O TENOR FICOU SEM VOZ

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 Texto publicado na seção “ARQUIVO ABERTO, Memórias que viram histórias” da Ilustríssima, jornal Folha de São Paulo, em 12/02/2012

São Paulo, julho de 1977

As lembranças surgiram quando peguei um livro de mau jeito e do meio dele brotou um amarelado recorte de jornal que, depois de uns volteios, depositou-se aos meus pés. Recolhi, li, lembrei.

Era um artigo sobre uma apresentação de “Otelo”. O autor, Luís Ellmerich (1913-88), foi respeitado comentarista de música e escreveu vários livros sobre assunto, além de, se não me engano, compor.

Theatro Municipal de São Paulo. Eu estava lá naquela noite. No camarote das autoridades, Mário Henrique Simonsen e Olavo Setúbal. Portanto, uma noite de gala entre 1975 e 1979, quando os dois estiveram ao mesmo tempo no poder. Não anotei a data no recorte, mas no verso um anúncio informa que era julho de 1977.

Eu, na plateia, de vez em quando dava uma olhada para trás e para cima (difícil metáfora), tentando decifrar as esfinges, entre outras, que decidiam minha vida e as dos mais de 90 milhões em ação, pra frente Brasil.

Minha excessiva juventude me permitia odiar o tipo de poder que eles representavam com a mesma intensidade com que amava o que se representaria no palco. Hoje não sou capaz de tanta força de sentimentos, é pena.

Mas meus sentimentos deviam ser diferentes dos de Ellmerich. Tanto pelo que ele diz quanto pelo que não diz. Pelo que diz, ocorreu-me objetar que os críticos em geral (e não só de música) deveriam deixar claro que muitas vezes estão expressando preferências pessoais, e não verdades incontestáveis.

O “Otelo” era cansativo para o comentarista, apesar das grandes qualidades que ele admitia? Para mim, não. Se bem que nunca fui apaixonada pelo dueto de amor e pela longuíssima ária final de Desdêmona, partes em que Verdi se faz lírico. Logo, prefiro o Verdi trágico ou épico. Mas é gosto pessoal.

O mais intrigante, porém, é o que ele não diz. E ele não diz que o tenor estava sem voz.

Por que não disse? Por que se limitou a dizer que Mastromei (barítono, Iago) “foi o melhor dos personagens principais”, omitindo que, num intervalo, em vista da rouquidão do tenor, ele se ofereceu para cantar a parte de Otelo, e a oferta foi recusada?

E quem era o tenor? Ninguém menos que James McCracken, cantando o papel que o consagrara.

Por que não diria no jornal que o tenor estava sem voz, que a récita tinha sido um fiasco? O que saía ou deixava de sair em jornais, então, obedecia a uma lógica inapreensível. Não sei opinar. Só sei lembrar.

Vivíamos o ambíguo governo Geisel. O crescimento econômico passava de um “allegro con brio” a certo “andante ritenuto” que acabaria num lamentável “largo mesto” após 1979, sem falar que, às vezes, os próceres da nossa república, como certos artistas, cultivavam a pausa. Num crescendo, mesmo, só a dívida externa.

Democracia, nem pensar. A morte de Vladimir Herzog, em 1975, tinha sido mais uma gota amarga num copo que nunca transbordava. A repressão ainda mordia. O país não estava em silêncio, mas era um coro “a bocca chiusa”, ainda “pianissimo”.

Contudo, o público aplaudiu. Silenciei as palmas, em respeitosa consternação. Tinha juntado meus míseros caraminguás para o ingresso, tinha tomado de empréstimo um traje apropriado (na época não se entrava no Municipal como hoje se vai ao shopping), para assistir a um cantor afônico.

Simonsen e Setúbal daquela vez também tinham sido logrados.

Quando li o artigo, nesta semana, todas essas sensações afloraram, trazendo certa turvação sombria, ressaibo daquela década perdida de minha juventude.

McCracken foi um anticlímax, uma frustração a mais. Por que ele não saiu de cena? Por que teimou em desgastar, desde o início do segundo ato, uma voz que já não ressoava, em forçar ainda mais uma garganta cansada?

Sabia que não iria ser vaiado? No palco artístico e político, o Brasil lida de um modo peculiar com os fiascos. Não vaia, não pune. Prefere abafar o estrondo do fracasso com o rumor das palmas. Ou com o silêncio constrangido.

E dessa, afinal, nem eu mesma escapei.

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