A personagem NÚMERO ZERO de Umberto Eco

umberto eco

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ENTREVISTA DE UMA PERSONAGEM POR UMA TRADUTORA

ou Diálogo de uma invisibilidade com uma ficção, em que a primeira arranca à segunda informações que esta não quer dar sobre as citações do livro Número Zero de Umberto Eco

Simei, uma das personagens centrais de Número zero, é a síntese da ausência de grandeza. Simei não é herói nem anti-herói porque no mundo dele essa palavra não tem significado, e o mundo dele é o mundo real, no sentido mais rasteiro da expressão “mundo real”. Simei é uma daquelas personagens que pesam no estômago do autor e precisam ser expelidas antes que o matem, como aconteceu ao oficial Kane na fábula cinematográfica Alien.

Mas essa  indigestão nunca fica sem vingança. A primeira vingança do autor é expor a personagem nua ao leitor, com todas as suas fraquezas. E como se mostra nua uma personagem? Deixando-a falar. Sem nunca dizer o que ela é, o autor permite que ela o diga, mesmo quando diz que é o contrário do que é. Simei fala, e em cada frase exibe sua sensatez pusilânime e sua ousadia anêmica, como os músculos flácidos e a pele descorada dos prisioneiros de Agesilau. E assim já começo com uma citação a falar de citações. Porque este artigo tem a finalidade de comentar as citações, muitas, que há nesse livro. Faço então um parêntese para dizer que Agesilau era um general espartano que mandava arrancar a roupa dos persas aprisionados e os exibia nus a seus soldados, para que estes perdessem o medo diante daqueles corpos branquelos e fracotes, sem a indumentária do poder. Fecho o parêntese e continuo.

Mas há outra vingança, mais sutil. Qual? Simei é posto num ninho, num nicho dentro do meio que mais despreza: em pleno ventre da literatura. O ardil de Umberto Eco se desenrola da seguinte maneira: Simei contrata Colonna (o narrador em 1ª. pessoa) para escrever um livro que será a descrição dos fatos ocorridos dentro do ambiente da redação de um jornal que não vai ser publicado (os motivos disso convido o leitor a buscar no livro); mas o autor do livro que Colonna escreveria seria Simei, sendo Colonna seu ghost-writer. Na trama, o livro não sai; na vida real temos um livro, Número zero, que conta as mesmas peripécias, mas de um viés contrário ao desejado por Simei. Esse livro não tem na capa o nome de Simei nem de Colonna, mas de Umberto Eco. Simei, de autor, vira personagem; Colonna, de ghost-writer passa a narrador, portanto algo muito próximo de autor.

Quando percebi o imenso número de citações e alusões que atravessam todo o livro, pensei no que diria Simei quando soubesse que seus conceitos estavam em xeque-mate, num jogo de que ele participa, mas cujas regras rejeita. Porque durante o tempo todo ele lembra a Colonna, seu ghost-writer e redator, que não quer citações, e o próprio Colonna condena o costume de citar e aludir como prática da má literatura. E o exemplo que ele apresenta, para rejeitar, é o de Grabriele d’Annunzio. É Eco se autoironizando quando faz Colonna desistir de escrever literatura por não conseguir deixar de citar?

Na mania que me persegue de esclarecer citações e alusões, não quis perder essa oportunidade. Notas de rodapé? Nem pensar. Então, num surto de sadismo, imaginei uma entrevista com Simei, para ir arrancando dele, justamente, as informações sobre essas coisas que ele detestava, porque Simei sabe, Simei é sabido, muito mais sabido do que Colonna desconfia, e aí está a manha de Eco. Mas Simei, cujos horizontes se encerram no ano de 1992, acha que o livro que conta a sua vida é obra de Colonna. E quem é Eco? Eco é pseudônimo — segredou-me Simei antes da entrevista.

Passo então à minha entrevista. Antes esclareço o seguinte: o que está entre colchetes no meio da fala de Simei foi introduzido por mim posteriormente à entrevista, como elucidação. Também entre colchetes vão os números das páginas do livro a que se referem as informações.

