Das invisibilidades todas

Num artigo da semana passada comecei a comentar alguns conceitos que têm sido usados pelos profissionais da tradução. Hoje me concentro um pouco mais na invisibilidade.

Essa noção, que a tanta gente parece nítida e transparente como a própria palavra que a resume, a mim parece turva, quando não opaca.

Muito se fala de invisibilidade do tradutor, a coisa escapuliu do caldo acadêmico e caiu na boca do povo. Mas a minha impressão é que nem todos estão pensando na mesma coisa quando usam o termo.

O livro mais conhecido sobre o tema, o que mais popularizou o termo foi The Translator’s Invisibility, de Lawrence Venuti. Já tratei em outros textos desse assunto, mas, em vista da sua onipresença, como disse acima, volto a ele com frequência. Nesta série de artigos, meu objetivo é fazer uma correlação com anonimato e autoria.

É comum lermos atualmente declarações de tradutores (não só brasileiros, ou principalmente não brasileiros) nas quais a invisibilidade é assumida como carimbo de controle de qualidade. Então o tradutor diz “procuro ser o mais invisível possível”, todos tomam por ponto pacífico e ninguém pergunta o que ele quer dizer com aquilo. Percebe-se, pelo jeito como a coisa é dita, que ele pretende expressar um modus operandi, uma metodologia, quem sabe uma filosofia, em todo caso coisas quaisquer que são bem-vistas nos dias de hoje.

Beleza. Parece simples. Mas não é.

Quanto ao conceito em si, vejamos como Venuti define a invisibilidade do tradutor.

No início do livro (p. 21 da edição italiana que tenho aqui) Venuti diz que “a ilusão de transparência é efeito do discurso fluente”. E quais seriam as características da fluência? Sintetizando o que ele diz: valer-se da língua padrão de mais amplo emprego, mas não coloquial, evitar uso de palavras estrangeiras ou de regionalismos; sintaxe não excessivamente fiel, mas uma sintaxe que acarrete exatidão semântica com certa definição rítmica e sensação de firmeza; linguagem familiar. Enfim, tradução domesticadora, segundo ele mesmo.

Portanto, invisibilidade = fluência = tradução domesticadora.

Consequentemente, é invisível o tradutor que crie um texto natural, capaz de passar a impressão de ter sido escrito originalmente na língua de chegada.

Já tive ocasião de afirmar que essa conceituação do termo me parece no mínimo imprecisa, pois o tradutor que faz isso não pode ser invisível. Ao contrário, a criação de um texto “domesticador”, a meu ver, configura um criador atuante, conscientemente reformulador, portanto não invisível. Também já tive oportunidade de dizer que esse tipo de abordagem da tradução deveria ser definido como de invisibilidade da tradução, ou seja, invisibilidade do processo de tradução, como se a convenção fosse: vamos fazer de conta que este texto não é traduzido. Portanto, aí o que se esconderia não seria o tradutor, e sim a origem estrangeira do texto.

Nesse tipo de abordagem do ato de traduzir (como busca de um texto que não pareça traduzido, que tenha a fluência de um escritor que se ponha a escrever em sua língua materna), portanto, a interferência do tradutor só pode ser grande. Ele é um tremendo reformulador, o que do meu ponto de vista dificulta a conceituação de invisibilidade.

Não é a primeira vez que falo disso, quem já teve oportunidade de ler outros textos meus bem sabe.

Continuando numa tentativa de decompor o conceito, vamos fazer de conta que seja possível estabelecer uma clivagem entre o ato linguístico de formulação de um texto e a predisposição psicológica diante desse mesmo texto. Não acho que seja possível essa clivagem na prática, mas aqui, por uma questão de método, vamos fingir que é.

Aceita essa possibilidade, convenhamos que até o momento só falamos da formulação textual, ou seja, da construção do texto.

O outro aspecto da questão, nem sempre distinguida, porque sempre imbricada, é o da atitude psicológica diante do texto. Potencialmente, várias. Tem-se convencionado, porém, que, para ser correta, ela deve ser de identidade entre tradutor e autor do original, a tal ponto que haja uma espécie de simbiose. E acredito que seja nesse sentido que os tradutores costumam afirmar-se “invisíveis”.

