O tradutor e o português

mapamundi01Este texto é transcrição de uma apresentação que fiz em 2002, a convite de Regina Alfarano e Adauri Brezolin, no auditório Mozart da UNIBERO, por ocasião do evento comemorativo do dia do tradutor e do lançamento do no. 11 da revista Tradução e comunicação. Aborda a repercussão da atual (não) formação profissional do tradutor sobre a sua proficiência em língua portuguesa, a necessidade de domínio dos diversos registros da sua língua para o bom exercício da profissão, o modo como o ensino de língua portuguesa tem sido encarado nos últimos tempos e a inserção do tradutor na realidade político-social através do uso que ele faz do seu idioma.

O texto original foi publicado na revista Tradução e comunicação, Centro Universitário Ibero-Americano, n. 12, 2003, pp. 35-45.
Nesta transcrição, inseri à direita comentários que me pareceram justificáveis em razão dos muitos anos transcorridos de então a esta data. Estão numerados em arábicos com colchetes. As notas de rodapé já existentes no original são introduzidas por romanos minúsculos.

O título da palestra parece piada. Uma das intenções, naturalmente, era que parecesse piada mesmo. Para chamar a atenção. A outra era, por meio de um título sucinto, pôr em foco os dois componentes de nosso tema: de um lado o profissional brasileiro [da tradução] e de outro o seu instrumento de trabalho, a língua portuguesa. Antes de mais nada informo que pretendo abordar aqui a tradução escrita, deixando de lado, por absoluta incompetência, tudo o que se refira à interpretação. Talvez até acabe, afinal, tratando de aspectos aplicáveis à interpretação, mas não quero considerar o assunto explicitamente para não correr o risco de falar de uma área que não é da minha alçada. Também quero esclarecer, preliminarmente, que alguns dos dados históricos expostos nesta palestra foram colhidos no belíssimo trabalho de dissertação de mestrado de nossa colega Lia Wyler, cuja publicação, segundo informação da autora, está programada para breve, pela Editora Rocco[1].

[1] O trabalho foi de fato publicado pela Rocco em 2003 com o título Línguas, poetas e bacharéis – Uma crônica da tradução no Brasil. Na época da palestra, Lia Wyler me cedeu gentilmente seus manuscritos.

Começo tentando analisar os vínculos que o tradutor mantém em geral com sua língua para em seguida tecer alguns comentários sobre os aspectos mais particulares da atividade do tradutor brasileiro. E parto de uma afirmação que beira o óbvio: os vínculos que existem entre o tradutor e a sua língua não encontram paralelos nos vínculos que os falantes comuns ou outros profissionais que escrevem mantêm com essa mesma língua. Por quê? Em primeiro lugar porque para o tradutor não são suficientes os instrumentos que normalmente bastam a um falante competente alfabetizado. Até aí continuo no domínio do óbvio: o falante comum não lida com duas línguas, só com uma. A relação que este último mantém com ela não sofre as interferências sofridas pelo tradutor. Em segundo lugar, a construção do texto traduzido depende de uma série de competências específicas, de detalhes técnicos dos quais faz parte a percepção das características do texto original e dos objetivos do texto final. São dados que não precisam ser levados em conta na criação de um original de própria lavra. Quais são as consequências dessas constatações?

O fato de precisar construir um texto em língua nacional a partir de um texto estrangeiro implica um embate entre dois sistemas linguísticos do qual a língua de chegada nem sempre sai ilesa[2]. Além disso, o fato de precisar levar em conta características de estilo e finalidade dos textos de partida e de chegada pressupõe que o tradutor nem sempre tem a oportunidade de optar por escrever em seu estilo pessoal, naquele que ele escolheria espontaneamente para expressar-se. Saber como e quando a língua de chegada está sendo lesada no embate com a língua estrangeira e reconhecer estilos e intenções no texto de partida para saber reproduzi-los no texto de chegada já são coisas que constituem material abundante de aprendizado de que grande parte dos tradutores atuantes no mercado não está munida, infelizmente. E por que não estão todos os tradutores munidos de tais ferramentas? Por razões complexas que envolvem a nossa filosofia de ensino, os conceitos que temos sobre a tradução, sobre a profissão de tradutor e sobre nossa própria língua. O tratamento dessas questões mereceria rios de tinta (como se dizia nos tempos da tinta), de tal modo que seu aprofundamento é incompatível com uma palestra deste tipo. Vou tentar esboçar algumas ideias.