Eu: Colonna fica um tempão tentando entender como seu registro de água se fechou, se não havia ninguém no apartamento. Pensa um monte de bobagens e a certa altura [p. 12] diz que não tem nenhuma chaminé, por onde pudesse entrar o orangotango da rua Morgue. Do que ele está falando?

Simei: Colonna devia era fazer um curso de encanador, em vez de ficar citando livros. No caso, Os Assassinatos da rua Morgue de Edgard Allan Poe. E que fixação por esse americano! Logo depois [p. 13] volta a ele, mencionando uma tal “carta roubada”. Não existe carta roubada na história do meu jornal, só na do americano. Ele quer dizer que no conto A carta roubada ninguém conseguia achar uma carta porque ela, justamente, estava debaixo do nariz de todos. O que, afinal, ele quis dizer com isso?

Eu: Um pouco adiante [p. 16], falando de um professor de alemão, ele diz que todos esperavam que ele se sentasse e começasse com “chamem-me Ismael”…

Simei: Outra alusão: dessa vez o romance é Moby-Dick e é com essa frase que o romance começa. Dizem que é o início mais surpreendente que existe. Pode ser. Coisas de escritores. E o Colonna estava tão crente que era escritor, que queria ser escritor até quando era tradutor…

Eu: Conheço gente assim.

Simei: …como diz ele [p. 18]: “eu vertia em dolce stil novo uma obra em três volumes sobre o papel de Friedrich List na criação do Zollverein, a União Alfandegária Alemã”. Veja se pode. Dolce stil novo… Você sabe o que é?

Eu: Mais ou menos, mas explique.

Simei: É o estilo poético do século XIII. Exagero ele dizer que usava esse estilo para traduzir um texto comercial, mas alguma verdade deve haver nisso. Isso sem dizer que Georg Friedrich List foi um economista do século XIX, partidário do protecionismo.

Eu: Você entende de economia?

Simei: Não muito, mas meus leitores não entendem nada, e eu acho que a gente não deve ficar falando do que eles não entendem. Porque o leitor se sente magoado, inferiorizado, quando você usa palavras que ele não conhece ou fala de gente que não aparece na tela de tevê dele. Essa é minha opinião.

Eu: Entendo. Você conhece Paolo Villaggio, que ele cita logo em seguida [p.20]?

Simei: Conheço, mas não sei se os leitores do meu jornal conhecem. É humorista, ator, escritor. Paolo Villaggio falou em cultura monstruosa, que é justamente aquela que se mostra quando se diz que Paolo Villaggio falou de cultura monstruosa. Percebe? É o que Colonna faz. Diz que algumas pessoas (e o tradutor é uma dessas pessoas) acabam adquirindo uma cultura monstruosa. E com isso prova que é um perdedor. Por quê? Porque, diz ele, “Os perdedores, assim como os autodidatas, sempre têm conhecimentos mais vastos que os vencedores, e quem quiser vencer deverá saber uma única coisa e não perder tempo sabendo todas”. Veja que no fundo ele concorda com o que eu sempre pensei…

Eu: Num só parágrafo [pp. 21 e 22] Colonna cita Chandler, Spillane, Canaletto, d’Annunzio, Thomas Lawrence, Moreau. Você poderia resumir para os meus leitores?

Simei: Me poupe dos outros, quero falar só de d’Annunzio. Grabriele d’Annunzio meus leitores todos conhecem, pelo menos de nome, não sei se os seus. Nasceu em 1863 e morreu em 1938, só um ano antes do começo da guerra. Foi escritor, poeta, dramaturgo, piloto e político. Liderou exércitos voluntários, tomou a cidade de Fiume [hoje na Croácia com o nome de Rijeka], declarou-a Estado independente, fez alianças com vários grupos separatistas nos Balcãs, chegou a declarar guerra à Itália, que bombardeou a cidade e o forçou à rendição. Depois disso resolveu parar com aventuras e ficou escrevendo. Mussolini o adorava. Se não tivesse morrido antes da guerra, imagine o que teria feito na guerra! Colonna diz que ele era mau escritor. Que absurdo!  Intrigas ideológicas. Mas vamos em frente, porque, se eu começar a falar dos livros de d’Annunzio, não paro mais.

