMENTO e não frases bem feitas.

    Defendam o que nos serve e não apenas o que é belo e teremos uma humanidade melhor.

  14. Ivone,
    é prazeroso ver um ponto de vista ser defendido com tanta elegância! LI algumas matérias sobre preconceito linguístico que mais pareciam palanques políticos ou campos de batalha.
    Você me fez lembrar de uma frase que muito ouvi em minha infância, quando papai nos pegava a gritar uns com os outros numa confusão : “o grito é o argumento daquele que não tem razão” . Sem gritos, sem apelação e com muita maestria. Assim é Ivone Benedetti.

    1. Renata, essa do palanque é verdade e é lamentável.
      Fui dar uma espiada no seu blog e me diverti muito com aquelas histórias. Espero que você prossiga.
      A do “pobrema” é mesmo coisa de e.t.

      Grande abraço
      Ivone

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