O Pequeno Príncipe – notas de (uma) tradução – 2

petit prince et la rose

ATENÇÃO: OS TRÊS ARTIGOS SOBRE A TRADUÇÃO DE O PEQUENO PRÍNCIPE ESTÃO REUNIDOS EM NOVO ENDEREÇO. LEIA A ÍNTEGRA CLICANDO AQUI.

(Aos poucos este blog será desativado)

Ovinos

Na França, a frase dessine-moi un mouton já foi título de canção e é nome de uma associação de amparo à criança, entre outras coisas. Virou lema, insígnia, ícone, símbolo. Mito? Com essa frase o príncipe acorda o aviador: pede-lhe que desenhe um… mouton. Tradução de mouton? Carneiro, claro.

Assim como aconteceu com apprivoiser, se a palavra tivesse aparecido só uma vez, a tradução correria sem sobressalto, e eu não estaria escrevendo isto.

Mas a história continua. O aviador é mau desenhista, isso ele disse já no começo do livro, então, depois de muita insistência, tenta desenhar a única coisa que sabe, ou seja, um elefante dentro de uma jiboia. O príncipe não quer isso, quer um ovino, um mouton. Aí o aviador desenha isto:

O primeiro "mouton" desenhado.
O primeiro “mouton” desenhado.

O garoto não se contenta. As orelhas estão caídas, ele diz que o bicho está doente. Aí o aviador faz este outro desenho:

O segundo "mouton" desenhado
O segundo “mouton” desenhado

O guri diz que aquilo não é mouton, aquilo é bélier. E nesse ponto a tradutora resolve ir tomar um café.

Voltando do café, começa a percorrer dicionários. Se existe um lugar de unanimidade, esse lugar se chama dicionário. Olhando, virando e mexendo, olhando a taxonomia, ela conclui que — não dá outra! — bélier é carneiro.

Diz o Littré no verbete mouton:

Bélier châtré que l’on engraisse = bélier castrado para engorda.

E logo abaixo:

En un sens plus général, béliers, brebis, et agneaux, réunis en troupeau. Troupeau de moutons = em sentido mais geral, béliers, ovelhas e cordeiros reunidos em rebanho. Rebanho de moutons.

Duas conclusões: 1) mouton é um termo genérico e é também um termo específico; 2) para definir mouton, o dicionário se vale da palavra bélier nas duas definições, porque mouton, no específico, é o bélier em certo estágio de vida (ou melhor, no estado vitalício de castrado, pobre animal) e no genérico o termo agrega o rebanho todo.

Para comparar, diz o Aulete no verbete carneiro, com o que concorda Houaiss:

  1. Zool. Denom. comum aos mamíferos da fam. dos bovídeos, do gên Ovis, com sete espécies selvagens e uma domesticada (Ovis aries) no mundo inteiro, que fornece lã e carne. [Col.: carneirada, rebanho, redil.]

  2. Macho da espécie domesticada (O. aries). [Fem., nesta acp.: carneira, marrã, ovelha.]

Aqui de novo desfoques, intersecções, e não coincidências. Para os franceses mouton é 1) o genérico ou 2) o capão, macho castrado, para o qual não temos nome específico. Portanto, para nós, carneiro é o genérico ou o macho em geral.

Vamos combinar que existem três subconjuntos no conjunto ovino lanoso masculino, segundo os franceses: nome genérico, macho castrado, macho não castrado. A coisa se distribui da seguinte maneira nas duas línguas (desenhando para entender):

Genérico

Macho castrado

Macho não castrado

fr.

mouton

mouton

bélier

port.

carneiro

carneiro (castrado)

carneiro

Portanto, temos um só nome para três subgrupos, enquanto o francês tem dois, e são esses dois que entram em jogo.