[Faço aqui então um resumo dos autores que Simei não quis comentar: Chandler  é Raymond Chandler; nasceu em 1888 e morreu em 1959. Spillane é Franck Morrison Spillane, que nasceu em 1918 e morreu em 2006. Canaletto era um pintor do século XVIII que adorava pintar paisagens. Nome completo: Giovanni Antonio Canal. Thomas Lawrence era um retratista inglês do século XIX. E Moreau era Gustave, pintor francês; nasceu em 1826 e morreu em 1898. O fidalgo desconhecido, citado no fim do parágrafo, é um quadro de Bartolomeo Veneto, do século XVI. Em italiano se chama Ritratto di gentiluomo. Mas não se sabe quem foi o modelo.]

Eu: O que você achou daquela frase irônica [p. 29] que Colonna lhe diz, introduzindo uma citação: “Tudo bem, já que nós dois somos homens sem qualidades, desculpe a citação, aceito o pacto”?

Simei: O homem sem qualidades é um romance de Robert Musil. Um romance filosófico, ainda por cima. Mas eu, que não levo desaforo pra casa, respondi com outra ironia: “Gosto de tratar com gente leal que diz o que tem no coração.” Não foi bem respondido?

Eu: É, achei espirituoso. Continuando… Eu ousaria dizer que há um jornalista em sua equipe que é uma citação personificada: Braggadocio. Estou certa ou errada?

Simei: Parece mesmo uma fatalidade. Braggadocio! No século XVI, um inglês chamado Edmund Spencer escreveu um poema com o título The Faerie Queene. Braggadocio é o nome de um dos personagens desse poema. O nome entrou na língua inglesa com o sentido de fanfarronice. Entenda como quiser.

Eu: Ele cita Ficarotta como um nome com significado, digamos, complicado…

Simei: Ah, me poupe. Não vou traduzir isso para uma senhora.

Eu: Ok. Deixa pra lá. A certa altura [p.34] Colonna diz que aquela redação parecia uma ponte de San Luís Rey.

Simei: Outra citação literária. The Bridge of San Luis Rey é um romance de Thornton Wilder [1897-1975]. Até gosto dele, viu. Essa citação não me desagradou, se é que eu consegui reunir uma ponte de San Luis Rey, como diz Colonna. O que acontece com essa ponte? Ela cai. Cai no Peru e cinco pessoas morrem. Um frade resolve escrever a vida dessas cinco pessoas para provar que os desígnios de Deus se fizeram sentir no destino de cada uma delas, embora fossem pessoas tão diferentes. Elucubrações religiosas à parte, o romance é bom. Aliás, esse mesmo autor escreveu uma obra chamada Idos de março, veja só, aqueles mesmos idos que vão e voltam o tempo todo no livro de Colonna. Refere-se ao assassinato de Júlio César. Mas vamos em frente e deixemos de alusões.

Eu: Quem era von Stroheim? [p. 37]

Simei: Erich von Stroheim [1885 –1957] era austríaco, mas atuou nos Estados Unidos. Diretor e ator de cinema. Começou no cinema mudo e foi em frente. A cara dele, inesquecível mesmo, é do personagem Max von Mayerling em Viale del tramonto, que eu vi dez vezes, em inglês Sunset Boulevard, é isso? Como foi o nome do filme no seu país?

Eu: Crepúsculo dos deuses.

Simei: Ah… bacana… Logo depois Colonna fala de Telly Savalas, o tenente Kojak. Esse aí seus leitores sabem quem é, não?

Eu: Acredito que sim. Podemos seguir em frente. Você gostaria de falar sobre Lombroso? [p. 39]

Simei: Claro, Cesare Lombroso [1835-1909], grande italiano que revolucionou a criminologia. Acreditava que as tendências criminosas podiam ser detectadas pela observação de certos traços físicos. Fui grande leitor de Lombroso.

Eu: Mas a teoria dele hoje está bem desacreditada…

Simei: Está, mas não deveria porque eu acho que…

Eu: Desculpe interromper, mas nosso tempo é curto. Posso passar adiante? Quais são as sete irmãs do petróleo que assassinaram Mattei [p.49]?