Agora, cada tradutor que se afirma invisível estará criando um texto domesticador ou um texto estrangeirizador? Boa pergunta. Será preciso verificar caso a caso para se chegar à resposta.

Voltemos a Venuti. Na p. 28 da minha edição ele diz: “Por um lado, a tradução é definida como representação de segunda ordem: o texto estrangeiro é original, a tradução é cópia (que deve ser fiel à personalidade ou à intenção do autor). Por outro lado, espera-se que a tradução apague essa condição de segunda ordem por meio de um discurso transparente, produzindo a ilusão da presença do autor”

A invisibilidade do tradutor (e não do processo de tradução) seria, então, a sua simbiose com o autor, único cuja voz deve ser ouvida. Ora, a minha perplexidade está no fato de que a simbiose com o autor de fato implicaria a existência de um texto transparente, com a ressalva de que o texto definido como transparente não me parece nada transparente. Então de duas uma: ou não existe transparência textual ou a definição de transparência textual precisa ser refeita.

Sintetizando:

Se

texto fluente = tradutor invisível = texto domesticador,

então, onde encaixar conceitualmente a maior elaboração reformuladora por parte do tradutor para produzir o texto fluente?

E se

tradutor invisível = o que se esconde e deixa o autor transparecer,

temos uma contradição com a primeira equação, pois em termos de construção linguística o autor só pode transparecer plenamente quando lido no original, e, quanto maior a interferência para criação de um texto domesticador, mais distante ele ficará, e o tradutor que faz isso não se faz invisível.

Logo, invisível seria o tradutor que interferisse o mínimo possível (da maneira preconizada pelos teóricos da escola alemã do século XIX, por exemplo). Nesse caso, realmente, o tradutor se tornaria transparente: sua intervenção se reduziria ao mínimo. Estaria situado na parte mais baixa possível do espectro da reformulação, cujo grau zero seria representado pela fábula de Pierre Menard, no famoso conto de Borges.

Acima fiz uma clivagem entre o textual e o psicológico. Clivagem artificial, repito, pois o ato de produzir um texto e o seu resultado dependem diretamente da atitude pessoal do seu redator diante do seu conteúdo. Nem o tradutor escapa.

Mas existe mais um âmbito no qual o termo invisibilidade costuma ser inserido: o âmbito social, o modo como a pessoa do tradutor é ou não é vista, como ela se põe ou não se põe, como interage ou não com seu meio.

Diz Venuti na p. 29 da minha edição: “A invisibilidade do tradutor, portanto, é uma autoanulação bizarra, um modo de conceber e praticar a tradução que sem dúvida reforça a sua condição de marginalidade na cultura angloamericana”.

Deixemos de lado o fato de que esse fenômeno não se dá apenas na cultura angloamericana. Aliás, se fosse só lá, eu provavelmente não estaria escrevendo isto agora. O que importa no momento é que aí, nesse ponto, a invisibilidade dá as mãos ao anonimato, coisa que abordei no artigo da semana passada.

Nestas alturas já não importa tanto o conceito textual de invisibilidade (aquele que me parece discutível). O que importa é que o tradutor, psicologicamente predisposto a anular-se diante do autor, acaba por se anular como sujeito social.

E essa postura é pactuada pela sociedade em geral. Por isso, quando diz que procura ser o mais invisível possível, o tradutor está dizendo o que todos esperam dele, o que demonstra estar ele por dentro de sua arte.

E é aí que a invisibilidade dá as mãos ao anonimato. O mecanismo poderia ser formulado mais ou menos assim: como o tradutor é secundário, como sua existência no texto deve chegar o mais perto possível do ideal de anulação, é contraditório e inconveniente que ele apareça como sujeito de vontade própria na vida real, é incômodo fazê-lo sobressair, é mais interessante que sua existência seja negada, varrida para debaixo do tapete e, não podendo deixar de existir, que seja anônima.