Como disse acima, o tradutor é um profissional de quem não se espera uma escrita pessoal que contradiga a escrita do texto original[3]. Não deixa de ser um autor, mas cujo status autoral sofre injunções específicas que têm sido alvo de inúmeros estudos da teoria da tradução. De modo geral, ele é aquele indivíduo que compartilha com o escritor a responsabilidade pela autoria de um texto, mas um texto que ele precisa escrever em estilo alheio. Seja qual for a natureza desse texto — de um manual técnico a um tratado de filosofia, passando pela literatura de massas ou de elite —, o tradutor precisa sempre fazer as opções de um autor, levando em conta a autoria alheia. O tradutor precisa ser claro, sucinto e direto aqui, tortuoso, ambíguo e indireto ali, falar uma linguagem do futuro hoje e uma do passado amanhã. Precisa lançar mão da norma culta para atender ao cliente X, mas também poderá ver-se na situação de lançar mão do falar diário, solto e informal para atender às exigências do texto Y. Sua ferramenta, nesse vaivém, é a língua portuguesa, portuguesa na sua acepção mais ampla, portuguesa e não brasileira, pois a língua de que ele precisará potencialmente servir-se é composta por todas ou quase todas as variantes do universo lusófono. A não ser que ele renuncie expressamente à atenção ao original e ao traslado de variedades múltiplas e opte por reduzir tudo, os discursos de todas e quaisquer origens, a uma só variante linguística. Mas, ao fazer isso, ele estará caminhando na contramão de todas as tendências modernas da atual teoria da tradução[i].

[2] Percebe-se aí, de minha parte, a concepção, hoje já um tanto atenuada, de que todos os confrontos entre duas línguas, na tradução, redundam em prejuízos para a língua de chegada. Está claro que isso nem sempre ocorre,  mas é preciso ter em mente que o confronto entre duas línguas num texto traduzido nunca é só isso: é também um confronto de duas culturas, e uma delas pode ser — e frequentemente é — hegemônica em relação à outra. Mas essa ideia eu desenvolvo melhor a seguir.
[3] Hoje eu diria: de quem não se espera uma escrita tão pessoal que contradiga…

No entanto, será que o ensino oficial não especializado lhe oferece instrumentos para dar conta de tanta versatilidade? Nos últimos tempos, em decorrência de uma visão pedagógica imediatista, o ensino da nossa língua tem-se restringido cada vez mais a registros distantes daquilo que se convenciona chamar de “norma culta”[4]. Se antes ela era a base do ensino de língua no país, hoje, ao contrário, tende-se a alijá-la para segundo plano ou mesmo a rejeitá-la. As discussões sobre o seu ensino raramente se dão com a isenção de ânimo exigida por assunto tão delicado.

[4] Tenho abordado esse assunto em vários artigos, entre os quais esteeste outro e mais este 

