Retórica e palavrão

 

“O povo braGrotesque-Head-02sileiro não pensa assim e, sobretudo, o povo brasileiro não se sente da forma como esses xingamentos expressam. O povo brasileiro é civilizado e extremamente generoso e educado.”

Com essa frase, Dilma Rousseff parece não incluir no conjunto “povo brasileiro” o subconjunto formado pela turba vociferante do Itaquerão. De que modo isso é feito? Primeiro ela se expressa negativamente: “O povo brasileiro não pensa assim […] o povo brasileiro não se sente da forma etc.”. E de que forma pensa e age o povo brasileiro? A explicitação afirmativa vem logo em seguida, “o povo brasileiro é civilizado e extremamente generoso e educado”. E aí se passa (desconfio) para o campo da optação, ou daquilo que em inglês se chama “willing thought”, ou seja, uma afirmação que expressa um desejo, sem se preocupar com a realidade. A direção optativa da segunda parte da frase acaba por se refletir sobre a primeira. Então, “o povo brasileiro não pensa assim etc.” também é mais a expressão de um desejo do que propriamente a constatação de uma realidade.

Ou nem tanto. Há um dado de contexto, que todos sabem existir, mas ela não explicita: são as pesquisas. E estas indicam que Dilma Rousseff tem razão. O [restante do] povo brasileiro não pensa nem se expressa daquele jeito.

No entanto, o nó da frase está na palavra “povo”. O que significa “povo” aí? É o velho embate entre denotação e conotação. Quando há ambiguidade, sempre há uma atribuição conotativa que escapa ao valor denotativo primeiro. Por vir acompanhada de “brasileiro”, a palavra “povo” parece se enquadrar na seguinte acepção: “conjunto de pessoas que falam a mesma língua, têm costumes e interesses semelhantes, história e tradições comuns” (Houaiss). Portanto, quando se diz, indiretamente, que aquele não era o povo brasileiro, o ponto de referência a que o ouvinte é remetido é essa acepção. E não a esta: “conjunto de pessoas que pertencem à classe mais pobre, à classe operária; plebe” (também Houaiss). Logo, deslocado aí está o adjetivo brasileiro, pois as pessoas que ali estavam se enquadram na primeira categoria, embora não na segunda. Deslocado ou propositadamente usado para universalizar e fortalecer a afirmação.

Dilma, portanto, usou a palavra povo com uma conotação particular (a de classes populares, ou então de parcela da nação que não aquela), mas fez questão de generalizar, unindo a ela brasileiro. Assim se criou um paradoxo. Com desdobramentos perigosos: alija-se da nação brasileira aquela parcela que ali estava.

Recurso retórico. Apenas isso.

Apenas isso? Ou reflexo de uma prática política? Prática à qual aquela manifestação pode não ser totalmente alheia. O PT, desde que assumiu, para conseguir governar criou uma ampla base de alianças no Congresso, unindo-se às vezes ao que de mais espúrio tem nossa tradição política. Para suprir carências seculares, investiu na transferência de renda para os setores mais necessitados, através da Bolsa Família e de iniciativas congêneres. A primeira medida parece inelutável no nosso sistema político viciado e vicioso. A segunda parece imprescindível num país tão desigual como o nosso. A chamada classe média não recebeu atenção especial. E mais: uma parcela dessa classe, que votou alguma(s) vez(es) no PT com esperança de mudanças substanciais, viu-se frustrada. Depois das conquistas iniciais, teria sido prudente dar mais atenção a ela. Não pretendo aqui dar nenhum receituário, mas talvez fosse interessante ter se esforçado mais para promover as reformas tributária e política. Dado esse passo, uma segunda etapa seria um grande esforço nacional pela reforma da educação e do sistema de saúde. Mas, ainda que tudo isso tivesse sido feito a contento, os avanços não chegariam ao conhecimento dos brasileiros sem muita divulgação. O brasileiro em geral vem sendo, há anos, bombardeado pelos meios de comunicação que, em sua maior parte, não consegue esconder que está em campanha contra o governo. Fernando Henrique Cardoso não perdia uma oportunidade de ir à tevê, em rede nacional, dizer o que fazia e o que deixava de fazer. Onde estão os governantes atuais? O “povo” mais informado sabe que há muito que comemorar. Também sabe que corrupção há e sempre houve, mas tudo é divulgado e julgado de tal modo que só aparecem os malfeitos ligados à gestão do PT. Enquanto isso, o que há de melhor no governo Dilma se intimida.

Portanto, não me parece ter sido boa opção o esquecimento da classe média, não me parece boa opção a velha prática de tachá-la de “elite branca”, jogando sobre ela todas as mazelas da nação. Esse vício em Lula foi extremamente nefasto. Fez ele e fazem muitos petistas, hoje, aquilo que essa mesma tal “elite branca” faz o tempo todo: demonizar o adversário e referir-se a ele com insultos minimalistas. Eu bom versus tu mau. Donde a tal polarização de que se queixam os que costumam ter algum tipo de pensamento um bocadinho mais complexo.