Esse construto causa maior perplexidade quando se choca com uma outra realidade social, como se em nossa cultura houvesse uma esquizofrenia não diagnosticada. Ou seja: como explicar que um ser relegado ao anonimato ou à invisibilidade possa ser detentor de direitos autorais?

Por que a contradição? Porque a lei se baseia (com clarividência) no conceito de singularidade textual, pressupondo que dois textos criados por dois tradutores serão diferentes entre si na mesma medida em que dois indivíduos são diferentes entre si. O texto de cada tradução seria então uma espécie de impressão digital ou de código genético intransferível do seu autor. É um fato, e a singularidade de um texto traduzido é diretamente proporcional à complexidade do texto original. Logo, o que a lei pressupõe e sacramenta é que cada tradutor deixa marcas em seu texto, a ponto de individualizá-lo. Há aí um choque evidente com a propalada invisibilidade, e minha impressão é que está aí a origem de tanta ambiguidade nos discursos sobre o assunto.

Para concluir: o que Venuti define, nos termos em que define, não é invisibilidade do tradutor, mas tentativa de camuflar o ato tradutório, de tornar esse ato invisível; a tradução domesticadora não poderia ser invisível, invisível seria a estrangeirizadora, como dito acima; o tradutor sempre deixa suas marcas pessoais, logo sua invisibilidade é impossível no texto. Mas é formulada como ideal por ele e por todo o seu círculo social. Essa formulação tem como consequência a tentativa de camuflagem da pessoa do tradutor num círculo vicioso e complexo.

No entanto, o que os tradutores querem dizer quando se afirmam invisíveis é algo mais simples. Estão dizendo: observo o modo de escrever do autor e procuro respeitá-lo, transferindo para o meu texto os seus enunciados do modo mais isento possível, sem inventar, sem impor minhas vontades, sem sucumbir a preconceitos, sem amenizar o que me choca, sem dar sumiço ao que me enoja, sem intensificar o que apoio, sem desenvolver o que me parece insuficiente nem eclipsar o que brilha. Enfim, fazer o contrário do que tantas vezes foi feito, quando a tradução era impudicamente domesticadora, naquele tipo de atitude que Mirabeau não se acanha de confessar em seu tempo, ele que também estava dizendo então o que se esperava que dissesse, numa nota introdutória a uma edição encomendada de uma compilação de novelas extraídas do Decameron de Boccaccio:

Primeiramente, confessarei com franqueza que não acho Boccaccio bom nem que é necessário traduzi-lo. Seria difícil contestar que seu principal mérito consiste num estilo elegante e puro, de que os italianos seriam mais ou menos os únicos juízes. […] Mas que importa a nós [grifo meu] esse mérito e esse estilo no qual há períodos tão longos, mesmo para os italianos, insuportavelmente longos, talvez, numa língua bem menos abundante, harmoniosa e flexível que a original? Em vão o sr. de G** dirá que Boccaccio é um autor clássico, e que, assim, sua versão deve ser literal e integral. Não é certamente para nós que Boccaccio é um autor clássico, e o público, que de nós espera diversão, sempre reprovará o tradutor quando uma versão literal e integral o aborrecer [grifo meu].

Portanto, concluí que precisávamos renunciar a apresentar uma tradução fiel de Boccaccio e, abreviando um pouco, limitar-nos a ficar com seus temas e ideias principais e fazer um esforço para rejuvenescê-los, se quiséssemos que uma coletânea de suas Novelas fosse lida com prazer.[1]


[1] Nouvelles de Boccace, traduction libre, vol. I, Paris, 1802, “avis de l’éditeur”, pp. IX-X, consultável em: http://migre.me/7T55z.

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8 comentários em “Das invisibilidades todas

  1. Na contramão dos defensores da invisibilidade, temos a tradução que Marilene Carone fez do artigo de Freud, “Luto e melancolia”, agora publicado pela editora Cosac&Naify, num lindo livro que faz jus ao trabalho da saudosa psicanalista e tradutora.

