O Pequeno príncipe: notas de (uma) tradução – 1

Raposa-PP

ATENÇÃO: OS TRÊS ARTIGOS SOBRE A TRADUÇÃO DE O PEQUENO PRÍNCIPE ESTÃO REUNIDOS EM NOVO ENDEREÇO. LEIA A ÍNTEGRA CLICANDO AQUI.

(Aos poucos este blog será desativado)

O verbo apprivoiser

Uns meses atrás uma colega de trabalho do meu filho, que só tinha me visto uma vez, subiu apressada as escadas da minha casa e foi me buscar no último canto do meu quarto para me dizer que tinha ficado muito feliz por saber que eu estava traduzindo O Pequeno príncipe. Seu livro predileto, dizia ela, que não é miss, apesar de muito bonita. Começamos a conversar sobre o livro, e ela me cita a famosa frase “você é responsável pelo que cativa”, acrescentando que essa mesma frase anda tatuada em alguma parte do corpo de alguém que ela conhece, de tão bonita que é.

Tremi nas bases. Não pretendia usar o verbo cativar.

O original é apprivoiser. Complicado. Conheci esse verbo na voz de alguma mezzo-soprano: está na habanera da Carmenl’amour est un oiseau rebelle que nul ne peut apprivoiser, o amor é um pássaro rebelde que ninguém consegue domesticar. Aí é simples. O verbo só aparece uma vez, e ninguém fica cismando em torno dele. No Pequeno príncipe a coisa é um pouco diferente.

Apprivoiser significa ao mesmo tempo domesticar* e seduzir. Já o verbo cativar significa prender e seduzir. Isso significa, para usar terminologia matemática, que existe uma intersecção entre o conjunto apprivoiser e o conjunto cativar nas acepções relativas a seduzir.  Fora deste subconjunto, não há coincidência de acepções. Quando isso acontece em tradução (e não é tão incomum), o tradutor torce para que naquele texto, principalmente se literário, não entrem as acepções não comuns aos dois conjuntos. Foi o que aconteceu no trecho da Carmen, que citei há pouco. No Pequeno príncipe, os dois subconjuntos de acepções entram um atrás do outro, ou um por trás do outro, de tal maneira que o tradutor sai à caça de algum verbo em português que signifique ao mesmo tempo domesticar e seduzir. Não existe. E, por diversas razões, os tradutores optam por “cativar”, que participa do subconjunto “seduzir”, mas não “domesticar”. Exemplificando:

  • A certa altura uma raposa diz ao príncipe que não pode se aproximar dele porque ainda não foi apprivoisée. E aí qualquer francês entende que ela não foi domesticada.
  • O príncipe não sabe o que é apprivoiser, a raposa acaba explicando. Porém não definindo, pois não diz “apprivoiser é isto”, mas usa uma frase facilmente metaforizável. E aí entra em jogo outra relação de acepções que vou comentar porque uma opção nunca anda sozinha, ao contrário, sempre interage com outras, no caso com as de apprivoiser. A raposa diz: “significa criar laços”. A palavra francesa para laço aí é lien, concretamente atilho, tudo aquilo com que se pode amarrar algo. Fora do campo metafórico também pode indicar o laço com que se prende um animal. E, em uso metafórico, pode ser traduzida sem sobressaltos por elo, vínculo, laço, justamente. Ou seja: existe aí uma coincidência quase perfeita dos campos concreto e metafórico nas duas línguas. Desse modo, Saint-Exupéry estabelece um vínculo (sem querer fazer trocadilho) entre apprivoiser, que parecia ter o sentido não metafórico de “domesticar” e um possível sentido metafórico da palavra lien. O leitor francês aí começa a desconfiar de eventuais nuances figuradas. O leitor de língua portuguesa, em compensação, já não tem dúvida nenhuma: se antes ele tinha lido cativar, agora ele entende que os laços são afetivos. E aí o tradutor brasileiro brocha, porque não consegue comunicar tudo o que o verbo português cativar abafou por trás da sua cativante beleza.
  • A raposa continua nas suas explicações: por enquanto os dois não se distinguem da massa de seus respectivos semelhantes e um não precisa do outro. Mas, depois que ela for apprivoisée por ele, um precisará do outro, um será único no mundo para o outro. Minha opinião era (notem o tempo do verbo) de que poderíamos continuar usando “domesticar” sem grandes dores de consciência, porque é isso o que acontece quando domesticamos um animal: criamos com ele um laço que nos define como únicos para ele, enquanto ele se torna único para nós. Quem já teve um vira-latas sabe do que estou falando.
  • Então o príncipe diz que está começando a entender. Lembra-se da flor que deixou em seu planeta e exclama: acho que ela m’a apprivoisé. Bom, aí quem está preso pelos laços já não é um animal, é o príncipe, e o verbo domesticar causa estranheza aos amantes do livro de Saint-Exupéry no Brasil. A amiga do meu filho quase enfartou quando lhe falei das acepções do verbo francês. A mim não causaria estranheza o uso de domesticar aí por uma razão muito simples: porque é a raposa que estranha o uso de apprivoiser pelo príncipe quando ele se refere a si mesmo. Então ela comenta: É possível. Na terra a gente vê todo tipo de coisa. Se a raposa estranha é porque na relação entre um príncipe e uma rosa o verbo apprivoiser não se encaixa tão bem quanto na relação entre um animal, que é ela, e o príncipe. E aí começo a desconfiar que a raposa em momento algum falava metaforicamente. Ou melhor: a isso nos induz habilmente Saint-Exupéry.
  • Contudo, a bela frase “você é responsável pelo que…” não seria jamais aceita com o verbo domesticar. Essa frase, que anda sendo até tatuada, é a última gota de mel de um pote que já vinha se enchendo com outras, como no diálogo do príncipe com as rosas ou na máxima que a raposa ensina ao príncipe: o essencial é invisível para os olhos.

Esse fecho me fez aceitar as ponderações da editora e optar, também eu, por cativar.

A retradução de um clássico é muito menos pacífica do que a primeira tradução de qualquer livro. Porque a interpretação de um texto consagrado já anda pelo ar há décadas, quando não há séculos. Em alguns momentos, quem tentar nadar contra a corrente poderá encontrar uma resistência insuperável, pois é muito difícil destruir fascínios e mitos.

Ao se tornar de domínio público, O pequeno príncipe está atraindo um enxame de editoras que querem abocanhar seu quinhão do abundante mel desse best-seller. Até agora sei de duas traduções já publicadas (a minha e a de Frei Betto, pela Geração Editorial, que, aliás, não conheço) e outra em andamento, a da competente Denise Bottmann, que até criou um grupo no qual vêm sendo discutidas questões bastante pertinentes desse texto. Outras mais devem vir, pois sei de outras editoras que andam pensando no assunto. Em vista do grande interesse despertado por esse livro, decidi sair da letargia dos últimos tempos e também escrever a respeito.

Outra questão que me parece digna de tratamento em data próxima é a dos gêneros dos “personagens” dessa pequena fábula.

* Acréscimo após a edição. Em vista de alguns comentários recebidos em particular, gostaria de esclarecer que, quando digo “domesticar”, naturalmente estou incluindo todos os seus sinônimos mais ou menos próximos, como amansar, adestrar, amestrar. Também é possível cogitar o verbo conquistar. O verdadeiro problema de um texto como esse não está em encontrar uma tradução, mas em encontrar uma só palavra que sirva para todas as ocorrências, uma vez que essas ocorrências se dão todas dentro de um mesmo paradigma conceitual, e não em momentos diferentes do texto, em que os conceitos implicados sejam distintos.

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8 comentários em “O Pequeno príncipe: notas de (uma) tradução – 1

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