Mas a classe média paulistana tem algumas peculiaridades extremamente negativas que não custa enumerar. E foram elas que determinaram aquela atitude lastimável dia 12 no Itaquerão. Quem era aquela turba branca e bem vestida que fala com rr retroflexos? De modo geral, descendentes de imigrantes que vieram para cá em busca de ascensão. E conseguiram. São de uma geração que está começando a consolidar as conquistas obtidas pelos pais e avós (curso universitário, propriedade de uma casa própria ou mais de uma, bom saldo bancário, boa poupança, vários automóveis, viagens internacionais periódicas etc.). Enfim, eles têm muito que perder. Eu não diria que têm medo da proletarização (a conjuntura atual não indica esse perigo, e eles deveriam levar isso em conta quando resolvem abrir a boca para vomitar asneiras contra o governo federal), mas não gostam de nada que cheire a proletário. O esforço para ascender foi grande demais, o passado na lavoura ou na fábrica é um inferno que precisa ser recalcado. Enganam-se os petistas que afirmam que aqueles ali eram escravocratas, “casa grande” contra senzala. Não, o grosso das classes abastadas da Pauliceia tem no DNA o sangue de uma gente que trabalhou duro para sobreviver e vencer. Os chamados paulistanos quatrocentões, escravocratas ou não, costumam ser educados. Em geral estão longe de comungar com o ideário petista, mas fazem isso dentro dos limites da civilizada convivência que aprenderam no berço. A classe média parvenue, para não dizer arrivista, traz do “povo” (não na primeira acepção do Houaiss) a virtude da informalidade, que vira vício quando travestida de pseudoliberação da fala e dos costumes: então se chama grosseria. Grosseria é manifestação de desprezo, de arrogância, não de discordância. Os típicos membros da classe média parvenue não têm cultura (seus ancestrais não tiveram tempo de cultivar-se), não têm vivência política (seus ancestrais só lutavam para subir na vida). São absurdamente permeáveis ao consumismo. Não leem. A única ficção que conhecem e “curtem” é a da telenovela. Só a cultura de massas os sensibiliza. Mas não a cultura popular. Esta eles desprezam. Com o abandono das práticas religiosas compulsórias, perderam o último fragmento de respeito à regra áurea (não faças a outrem o que não desejas para ti). Mas se dizem religiosos. Os mais “avançados” confessam tímido ateísmo. Esbravejam contra a corrupção, mas são capazes de pequenos atos asquerosos quando o assunto é proveito próprio. Têm raciocínio binário: não aprenderam a arte da análise e da síntese. A instrução que receberam é utilitarista, o que os torna competentes apenas em suas profissões, em seus ofícios. Instrução que foi cuidadosamente montada pela ditadura e as democracias subsequentes não souberam ou não quiseram desmontar.

Mas pagam impostos. E muito. Por isso não podem ser ignorados. Nunca estiveram tão bem como agora, nunca tiveram tanto crédito; a oferta de emprego (pois eles dependem de empregos) há muito tempo não andava tão boa, mas eles são tradicionalistas e sem imaginação. Em vez de aprenderem a reivindicar contrapartidas pelos impostos que pagam, caem facilmente nas redes dos que sabem manipular a comunicação com eficiência e falta de escrúpulos. Porque têm espírito crítico, mas não pensamento crítico.

Ignorá-los foi o erro do PT.

A retórica desses indivíduos é minimalista. Por falta de cultura e de vivência política só lidam com realidades imediatas. Contaminados pelas campanhas dos últimos anos, sentem um mal-estar difuso, um sentimento de catástrofe iminente, que não conseguem distinguir de onde veio nem como descambará. Não conhecendo a arte da argumentação, sempre incorrem no argumento ad hominem. Isso quando buscam argumentar. Quando não, partem para a imprecação, a diatribe, a objurgatória (a retórica tem nome para essas coisas, e como!). Mas, como não têm o hábito da democracia, não sabem reivindicar, não sabem participar, não sabem propor, não sabem expressar o que querem. Pior: muitas vezes não sabem o que querem. Adquiriram o hábito da negação pura e simples, o vocabulário da prepotência. E assim conseguem atingir o grotesco, passar do grito ao grunhido, só usar palavras-ônibus, em grande parte de baixo calão, na cozinha de casa e na sala de visitas da nação. Não fazem diferença. Assim, tornam públicas palavras de cloaca para se dirigirem a uma mulher que, não por acaso (e sim por voto popular), é presidente da República. E talvez até mesmo por ser mulher. Para o modo de expressar-se desse “povo” só é possível criar uma nova figura de linguagem: a defecação verbal.

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