Simei: Isso quem diz é Braggadocio, quero dizer, que Enrico Mattei [1906-1962] foi assassinado a mando das sete irmãs do petróleo [cartel formado por Esso, Texaco, Socony, Socal, Shell e Amoco (atual BP)]. Na verdade, ele incomodava muita gente, querendo tornar a Itália autossuficiente em petróleo. Todo mundo sabe que: em vez de dissolver a Agip [empresa petrolífera criada pelo governo fascista], ele a fortaleceu; que interferiu nos negócios da França na Argélia [um dos suspeitos do assassinato é o serviço secreto francês]; que fazia negócios diretamente com a União Soviética e países do Oriente Médio, passando por cima dos interesses americanos e das tais sete irmãs; que a máfia não gostava dele etc. etc. Todos esses grupos pareceram suspeitos a quem acreditava na tese de assassinato. As sete irmãs também não gostavam dele, claro, mas a afirmação de Braggadocio é apressada. Para começar, ninguém provou que a morte dele não foi acidental. [Simei, que viveu em 1992, não sabe que de 1994 a 1997 o caso foi novamente investigado depois das revelações de Tommaso Buscetta, segundo o qual a máfia americana teria tratado de matar Mattei, que estava interferindo nos negócios americanos no Oriente Médio. Ficou então comprovado que o avião de Mattei não sucumbiu a uma tempestade, mas foi destruído por uma bomba. A entrevistadora preferiu não levar adiante a discussão.]

Eu: O que é aquele Gran San Bernardo que o pessoal cita naquela brincadeira na redação [p.66]?

Simei: É um vale nos Alpes, situado na fronteira da Itália com a Suíça. Naquele dia precisei interferir para acabar com aquela brincadeira, dizendo: “Isso é coisa de estudante universitário. Estão esquecendo que o nosso leitor não é nenhum intelectual que leu os surrealistas, que faziam — como era mesmo? — cadáveres esquisitos.” [p. 67]

Eu: É verdade, Simei. Essa dos cadáveres esquisitos é boa.

Simei: Mas parece que esquisito em português tem significado diferente do francês exquis e do italiano squisito, que significa refinado e também bom, saboroso. A expressão original é do francês, cadavres exquis

Eu: Bravo, Simei. É isso mesmo. Em português esquisito é o fora do normal, o estranho. Embora exista o sentido de refinado, esse uso não é nada frequente.

Simei: Então deve ter ficado bem esquisito em português [nós dois rimos]. O cadavre exquis era um jogo que os surrealistas faziam: várias pessoas compunham uma frase, cada uma colaborava por vez, sem saber o que as outras haviam escrito. Depois abriam o papel e liam a frase que tinha sido formada. Mas precisavam seguir a ordem sujeito-verbo-predicado para dar certo. A primeira frase que se formou foi Le cadavre – exquis – boira – le vin – nouveau, quer dizer, o cadáver refinado/esquisito beberá o vinho novo.

Eu: É engraçado que eles se achavam criativos no método de escrita, mas para sair alguma coisa com sentido precisaram engessar a gramática. Mas, voltando às alusões, você se saiu com aquela de prefeito de Bengodi [p. 74]. Quer explicar o que é isso?

Simei: É uma expressão conhecida na Itália. Seria uma terra de delícias. Bengodi é formado de ben + godi, que ao pé da letra significaria “bem gozas”. Evidentemente, esse lugar não existe. É velho isso. Boccaccio já fala de Bengodi no Decameron.

Eu: E Battipaglia [p. 97]?

Simei: Battipaglia existe. É uma cidadezinha do sul da Itália, tremendamente bombardeada pelos americanos em 1943. Houve uma revolta da população lá, em 1969, quando algumas indústrias resolveram sair e deixar metade dos habitantes sem emprego. Em vista da reação, precisaram voltar atrás. Uma região complicada. Ainda por cima, crime organizado.

Eu: Quem cita a cidade é Maia, não? Aí Braggadocio, que não gostava nada dela, lhe dá uma bronca [p. 97], dizendo: “Mas onde é que você vai buscar todas essas abobrinhas?” E Colonna comenta a bronca de Braggadoccio: “como se fosse o cardeal Hipólito com Ariosto”.

