O espectro do recato

charcot03Comecei a pensar neste texto uns anos atrás. Como se vê, resisto a escrever crônicas.

Aos fatos.

Foi no Theatro São Pedro, ao voltar da escapada ao banheiro, no intervalo entre o primeiro e o segundo ato do Barbeiro de Sevilha de Paisiello. Uns quinze minutos antes, chegando à porta da toalete, tinha deparado com uma fila de mulheres que me impedia de entrar. De onde parei, pude avistar lá dentro duas portas, duas privadas: uma se abria e fechava para saídas e entradas, a outra estava sempre aberta, sem que ninguém entrasse nem saísse. A fila só chegava até a primeira porta. Por que ninguém usa aquela? — perguntei. A mulher da minha frente na fila pôs a mão no queixo (gesto feminino para expressar consternação) e respondeu: — Você nem imagina como está aquilo.

Imaginei: sanitário entupido, merda até a borda, chão coberto de papel higiênico sujo, absorventes ensanguentados nos cestos e fora deles, um fedor indescritível. Agucei o olfato: nada, afora a mistura espúria de perfumes e desinfetante de pinho. Fiquei lá, contando os minutos, calculando se ia voltar em tempo para o início do segundo ato. A fila não andava e, entre batidas da única porta viva e barulhos de descarga, tive a impressão de distinguir algum ruído para além daquela porta aberta, parada… Alguém estava ali dentro? Sim, estava, mas eu só soube disso quando ela saiu: a faxineira. Saiu carregada de balde, rodo e pano, passou por nós muda, mas com cara de… de riso? Olhei intrigada para a cara dela durante todo o trajeto, esperando que ela dissesse algo do tipo: está tudo em ordem agora, podem usar. Mas ela não disse nada. Não deu à manada expectante o apito de partida. E, todas ficaram lá, na fila, como se a faxineira não tivesse passado, como se não houvesse uma porta de latrina aberta, como se ninguém estivesse de bexiga cheia, como se o espetáculo não fosse recomeçar. Ficaram lá, simplesmente ficaram. Na fila, umas cinco mulheres ainda na minha frente, resolvi furar. Fui até a porta aberta, disposta a enfrentar o apocalipse, se necessário. Olhei: tudo limpo e cheiroso como casa de tia. Sem entender muita coisa, fechei a porta, fiz xixi e, quando saí, anunciei à manada: — Está limpo. Por que não usam? Só então a primeira da fila teve coragem de avançar até lá, enquanto eu lavava as mãos. Nenhum comentário!

Voltei à poltrona pensando naquelas mulheres tolhidas. Muitas desse tipo eu conheci na vida. Por que eram assim? Por que eram tão amarradas, tão recatadas? Recato! Que palavra! Aí me lembrei de uma portuguesa dos meus tempos de adolescente. Por que me lembrei dela? Por ser o avesso daquelas mulheres? Porque foi a primeira manifestação pública de misoginia que vi na vida? Porque ela gostava de palavras como pudor e recato?

Eu tinha uns 15 anos, pegava todo dia no mesmo horário um ônibus que não existe mais para ir de Pinheiros ao Parque Dom Pedro. E todo dia no mesmo horário, ali na ponta superior da Rebouças, subia uma portuguesa gorda, saia justa cinza, birote e uma sacola sempre cheia. Subia estridulando seu sotaque, vociferando com quimeras, e assim ficava até descer no fim da Augusta. Não calava a boca um minuto, nem na hora de pagar. Do que falava? De mulheres. Ou melhor, de mulher, ser teórico, arquetípico. Mulher não serve para nada — era a sua grande mensagem. Mulher não devia existir. Se o mundo fosse feito só de homens tudo seria muito melhor. Mulher nunca é competente no que faz. Lugar de mulher é na cozinha. Mulher médica? Nem pensar, ela nunca consultaria. Mulher dirigindo? Desastre na certa. E, se citava casos policiais, a moral era sempre a mesma: mulher que prestasse, que tivesse pudor, que tivesse recato, não teria se metido naquela. Se é que tinha inquietações místicas, elas podiam se resumir ao seguinte: por que cargas d’água Deus teve aquela ideia de jerico quando se viu com uma costela na mão? E assim se repetia diariamente aquele monólogo misógino, aquela autoflagelação, tentativa desesperada de autoaniquilamento como mulher. Desde quando estaria fazendo de tudo para desintegrar a calcinha e o sutiã que usava ainda por baixo do paletó do recato agora grudado irremediavelmente ao seu corpo? Paletó no avesso, pois ela bradava recato sem o menor recato.

Os passageiros se entreolhavam rindo, ela não percebia, imersa que vivia naquele masoquismo autista. Eu tinha compaixão, quero dizer, padecia com ela, sentia por ela, embora não sentisse como ela, imaginando o que se escondia por trás daquela barba psíquica.

Foi assim que a figura do recato me levou de uma coisa a outra, como quem vira um tapete e descobre que no avesso as cores são as mesmas, invertidas. Recato é substantivo feminino. A toda moça “bem criada” um dia se impõe o recato. A ênfase com que se dá essa imposição vai determinar todo o seu comportamento sexual e social. Recato é sempre uma casca. Tem a forma unissex do paletó, que a mulher precisa usar por cima da calcinha e do sutiã. Depois de envergar o recato, a moça passa a ter com ele sempre uma relação difícil, mas em geral se adapta. Umas mais, outras menos. Quando ele é rígido e apertado demais, periga sair uma portuguesa do ônibus. Quando maleável, mas sempre irredutível, sai a mansa inepta. Também existe o extremo contrário, daquela que rasga o paletó no primeiro suor e sai pela vida inflando peitos e bunda até estourar.

As gerações posteriores à portuguesa do ônibus ficaram mais imunes a extremos como o dela. O chute na barraca que foram os movimentos libertários de 68, apesar de ter aberto o caminho para o vale-tudo, pelo menos aliviou em grande parte a tensão entre impulso sexual e recato repressor. Hoje, as mulheres que assumem o paletó do recato estão talvez menos confusas que as de antes, mas não menos confusas que as que o rasgam. Entre o desespero explícito das histéricas de Charcot e da portuguesa do ônibus, existe um amplo espectro de manifestações. Um dos mais banais se chama pusilanimidade.

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