Chegada a este ponto ressalto a miopia daqueles que advogam a primazia de um registro linguístico sobre qualquer outro. São tão míopes aqueles que apontam erros e acertos com base em conceitos da chamada “norma culta”, estigmatizando tudo o que não se enquadre nela, quanto aqueles que tentam impor à escola brasileira de primeiro e segundo graus a opção preferencial pelo coloquial, sem grandes aberturas de horizontes para a apreciação e a compreensão de formas menos usuais, que, no entanto, estão presentes em muitos dos textos que constituem a nossa tradição cultural. São tão míopes aqueles que esperam algum dia ajustar a fala diária ao leito de Procusto da gramática normativa quanto aqueles que querem levar para o texto científico, por exemplo, a soltura, a desenvoltura, o relaxamento do coloquial, que tem mais afinidade com a expressividade do que com a precisão, que tende mais à fluidez do poético do que à concisão do científico. Míopes são os dois, porque um só considera válido o registro escrito, achando que este deve moldar a fala de um povo, e o outro só dá valor ao uso oral[5], esquecendo-se de que uma cultura com a complexidade da nossa[6] nunca é feita apenas daquilo que fala ou escreve uma camada uniforme da população. Ainda que teoricamente afirmem o contrário, na prática a atuação de ambos é unilateral. Ambos se esquecem frequentemente da interação dialética entre oral e escrito, e, enquanto uns trafegam só na mão do escrito normativo para o oral considerado incorreto, os outros transitam na contramão, na rota de colisão, deixando de levar em conta que nas interações dialéticas o tráfego nunca se dá numa só direção. É tão míope o normativo que tacha de incorreto o uso que foge aos seus axiomas quanto aquele que, afirmando-se descritivo, luta por implantar o coloquial no culto: ambos são totalitários, pois não conseguem enxergar a riqueza da diversidade.

[5] Ou intuitivo, como dizem alguns.
[6] Aqui me refiro à cultura ocidental.

Nenhuma nação é feita de uniformidade. Todas são feitas de diferenças. Algumas mais que outras, mas a diferença é a única regra que não tem exceção. Aquilo que chamam de esquizofrenia da realidade linguística brasileira, ou seja, o fato de se falar de um modo e de se escrever de outro, em primeiro lugar não passa de reflexo da nossa realidade social e, em segundo, não é uma peculiaridade nossa. Esquizofrênicas, nesse sentido, são todas as línguas. Nós, tradutores, sabemos disso. É inglória a luta de qualquer um que espere a uniformização. Assim como é inútil tentar atuar sobre a língua apenas a partir da língua. Porque num país com tanta diversidade social como o nosso e com a nossa grandeza territorial a uniformidade linguística é não só impossível como até indesejável. Quem não quiser a discriminação ou a enorme distância que vai do uso popular considerado inculto à chamada norma culta precisará esperar que este país tenha menor desigualdade social, maior igualdade de oportunidades educacionais, maior uniformidade de competências. Pois se cada camada social tem o seu falar e se os falares são tão discrepantes, significa que são grandes as discrepâncias culturais entre as camadas sociais. Enquanto essas discrepâncias não se atenuam precisamos aceitar as diferenças sem tentar a imposição de uma variável à outra[ii].

O tradutor é aquele que sabe disso melhor que ninguém. Porque o tradutor é aquele indivíduo que lida com diferenças todos os dias. Negar ao brasileiro o conhecimento, o domínio e a aceitação de todos os registros da língua portuguesa significa negar-lhe a oportunidade de um dia ser criativo no linguajar que lhe impuser a sua profissão, negar-lhe o direito de optar, negar-lhe o direito de ser versátil, negar-lhe o direito de ser tradutor.

É geral o descontentamento, em vários setores da nossa vida cultural, com a má qualidade dos textos produzidos por jovens estudantes e mesmo por profissionais formados. Alguns atribuem essa má qualidade à inobservância de regras gramaticais simples, ao relaxamento geral do poder coercitivo de uma pretensa autoridade gramatical, enquanto outros atribuem o fenômeno justamente à primazia da visão gramaticista, ou “gramatiqueira”, como gostam de dizer. Como é possível que o mesmo fenômeno seja provocado por duas causas opostas ao mesmo tempo? Em outras palavras, como é possível que essas duas causas opostas convivam como dois corpos a ocuparem o mesmo lugar no espaço, produzindo um mesmo fenômeno? Como é possível que a falta de desenvoltura no escrever seja simultaneamente resultado de um ensino em que falta gramática e de um ensino cm que sobra gramática? Diante de tanta perplexidade quem conhece de perto a nossa escola de primeiro e segundo graus sabe que a realidade não se resume a nenhum desses dois polos. O que vivemos é uma crise cultural generalizada, cujos efeitos se fazem sentir em todos os níveis da vida social. Tateiam no escuro aqueles que buscam no desprestígio ou na primazia da gramática a causa da estranheza entre o falante e a sua língua no ato de escrever. O fato é que, por uma série de injunções políticas, econômicas e sociais, as nossas escolas de primeiro e segundo graus não estão cumprindo a contento o seu papel de formação e informação. Essa carência não se faz sentir apenas no campo linguístico, e, enquanto se digladiam, gramaticistas e antigramatiqueiros esquecem-se de atentar para o quadro escolar como um todo. A língua escrita é apenas uma das manifestações mais conspícuas de sua realidade; existem outras que não aparecem tanto, mas que solapam a nossa vida como nação, sem o poder de despertar paixões tanto quanto as questões linguísticas[7].

