Anônimo ou invisível? Escriba ou autor?

Embora o título seja pretensioso, meu objetivo hoje é modesto: não vou tratar de tudo o que o ele sugere, só do primeiro elemento, o anonimato em tradução.

Primeiro, acho interessante convidar alguns desses profissionais da palavra, que são os tradutores, a pensarem e pesarem as palavras que circulam pelo meio profissional e, até certo ponto, fora dele, pela sociedade em geral.

De vez em quando leio ou ouço reclamações nas quais se associa o conceito de invisibilidade à ausência do nome do tradutor em alguma resenha ou anúncio de livro. Equívoco conceitual do reclamante, eu diria. Porque, a se acreditar no Houaiss, invisível é o “que não é visível a olho nu; que, devido a um grande distanciamento ou por sua extrema pequenez ou finura, não pode ser visto”. A maioria dos tradutores que conheço dificilmente caberia nessa definição.

Outra definição de invisível é: “que não é manifesto, que não se deixa conhecer”. O mesmo que disse acima.

Mais uma: “que se recusa a ser visto, que dispensa qualquer ou determinada visita”. Essa então, de jeito nenhum.

Portanto, vou descartar essas definições.

Passo às de anônimo, pois desconfio que quem se queixa dessa ausência de nome numa publicação está falando em anonimato, não em invisibilidade. Definição de anônimo: “que não tem o nome ou a assinatura do criador; sem autoria”. Ah!

Ou: “que ou aquele que não revela o seu nome”. O tradutor sempre revela, mas a informação nem sempre é passada adiante.

Também: “que ou o que é obscuro, desconhecido; que ou o que não tem nome ou renome”. Cheguei.

Juntando tudo isso tenho o seguinte: o tradutor que não tem seu nome revelado ou divulgado como criador daquela tradução (não por culpa dele, que não se quer anônimo) acaba por se tornar um sujeito obscuro, desconhecido, sem nome ou renome. Pronto: o tradutor nessas condições é um anônimo.

Mas alguém pode objetar: (in)visibilidade aí é palavra tomada em sentido figurado, como quando se fala que fulano não tem visibilidade em determinado meio etc.

Que seja, mas é preciso pensar que as palavras visível, invisível e derivados são aplicadas tecnicamente em outro sentido, e só por extrapolação é que se chega ao sentido figurado. Por essa razão, justamente, é que convido os tradutores a praticar certo rigor terminológico.

Além disso, acho interessante falar em anonimato, quando o sentido é de não divulgação do nome do tradutor, por várias razões que ultrapassam os limites do mundinho profissional.

Vejamos.

Eu disse acima que, com certo rigor terminológico, cabe dizer que o tradutor que reclama da ausência de seu nome numa resenha ou num anúncio não está querendo deixar de ser invisível, ele está querendo deixar de ser considerado um anônimo. Porque seu trabalho não é anônimo. Ele se equipara ao pintor que reivindique a autoria de uma reprodução ou a um músico que reivindique uma interpretação ou uma transposição ou um arranjo (percebam que tomo o cuidado de não equiparar tradutor e autor). E por que não quer o tradutor ser anônimo? Haverá quem diga que por egolatria. Em parte, concordo. Afora os tradutores que vivem de traduzir manuais para os atuais exploradores de escravos autodenominados agências e não têm seu nome indicado em lugar nenhum do texto traduzido (e, aliás, parece que não se importam com isso), os outros todos querem ver seu nome associado à obra que traduziram. Direito autoral (nominal, não pecuniário, mas essa é outra questão) sobre tradução? Só em livro. Não conheço nenhum tradutor que tenha parado para pensar seriamente nisso. É como se os tradutores se dividissem em duas grandes categorias (independentemente daquelas outras que todos propalam também sem muito pensar): os que não se incomodam de ser anônimos e os que se incomodam muitíssimo. Quanto aos que nunca se incomodaram, a questão está resolvida: são explorados como todos, mas, não tendo o nome divulgado, ninguém sabe quem são nem por quem são explorados, e o que os olhos não veem o coração não sente. Encerrado o assunto, vamos aos que se importam.

Questão de ego? Sem dúvida. Mas ao lado desse aspecto, digamos, negativo há outros positivos. Denise Bottmann que o diga. Porque, se o tradutor fosse socialmente visto por aquilo que é, ou seja, por autor de determinado texto (não se espaventem com a palavra autor, insisto, depois vou pôr tudo nos seus devidos limites), não seria possível um oportunista qualquer escanear aquele texto e, sem pagar direitos de tradução, apresentá-lo como produto próprio (produto aqui no sentido econômico mesmo). Se aquela produção fosse reconhecidamente de outro, a fraude a que Denise deu o nome de plágio (discordo um pouco desse nome, mas vá lá) seria bem mais difícil. O fundo dessa aberração é a crença de que um texto A, se traduzido, vai sempre dar como resultado um texto Aa, sejam quais forem as mãos que produzam este último (e infelizmente é preciso que haja tais mãos, ah, que bom seria se fossem chips). Bom, não é assim. Um texto A pode produzir como resultado da tradução um texto Aa, Ab, Ac, ou seja, sempre A, estando aí os índices como indicação de variáveis.

Então, não ser anônimo tem no caso um efeito social e cultural bastante interessante, que só agora alguns setores do jornalismo parecem ter notado. Mas só vou acreditar em vida inteligente nesse âmbito quando as livrarias passarem a registrar também o nome do tradutor junto aos outros dados do livro. Longo caminho ainda pela frente.