Simei: Aí ele vai buscar uma relação de poder lá no século XVI, mas essas são relações tão comuns em todos os tempos… O cardeal Hipólito d’Este foi protetor de Ludovico Ariosto, o grande poeta, durante algum tempo. Acontece que ele era um homem ignorante, grosseiro, que não sabia apreciar o valor de Ariosto. Até que o poeta se cansou do cardeal. Colonna vê Braggadocio como Hipólito e Maia como Ariosto. Uma hipérbole, enfim…

Eu: A descrição que Braggadocio faz da prisão e da morte de Mussolini está cheia de alusões históricas. Você não gostaria de falar delas? Vamos começar pela Linha Gótica? [p.99]

Simei: A Linha Gótica (em alemão Gotenstellung) foi uma série de fortificações construídas pelo marechal de campo alemão Albert Kesselring em 1944. Na prática, essa linha atravessava a bota da Itália pouco abaixo do joelho, e o objetivo era segurar ou retardar o avanço dos Aliados a partir do sul.  Mas em abril de 1945 eles já tinham atravessado a linha. Nessa época começava a caçada ao “homem que ceifava trigo” [p. 111]. Esse homem, naturalmente, era Mussolini. Acho que ainda hoje é possível encontrar filmes anteriores à guerra, em que ele aparece arrancando a camisa debaixo de um sol abrasador para ceifar trigo, incentivando os italianos ao trabalho e à valorização da terra. Com a travessia da Linha Gótica começava o fim da era da bravura, ou, como dizia a canção fascista, “vimos a morte com duas bombas e uma flor na boca” [p. 160]. Braggadocio vê relação entre os fatos da Segunda Guerra e os atentados de trinta, quarenta anos depois.

Eu: Incluindo-se os atos da Máfia, foram de fato muitos…

Simei: Sim, como por exemplo contra Giovanni Falcone [p. 143], o juiz que queria acabar com a Máfia. Mas esse já foi em 1992. Braggadocio se refere principalmente aos atentados políticos da década de 1970.

Eu: Aliás, você não tem um bom conceito sobre a Democracia Cristã do seu tempo. E disse que os democratas cristãos de outros tempos emascularam o Homem Comum [p. 153], assim com maiúsculas. Ao que exatamente você se referia?

Simei: Colonna citou o Homem Comum (Uomo Qualunque) quando eu falei da formação de um partido de honestos, porque a podridão está por toda parte. Essa era a bandeira de Guglielmo Giannini, que em 1944 criou um jornal chamado L’Uomo qualunque [O homem comum]. Aliás, só um parêntese, esse mesmo Giannini tinha antes disso um jornal chamado… adivinha como? Chamado Domani, ou seja, Amanhã. Alguma coisa comum deve haver entre nós, sem trocadilhos, por favor. Pois bem, esse jornal era um jornal de indignados, contra tudo e contra todos (era assim que ele se definia). Fez tanto sucesso que uns anos depois Giannini acabou fundando um partido com o nome de Partido do Homem Comum…

Eu: Então, ele, que era contra todos os partidos, acabou fundando um? Acho que já vi esse filme…

Simei: É, isso mostra, talvez, que combater a existência de partidos é um sonho, nada mais que sonho. Por isso eu propunha o partido dos honestos. Mas riram de mim. Principalmente Maia, citando um romance velho, chamado A Liga dos honestos [p. 154].

Eu: Riu de você, que sabe distinguir “muito bem pelas fardas os bersaglieri de Lamarmora das tropas de Bava Beccaris [p. 154].

Simei: Pois é. Quando eu disse isso, dava a entender que aprendi bem minhas lições de história, que, embora não tenha convivido com Lamarmora ou La Marmora [1804-1878], fundador do corpo dos bersaglieri, nem com Fiorenzo Bava Beccaris [1831-1924], repressor de primeira linha, que atirava contra multidões famintas, sei distinguir bem os uniformes dos dois grupos. Hoje ninguém mais sabe história. A memória é ofuscada todo dia pelo brilho de notícias novas… aquela coisa toda.

Eu: Mudando de assunto. Round up the usual suspects [p.194] é frase do filme Casablanca, certo?

Simei: Sim, quer dizer “vá atrás dos suspeitos de sempre”. Se você não encontra o autor de um crime, arranje alguém entre aqueles que todos consideram suspeitos. Assim é o mundo, a sentença antes do julgamento.