[7] Citei então e ressalto agora a carência com que os pesquisadores científicos lutam desde sempre neste país.

Como uma atividade tão complexa quanto a tradução pode ficar à mercê desses desatinos? Não será por acaso que cresce a cada dia o interesse por cursos de especialização em tradução, crescimento não só proporcional ao aumento no número de tradutores atuantes no mercado como também ao aumento da consciência da complexidade de uma profissão que não pode depender da precariedade cada vez maior do ensino ministrado em nossas escolas comuns. A par desses fatores não podemos esquecer que o próprio caráter da profissão tem mudado. Depois dos percalços da tradução no Brasil colônia, cm que a tecnologia, quando entrava, não entrava em português, em virtude das próprias características político-culturais do país que nos colonizava, só na segunda metade do século XIX começam a surgir os primeiros tradutores que poderiam ser qualificados de “profissionais”, ou seja, aqueles que ganhavam pelo que traduziam. Mesmo assim, tais tradutores exerciam em geral profissões liberais ou eram políticos, padres ou militares, além de escritores. Temos, portanto, vivido desde sempre o paradoxo de precisar traduzir muito, mas de contar sobretudo com amadores para a tarefa. É só no século XX, com o crescimento vertiginoso da demanda por traduções técnicas, que se acentua a procura por tradutores especializados. Ainda assim, nossa sociedade continua achando que a tarefa de tradutor pode ser desempenhada por pessoas sem especialização. Ultimamente, por máquinas. Não me deterei nos detalhes dessa evolução. Limito-me a constatar que hoje, quando a função de armazenamento de bancos terminológicos é confiada à máquina e não mais a cérebros humanos, como ocorreu até a década de 80, o que deve ocorrer, obrigatoriamente, é um deslocamento, um deslizamento na valorização das tarefas. Abre-se um campo de luta renhida. Hoje o tradutor precisa impor-se pelos conhecimentos profundos que tenha em sua área de atuação e por sua consequente capacidade de construir enunciados coerentes graças à habilidade inerente ao cérebro humano de traduzir o discurso, não a palavra nem a frase. Precisando competir com a máquina, ele deve mostrar todas as suas virtudes humanas. Entre elas, está a versatilidade em sua língua.