Voltando à realidade. O legislador parece entender dessas coisas mais que os próprios tradutores, pois conferiu a estes (e o fenômeno é internacional) o status de não-anonimato e, com isso, equipara tradutor a autor, ou faz dele um autor sui generis. E, quando os diversos atores sociais (midiáticos na maioria das vezes) não se alinham com o disposto em lei, os tradutores estrilam.

Há, portanto, uma ambiguidade social no status de tradutor. Ele está lá, sem ele aquele produto não existiria como tal, mas ninguém se lembra disso. Não nos lembramos de perguntar quem montou o teclado no qual digitamos, quem soprou o vidro do copo no qual bebemos água, quem construiu o carro que dirigimos porque, sabemos, a produção de bens há pelo menos dois séculos vem se tornando cada vez mais anônima, quando não robotizada. E, por puro cacoete, passa-se a pensar a tradução como mais um produto de linha de montagem, posto no mercado para consumo. Mas — seria bom avisar — a tradução, na imensa maioria das vezes, é uma atividade puramente artesanal. As letras, as palavras, as frases, os períodos vão sendo montados por um indivíduo que é obrigado a pensá-los todos muito bem porque, quanto mais complexo um texto, mais a sua elaboração depende do cérebro humano e de um indivíduo.

No entanto, por que certos atores sociais mais enfronhados no assunto esquecem, fazem de conta que esquecem ou fazem questão de esquecer o tradutor? À parte a má-fé, que não me ocupará aqui, entra em jogo, aí sim, o equívoco de que o tradutor é uma entidade invisível (segundo definições técnicas de invisibilidade), e que o processo de tradução de um texto, mesmo sendo fruto genuíno do cérebro humano, obedece a leis quase matemáticas, segundo as quais um enunciado E da língua L sempre passará do mesmo modo M para outra língua L’. É aí que o social e o linguístico se enlaçam. Porque invisibilidade em tradução é um conceito linguístico-estilístico, e isso desde o berço, mas entre achar que existe a possibilidade de invisibilidade em tradução a achar que o tradutor é anônimo a distância é ínfima.

 Outro aspecto da questão é a falsa impressão de que um texto sempre só equivale àquilo que veicula, e não ao modo como o faz, ao modo como está escrito e estruturado. A incapacidade de entender esses limites faz parte de uma mentalidade essencialista que não nos larga. Só se enxerga o conteúdo, em busca da essência, quase nunca a forma, o corpo. O fato de tão pouca gente ter capacidade de examinar formalmente um texto explica o fenômeno da veiculação em massa por internet de textos falsamente atribuídos a este ou àquele escritor, sem que ninguém atente para o estilo, quando não para erros crassos, que nunca caberia atribuir ao tal escritor. A cegueira formal (e aqui se incluem elementos estilísticos e — importante — gramaticais) é muito mais profunda do que se pode imaginar.

Só mesmo esse tipo de cego para acreditar que a invisibilidade em tradução é uma possibilidade.

Mas esse conceito implica elementos complicados demais para ser tratado na segunda parte deste artigo, quando o leitor já deverá estar com os pobres olhos ofuscados pela tela do computador.

Fica para a próxima.

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4 comentários em “Anônimo ou invisível? Escriba ou autor?

  1. magnífico, grande ivone! e mais do que pertinente a substituição de termos que você propõe: de fato, trata-se mais de um anonimato do que uma invisibilidade. vou adotá-la, com sua licença!

  2. Ao ver a sombra de uma pessoa usando um chapéu por trás da árvore, alguém pode se perguntar quem estaria ali. Quem seria a pessoa ali. Essa sim, anônima. Porque o anonimato pressupõe
    o reconhecimento da existência do ente. Outras pessoas verão a árvore, mas não perceberam a sombra. Para elas, portanto, a pessoa não será anônima mas invisível ou imperceptível. E, por fim, haverá quem não só a verá como, por tê-la conhecido antes, poderá dizer seu nome ou, quem sabe, mais características dependendo de sua familiaridade.

    Não é uma característica intrínseca do tradutor ou da tradução, é uma percepção externa. Como se altera uma percepção externa? Como se torna uma sombra mais perceptível? Com uma incidência mais intensa ou mais favorável de luz. Talvez o tradutor devesse investir num bom chapéu também e arrumar uma forma de pendurar seu próprio lampião na árvore.

  3. De um curioso sobre a problemática da tradução, interessantíssima essa terminologia Anônimo e Invisível, eu tenho uma amiga que é revisora de grandes editoras: Record, Edouro, Cia das Letras, Imago, ela sempre reclama que o nome dela não aparece nos créditos dos livros que ela faz revisão, será que uma pressão sobre o Ministério do Trabalho obrigando que isso fosse feito , não resolveria, porque é muito importante que isso aconteça devida a visibilidade que daria para os tradutores? —- Impressões de uma primeira leitura:Gostei muito das observações sobre: tradução, anonimato, invisibilidade, trabalho dos tradutores, nos três últimos parágrafos: —- Mas seria bom avisar que na maioria das vezes, é uma atividade puramente artesanal. As letras , as palavras, as frases, os períodos, sendo montados por indivíduos que é obrigado a pensá-los muito bem porque quanto mais complexo um texto, mais sua elaboração depende do cérebro humano e de um indivíduo ( portanto não é uma linha de produção robótica)——–Equívoco de que o tradutor é uma entidade invisível ! ——processo de tradução de um texto, produto do cérebro humano obedece as leis matemáticas, segundo as quais um enunciado E da língua L sempre passará do mesmo modo L para outra língua L” —-social e linguístico se entrelaçam—–porque invisibilidade em tradução
    é um conceito linguístico-estilístico——-mentalidade essencialista só enxerga o conteúdo , em busca da essência, quase nunca forma o corpo ——Alerta para cegueira formal.

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