Eu: Aliás, Colonna, quando cita essa frase, anda bem deprimido e descrente. Chega a comparar a ilha de San Giulio à Ilha dos mortos de Arnold Böcklin [p, 194], pintor sinistro do século XIX [1827-1901]. E diz que coisas como assassinatos de gente envolvida com prostituição não são de interesse das pessoas importantes.

Simei: E diz isso em latim: de minimis non curat praetor [p. 195], ou seja, o pretor não se preocupa com coisas mínimas.

Eu: Você chegou a ver o filme da BBC com aquelas denúncias todas? Tipo infiltração da esquerda pela direita, das Brigadas Vermelhas por Santovito [p.200]? Aliás, quem é Santovito?

Simei: Não vi o filme. Mas o general Giuseppe Santovito foi acusado de muitas outras coisas. Comandava o SISMI [Servizio Informazioni Sicurezza Militare — Serviço de Informações de Segurança Militar] quando Aldo Moro foi sequestrado e morto. Sofreu um processo por envolvimento nos casos da loja maçônica P2, que era dirigida por Licio Gelli, que montou um verdadeiro governo paralelo dentro do Estado Italiano em ligação com a política da OTAN e algumas esferas da cúpula do Vaticano. Esse é um imbróglio que envolve da CIA à KGB, passando pelo Banco do Vaticano, Opus Dei e chegando até a Máfia. Prefiro não meter o bico. Quem se interessar, vai ter material para muitas conjecturas, é só procurar.

Eu: Então vamos passar a coisas mais amenas. Você não gostaria de explicar a frase “Nada de claros-escuros em barroco, coisas da Contrarreforma, os tráficos emergiram en plein air, como se fossem pintados pelos impressionistas” [p. 207].

Simei: Você sabe que sou avesso a eruditismos artísticos. Mas vamos lá: en plein air significa, literalmente, ao ar livre. Mas isso não deve ser entendido ao pé da letra. No mundo da pintura significa uma obra feita sem a intermediação de um desenho, significa que o pintor cria seu quadro diretamente a partir do modelo.

Eu: Certo. Penúltima pergunta: como brasileira, pergunto: que história é aquela de “Copacabana a mulher é rainha a mulher é soberana” [p. 207]?

Simei: É uma espécie de mambo de 1944. Aliás, não sei por quê, em vez de Copacabana eles dizem Capocabana, que fica cômico, pois parece um composto de cabeça (capo) e cabana. Eles cantam a beleza, o calor, a sensualidade das mulheres de Copacabana. Um mito. Um verdadeiro Bengodi.

Eu: Para encerrar com chave de ouro, gostaria de falar de Manzanares. A certa altura Maia diz: O senhor Manzoni, aliás Mansonì, diz: desapareceu um homem que mudou o mundo, de Manzanares ao Reno, um grande [p. 57].

Simei: E eu respondi: “Gostei do Manzanares”. Achei engraçado.

Eu: E você sabe a que ela se referia?

Simei: Ela se referia a um poema chamado Cinque maggio, ou seja, Cinco de Maio, que Alessandro Manzoni [1785-1873] compôs em 1821, quando soube da morte de Napoleão. O trecho diz: Dall’Alpi alle Piramidi, / dal Manzanarre al Reno, / di quel securo il fulmine / tenea dietro al baleno; / scoppiò da Scilla al Tanai, / dall’uno all’altro mar.

Eu: Obrigada pela bela citação, Simei. Agora, o que você não sabe e meus leitores acho que também não é que no Brasil quem traduziu esse poema foi o imperador Pedro II. Esse trecho que você citou ficou assim, na tradução dele: Dos Alpes ás Pyramides / Do Manzanar ao Rheno / Elle fuzila; e rapido / Raio é o seu aceno. / Troou de Scylla ao Tanais / D’um até outro mar.

Simei: Devia ser um sujeito bem squisito esse seu imperador.

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Um comentário em “A personagem NÚMERO ZERO de Umberto Eco

  1. Já queria ler Número Zero por ser Eco e por ser traduzido por você. Agora quero mais ainda. Entrará na fila depois de outro Eco: “Quase a mesma coisa”.

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