A par disso tudo, em termos puramente terminológicos, a invasão lexical acarretada pela globalização e pela aceleração dos progressos tecnológicos está sempre a exigir o processamento de termos: traduzir, incorporar ou adaptar? O que implica essa tarefa? Implica no mínimo o domínio de vasto repertório lexical e a capacidade de distinção dos elementos de derivação das palavras (radicais e afixos). Cada vez mais parece impróprio esperar do tradutor a capacidade de resolver sozinho esse tipo de problema com o instrumental que lhe é dado pelo ensino oficial. Enquanto isso, os nossos teóricos da língua, salvo raras exceções, não consideram importante exercer nenhum tipo de influência racionalizadora sobre o processo de importação terminológica. Percebam que aqui não estou falando em controle, mas em racionalização. Porque neste país, enquanto uns falam em proibições, outros falam em relaxamento absoluto. Poucos entendem quer a inutilidade da rigidez do controle legal, quer a irresponsabilidade da falta total de controle. Mais uma vez, aqueles que tentam uma posição equilibrada correm o risco de ser discriminados por qualquer um dos defensores intransigentes de um dos polos opostos. Os que defendem a validade do controle legal rígido alegam que a língua portuguesa está em perigo; os que se negam a qualquer intervenção racionalizadora afirmam que a língua não corre perigo e que, ao contrário, a entrada de termos só pode ser enriquecedora. Ambas as afirmações me parecem discutíveis. Em primeiro lugar, em minha opinião, a língua portuguesa, como tal, de fato não corre perigo, por enquanto pelo menos. Mas não pelas razões alegadas pelos que acreditam no enriquecimento indubitável do empréstimo. Estes costumam citar um exemplo histórico; dizem que, se ela sobreviveu à influência francesa, é capaz de sobreviver à influência da língua inglesa. Não acredito na aplicação automática de exemplos históricos, como, aliás, não acredita nisso ninguém que tenha uma convivência mínima com estudos de história. Contra argumentos históricos desse tipo é possível responder com outros, dizendo, por exemplo, que o gaulês e o celta não sobreviveram ao latim. Por outro lado, todos sabem que o grego sobreviveu. Portanto, é possível sobreviver ou deixar de sobreviver à influência da língua de uma nação hegemônica. O que determina o desfecho? Talvez fatores como o grau e o tipo de intervenção estrangeira e, sobretudo, a realidade cultural encontrada no local da intervenção. São muitos os dados conjunturais a influírem nesse tipo de processo, mas ninguém os leva em conta na ânsia de tirar exemplos históricos do bolso do colete para com eles justificar o que lhes dita sua ideologia. O que distinguia o grego do celta ou do gaulês, a ponto de determinar a sua sobrevivência e o desaparecimento dos outros?[iii] O que caracteriza o português a ponto de nos levar a acreditar que ele não corre risco de desaparecer? Sem a intenção de ser original, respondo que uma língua é reflexo da cultura que a sustenta. É bom, portanto, observar o nosso caldo cultural antes de dar respostas categóricas.

Acho mais realista falar em perdas e ganhos, e nessa questão de perdas e ganhos nós, tradutores, somos todos mestres. O empréstimo puro e simples de palavras não significará enriquecimento sempre que implicar o alijamento ou esquecimento de termos já existentes com o mesmo significado. Nesse caso o que se tem é, na melhor das hipóteses, um acúmulo. Enriquecimento só ocorre quando há preenchimento de lacunas. Ora, muitas vezes o que se acredita ser lacuna não passa de despercebimento da presença de uma palavra para designar aquele mesmo fato ou coisa. Esse fenômeno de distração tem sido cada vez mais frequente, e o que se acredita ser enriquecimento acaba sendo acumulação. Não procurarei aqui analisar suas causas. Quem fala de influência estrangeira costuma ater-se ao aspecto lexical, que é o mais fácil de detectar. Tem despertado pouco interesse dos estudiosos do assunto a influência da língua inglesa no âmbito sintático da língua portuguesa. Por quê? Por um lado, porque pouca gente se aventura no emaranhado da sintaxe; por outro, porque os que conhecem o assunto afirmam, com base em pressupostos teóricos — sempre! —, que o âmbito sintático é o mais resistente às influências estrangeiras. É verdade, desde que consideremos o falante comum que tenha contatos esporádicos com a sintaxe estrangeira. As influências sintáticas começam a fazer-se sentir quando o falante tem contato intenso com a língua estrangeira. Como ocorre com o tradutor, por exemplo.

