Chispa!

Iara Freiberg-ocupação01

— Chispa! Ele disse chispa!

— Quem?

— Aquele mauricinho ali.

As duas mulheres tinham chegado fazia meia hora, se muito. Sentadas naquela espécie de alpendrada do prédio do atual Centro Universitário Maria Antônia, antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, trocavam reminiscências de tempos idos, transcorridos naquele mesmo local, enquanto pela frente passavam jovens mackenzistas de todos os feitios e um só modelo. Foi quando elas ouviram gritos de vozes masculinas, um mais agudo — chispa! — e outro mais grave — Ô-ô-ô, que é isso?! —, vindos da região da faixa de pedestres que agora se deita na rua, diante do portão do Mackenzie, zebra novinha em folha espojada no chão. Uma das mulheres olhou para trás e perguntou à outra, que estava voltada para a cena:

— Que foi isso!

A outra, que tinha visto tudo, respondeu:

— Chispa! Ele disse chispa!

A conversa tinha sido cortada. E a conversa que corria antes do chispa! versava sobre a última experiência de uma das amigas na última tarde que ela havia passado naquela rua mais de quarenta anos antes. Uma delas se espantava:

— Inacreditável, amiga, você nunca mais veio aqui?

E a outra explicava:

— Não, nunca mais. Talvez por falta de necessidade, e até por fuga, desde aquela tarde de 1968, quando fomos expulsos. Você não estava. Foi muito triste. Saí para a rua, fiquei parada, perplexa, sem saber o que havia acontecido, só ouvia informações desencontradas, mas uma coisa era certa: alguém tinha morrido com um tiro dado pelo CCC. Tiro partido daquelas alturas ali — e a mulher apontava para o prédio do Mackenzie. — Convocaram uma passeata. Mais uma. Saímos pela Consolação, eu não diria que éramos meia dúzia de gatos-pingados, mas o número de pessoas era mirrado. Era já a debandada das “massas”, o início da radicalização. Passávamos pela praça Roosevelt quando ouvi um homem esbravejando: “— Cambada de baderneiros”. Parei. Estava emocionada, revoltada. Disse a ele: “— Mataram um colega nosso”. Naquela idade eu ainda acreditava que nossas emoções são transferíveis. Bobagem. Pensa que a expressão de raiva do homem mudou com essa informação? Nada. Ao contrário: ele desandou a discursar. Dizia que era bem feito, que estávamos perturbando a paz de todo o mundo com aquelas manifestações, que era de se esperar, já estava mesmo na hora de parar, as pessoas honestas precisavam trabalhar… Parecia estar voltando do trabalho. Levava um embrulho debaixo do braço. Estava de paletó, sem gravata. Era alto, falava alto. Branco, aparentava uns quarenta anos. Parecia ser um trabalhador digno, daqueles que depois de muito esforço conseguiram subir uns dois degrauzinhos acima do patamar dos pais, imigrantes na certa. Pertencia àquela fauna que ainda precisava fazer força para mostrar que estava acima dos braçais não especializados, e estes muitas vezes moravam ali, bem ao lado. Mais tarde, os filhos dele certamente se mudariam para os prédios de classe média, com guarda, guarita e carro na garagem. Não sei o que respondi. Não me lembro de tê-lo ofendido. Devo ter tentado o convencimento, com algum arroubo, claro, porque na época todos nós éramos impetuosos. Nem percebi que, falando com ele, eu tinha ficado sozinha (afinal, por que parei?), que a passeata tinha andado bastante. De qualquer modo, lembro bem o que ele me disse: “— Ponha-se no seu lugar, você não passa de uma criança que usava cueiros quando eu já era homem”. E me senti enxotada pela segunda vez naquela tarde.

— Chispa! — ouviu-se então.

— Chispa! Ele disse chispa!

Um negro esquelético, andrajoso (morador de rua, talvez) protestava:

— Ô-ô-ô, que é isso?

O –pa do chispa tinha sido acompanhado por uma batida de pé — pá! —, como o de quem quer assustar um animal. O chispa! tinha a intenção de afugentar o negro e sua companheira que atravessavam pela zebra, cruzando com os rebentos da classe média paulistana branca e retrógrada, que não suporta intrusos nas nesgas de éden por ela frequentadas nesta cidade.

Alguém estava sendo expulso daquela rua outra vez, outro dia (quantos?) por um rapaz de cerca de vinte anos, laterais da cabeça e nuca raspadas, alto da cabeça adornado por uma massa de cabelos que na melhor das hipóteses podia lembrar as chamas de uma labareda e, na pior, um monte de excrementos. Bastou aquele chispa para a mulher intuir que, na essência, pouca coisa tinha mudado. E foi assim que o tiro do CCC ecoou na memória dela com o som do pá! do chispa nesta outra tarde de 2012, como se o destino só a tivesse levado lá para servir de elo entre essas duas memórias.

Os casal de negros passou pelas duas. O olhar do homem cintilava de raiva e indignação. Os dois, inconformados, andavam olhando para trás. Até que pararam, pensando talvez em voltar e fazer o autor do chispa! engolir a afronta. Mas este já tinha sumido, enfiado entre seus pares, que é como encontram refúgio todos os que só têm a valentia do grupo. O casal sabia que procurava em vão, que era inútil o desejo de vingança, que eles eram dois indesejáveis naquele feudo. Mas, para dar a impressão de que fazia alguma coisa, o homem disse à mulher:

— Pega a faca! Pega a faca! Pega a faca!

E tantas vezes disse e disse em vão, porque ela não pegou a faca, que decerto nem existia.

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