    No caso da obra do psicanalista vienense, mas também de tantos outros autores e ensaístas que deixam sua marca na cultura, a diversidade de tradutores muitas vezes enriquece o estudo da obra, pois estes se apresentam também com leitores privilegiados, intérpretes de um pensamento inesgotável.

    Ilustração disso é o “achado” de Marilene ao traduzir a frase “Ihre Klagen sind Anklagen” por “Para eles, queixar-se é dar queixa”, em que é absolutamente fiel ao original e ao mesmo tempo torna ainda mais manifesto o caráter acusatório da queixa melancólica.

    Recomendo esse bonito livro agora publicado não só aos psicanalistas, mas também aos tradutores, que ali encontrarão excelentes exemplos da visibilidade do tradutor no mais profundo respeito da obra original.

  2. “Nesse tipo de abordagem do ato de traduzir (como busca de um texto que não pareça traduzido, que tenha a fluência de um escritor que se ponha a escrever em sua língua materna), portanto, a interferência do tradutor só pode ser grande. Ele é um tremendo reformulador, o que do meu ponto de vista dificulta a conceituação de invisibilidade.”
    concordo; uma vez dei uma palestra e escrevi um texto sobre isso, e a conclusão era: “Portanto, num paradoxo que me parece interessante, teríamos que o trabalho consciente do tradutor, ao elaborar atentamente seu modo de atuação e imprimir decididamente sua marca no texto, tem muito maior probabilidade de alcançar em sua tradução uma fluência similar à fluência do texto de origem. Dito em outros termos: quanto mais claro e consciente for o trabalho de imprimir no texto de tradução sua marca pessoal, mais invisível será o processo da operação tradutória no resultado final.”

  3. Ivone,
    Excelentes as suas formulações, e apreciei especialmente seu esforço de definir com maior rigor o que seriam invisibilidade e anonimato. No entanto, em algumas das suas considerações percebo um impulso (à teorização?) que busca razões de ordem conceitual para fenômenos que a meu ver, no plano concreto,,têm causas mais complexas ligadas à produção e comercialização do livro traduzido — não sei se apenas entre nós, mas pelo menos na minha experiência (p. ex.: “…POR PURO CACOETE, passa-se a pensar a tradução como mais um produto de linha de montagem”). Aqui, sinto falta de um exame mais detido das relações entre esses equívocos digamos conceituais e a prática das casas editoras que produzem e vendem as obras traduzidas, resultando no enquadramento à força do ofício artesanal da tradução na lógica industrial por que essas últimas procuram se reger em graus variados. A meu ver, ficariam aí evidentes alguns funcionamentos viciados ligados à problemática que você descreve e evidenciam a existência de poderosos mecanismos de ordem econômica e ideológica que, mais que puros cacoetes, seriam determinantes para que a tradução, como você aponta com tanta propriedade, seja percebida (e apresentada) como uma “etapa da linha de montagem”.
    Um abraço do admirador de sempre,
    Sergio Flaksman

    1. Na verdade, seria um projeto muito mais ambicioso do que o que me propus. Quando falei em “cacoete” eu me referia ao senso comum. Ou seja, as pessoas em geral se acostumaram a ver os produtos que consomem como fruto da atividade mecanizada anônima (de pessoas ou máquinas), e o processo de produção da tradução em si foge a esse esquema. Agora, a tradução como um produto artesanal dentro da, digamos, linha de montagem de uma editora e as interações que haveria entre essas duas realidades, bom, isso é coisa que implica outra análise, seria outro artigo. Aliás, é bom atentar também para o fato de que há outras atividades também artesanais na produção de um livro, como por exemplo a do revisor. Por enquanto ainda não me sinto preparada para abordar esses assuntos.
      P.S. Chamo a atenção de quem estiver lendo estes comentários para o fato de o assunto neles abordado estar presente em outro artigo, que é artigo Anônimo ou Invisível? Escriba ou autor?, postado anteriormente.

  4. “outras atividades também artesanais na produção de um livro, como por exemplo a do revisor” – bondosa ivone, sempre bondosa (isso se entendermos a artesania como algo pensado, deliberado, cuidadoso, e não uma reação mecânica, automatizada).

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