Considerando o grande número de traduções que hoje circulam por nossa sociedade, reflexo da nossa dependência tecnológica e científica, não é de se desprezar a possível influência que os cacoetes sintáticos transmitidos pelos tradutores possam exercer sobre o restante dos falantes. No aspecto sintático, ao contrário do lexical, é indiscutível o caráter empobrecedor da influência do inglês. No português as flexões são exuberantes, redundantes até. Quanto mais acentuada a riqueza flexional, maior a flexibilidade sintática de uma língua. Não temos posição obrigatória para o sujeito, para os advérbios ou adjuntos adverbiais; quem quiser pôr um objeto direto em posição de destaque antes do verbo tem inteira liberdade de fazê-lo. A língua portuguesa é uma das poucas que permite quase absoluta liberdade de colocação pronominal (mas há quem faça disso uma questão vital!). Não somos obrigados a elucidar o sujeito a cada oração, pois a riqueza das flexões verbais nos permite adivinhá-lo mesmo quando “escondido”. E, se não quisermos repeti-lo podemos substituí-lo por um pronome, e todos entenderão. Inverta-se isso e tem-se a língua inglesa. A questão do sujeito, em particular, merece destaque. A possibilidade de tradução da voz passiva inglesa, que é sempre analítica, constituída por um verbo auxiliar mais um particípio, por dois tipos de voz passiva em português, a analítica e a de tipo pronominal, muitas vezes não é levada em conta porque não se conhecem as virtudes da voz passiva pronominal, que acabo de usar, mas que hoje faz parte quase exclusivamente do tão vilipendiado registro culto. As diferenças são tais entre as duas línguas que a prosa inglesa, quando traduzida sem certos remanejamentos sintáticos, rende uma leitura insuportável cm português. De tal modo que os chamados textos “com sotaque” não são aqueles que adotam empréstimos lexicais, mas sim aqueles em que o tradutor se esquece da sua sintaxe, contaminado pela sintaxe de partida. São cada vez mais frequentes esses textos, a impregnarem a literatura técnica e científica que constitui a base obrigatória de leitura de grande parcela de estudantes e profissionais, moldando aos poucos um modo de escrever que, à força de se repetir, entra a fazer parte do modo de falar. Seria interessante que os estudiosos se debruçassem sobre esse assunto e percebessem até que ponto o tipo de empobrecimento imposto pelo embate, para não dizer entrevero, entre o inglês e o português no texto traduzido consegue extrapolar o âmbito da página da literatura de especialidade e entrar para a linguagem jornalística e os falares cotidianos, engessando muitas vezes o que é feito para fluir com liberdade. O tradutor precisa estar consciente de que a pequena parcela daquilo que produz diariamente em seu trabalho vai somar-se à grande massa de textos traduzidos que constitui hoje a fonte de informação dos nossos leitores comuns. Ao tradutor incumbe a tarefa de atentar para aquilo que a língua portuguesa tem de mais rico, de firmar seus conhecimentos estruturais dessa língua e conhecer seus aspectos de contraste com a língua inglesa, para saber escolher seus melhores instrumentos na construção do seu discurso, ou melhor, de seus discursos; discursos que, leais para com os textos de origem, nunca deixem de ser fiéis ao verdadeiro espírito da língua portuguesa. Conhecer bem a gramática de uma língua não significa fazer relações de “certo” e “errado”, como levam a crer os manuais de redação, mas saber explorar os seus recursos e até subvertê-los quando pertinente e necessário. É preciso ter os olhos voltados para as cores do estrangeiro, sem perder de vista os matizes de nossa língua. Saber falar brasileiro em todos os dialetos e registros, ao mesmo tempo que se conhece e respeita o universo lusófono no qual estamos inseridos. Ser, enfim, um dos esteios da construção ou da reconstrução desta cultura que tanto sofre nestes tempos de obscurantismo guerreiro e de política corrupta, tempos em que a cultura é vista como artigo de luxo. Tempos de um progresso tecnológico jamais visto e de uma capacidade de destruição jamais imaginada. É nestes tempos e neste universo que está incrustada a nossa nação, e nós nela. A parcela que compete ao tradutor em sua construção não pode ser menosprezada nem esquecida. Que cada um de nós se sinta sujeito ativo de resistência a estes tempos conturbados, e não joguete de seus desvarios.