Esses impasses são sempre resultantes da complexa dialética entre o mundo e a expressão do mundo, que todos os dias caem no colo do tradutor. Linguística e filosofia, especialmente quando juntas, vêm tratando do assunto há séculos, ainda que nem sempre (é pena) de modo dialético. Humboldt, Trier, Hjelmslev, Cassirer, Sapir, Whorf, Benveniste, todos pensaram de um jeito ou de outro esse tipo de fenômeno. Vejam esta pérola de citação de Hjelmslev:

“O ‘cão’ receberá uma descrição semântica complemente diferente entre os esquimós, para os quais ele é sobretudo animal de tração, entre os parses, para os quais ele é animal sagrado, em algumas sociedades hindus, onde ele é rejeitado como pária e em nossas sociedades ocidentais, nas quais ele é principalmente animal doméstico treinado para a caça ou para a vigilância.”[1]

Existem inúmeros exemplos desse tipo de coisa.  O caso mouton/carneiro certamente é um deles. Os ovinos, como outros animais, representam para cada grupo humano um conjunto de coisas que, embora as mesmas, são consideradas, classificadas e denominadas de maneiras diferentes. Raças, tipos, utilidades, modos de manejar e conviver, conotações míticas etc. variam de uma sociedade para outra e se refletem no vocabulário usado, que, por sua vez, determina o modo como essas certas coisas são consideradas etc. etc.

Esses desfoques semânticos, como eu disse no artigo n.1, passam despercebidos quando só um dos campos entra em jogo de cada vez, mas, de novo, ao longo da conversa, o príncipe vai fazendo exigências e comentários, embaraçosos para aviadores e tradutores.  De que maneira os tradutores de língua portuguesa se safaram no caso dos ovinos? Só conheço a tradução de Dom Marcos Barbosa, e ele traduz bélier por bode. Mais uma vez, estaria resolvida a questão se… se não existisse o desenho, e se o desenho não mostrasse todas as curvinhas que representam a lã. E bode (que em francês, aliás, é bouc) não tem lã.

Depois de vários cafés, a tradutora precisa decidir.

As opções que passam pela sua cabeça já cansada são:

  1. Carneiro no começo, bode no fim
  2. Cordeiro no começo, carneiro no fim
  3. Cordeiro no começo, bode no fim

Pelo que se disse acima, são descartadas todas as opções que contenham “bode”, porque à tradutora em questão parece importante não discrepar do desenho. Excluídas as alternativas 1) e 3), resta a 2), que parece resolver o impasse. E resolveria se… se um terceiro desenho, sem chifres, não fosse recusado pelo príncipe porque o bicho parece velho demais, e ele quer um que viva ainda muito tempo. Ora, o cordeiro é o filhote do carneiro. Como dizer que um cordeiro é velho?

E é assim que, no último café, a tradutora opta por ovelha para traduzir mouton.

Fiquei sabendo, depois de publicado o livro, que a tradução italiana de Nini Bompiani Bregoli usa pecora (ovelha) para mouton[2]. O italiano tem pecora, agnello e ariete/montone, e agnello é cordeiro, nunca é velho. Aliás, a tradução italiana optou por ariete para bélier, o que é de dar água na boca, convenhamos.

A opção “ovelha”, se tem a vantagem de criar um bom contraste entre o primeiro bicho do texto e o segundo, tem a desvantagem de introduzir um ser feminino onde havia um masculino. E isso sempre tem consequências. Mas falarei a respeito desse aspecto no próximo artigo.

Concluo dizendo que o contexto é sempre uma rede de malhas sensíveis: você estica uma delas, e o tecido todo se mexe. O sentido geral de um texto nasce das interações desse conjunto de malhas e da maneira como o leitor as percebe. Se, numa tradução, essas interações forem muito diferentes das do original, o sentido geral colhido pelos leitores do texto traduzido poderá ser diferente do sentido colhido pelos leitores da língua original, e isso é justamente o que os tradutores não desejariam que acontecesse. Mas nem sempre é totalmente evitável.

[1] Hjelmslev, La stratification, pp. 175-176, apud Georges Mounin, Les problèmes théoriques de la traduction, Gallimard, Paris, 1963, p. 46.

[2] Agradeço a gentileza de Abdalan da Gama, que desencavou essa preciosidade que se encontra aqui: http://www.nuoviebook.com/wp-content/uploads/2014/03/1516953417.pdf

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