[i] Refiro-me aqui mais especificamente aos estudos de tradução literária que defendem a análise meticulosa do texto de partida para a transmissão mais fiel possível de seu conteúdo, dando ênfase especial às características formais. Evidentemente, a busca da transmissão das características formais dos textos implica, entre outras coisas, domínio de vários registros de língua (alguns dos exemplos típicos seriam a tradução de textos antigos, a tradução do regional, do informal etc.).

[ii] E aqui parece pertinente acrescentar um trecho colhido em STEINER, G. (After Babel, Oxford University Press, 3a. ed., Oxford, p. 33 [a tradução do trecho é minha]) em que esse autor, depois de enumerar várias linguagens de castas, línguas iniciáticas etc., diz: “Muito mais importantes e difundidos são os usos de inflexões, estruturas gramaticais e escolhas lexicais pelas diferentes classes sociais e grupos étnicos para afirmarem suas respectivas identidades e enfrentar-se mutuamente. Pode ser que as funções agonísticas da fala dentro de uma comunidade econômica e socialmente dividida pesem mais do que as funções de genuína comunicação [grifo meu]. Como veremos neste estudo, as línguas talvez ocultem e interiorizem mais do que transmitem e externam. As classes sociais, os guetos raciais falam uns para os outros mais do que uns com os outros.” E, adiante (p. 34): “Onde não há verdadeira afinidade de interesses, onde as relações de poder determinam as condições de contato, o intercâmbio linguístico transforma-se em duelo”. Um duelo peculiar em que cada uma das partes procura impor-se à outra com o uso da língua como arma e, vencendo, impor à outra essa sua arma. Visão idealista, portanto, é a de qualquer um que queira igualar aquilo que foi feito para distinguir, transformando em norma aquilo que foi feito para transgredir.

[iii] No caso do gaulês, cito aqui algumas observações contidas em BRUNEAU, Cb., Petite histoire de la langue française, Librairie Armand Colin, 3ª. ed., Paris, 1962 [tradução minha dos trechos citados]: “A Gália, região fértil, era ocupada por uma população numerosa. Essa população, quase exclusivamente rural [grifo meu], vivia em cabanas redondas, feitas de varas unidas com argila; eram cobertas por um teto de colmo. […] A sociedade, como nos outros povos de língua indo-europeia, era essencialmente aristocrática [grifo meu]. Assim como na Grécia e em Roma, as aristocracias gaulesas tinham suprimido a realeza. […] Conhecemos mal o gaulês: não subsistiu nenhum texto religioso ou literário, e as inscrições são raríssimas”. (pp. 7-8). E adiante, falando da conquista romana: “Rivais ou mesmo inimigos uns dos outros, os ‘povo’ gauleses, aliás dilacerados internamente por facções, não parecem, salvo exceção, por influência de Vercingétorix, ter possuído aquilo que se poderia chamar de ‘patriotismo’ gaulês. […] A assimilação da aristocracia gaulesa foi rápida e completa; Plínio, o jovem, espantava-se ao encontrar as livrarias de Lyon tão bem abastecidas de ‘livros’ quanto as de Roma […]. É que os nobres gauleses podiam ter acesso às funções mais elevadas; um edito de Caracala (188-217) deu a todos os gauleses livres o título de cidadão romano. O latim, língua ‘superior’, devia impor-se ao gaulês, considerada falar de camponeses” [grifo meu] pp. 9-10. Algumas lições talvez possam ser extraídas desses dados: a região onde vive um povo de camponeses dominado por uma aristocracia dispersa, sem poder central e dilacerada por lutas internas, é dominada por uma potência cultural, militar e politicamente superior. Sua cultura, basicamente oral, não parece ter condições de ombrear com a cultura do invasor. A classe dominante “anexa-se” ao invasor, desprezando sua própria língua em favor da outra (“passa a falar latim com os amigos e gaulês com os domésticos”, p. 10). Ou seja: na tensão que opunha as duas línguas, foi abafada aquela que tinha atrás de si menos lastro cultural, menos coesão de classes, menos orgulho “nacional”.

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