Brisa Paim

Brisa Paim nasceu em Salvador em 1982. É mestre e doutoranda em direito pela Universidade de Coimbra (Portugal), onde faz pesquisas na área de Direito & Literatura. Publicou contos e poemas em antologias e outros veículos. Em janeiro de 2010 promoveu, em parceria com Karla Melanias, a instalação Pétalas, alocada no Museu Théo Brandão (Maceió), um experimento de poesia e artes visuais. Seu primeiro romance, a morte de paula d., foi vencedor do Prêmio Lego de Literatura (2007) e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura (2010), na categoria de melhor romance de estreia do ano de 2009.

Site: www.palavrapouca.com

Twitter: @brisapaim

 

EU. Brisa, eu não tinha ainda lido o teu livro quando, numa entrevista, alguém sugeriu que a problemática de Immaculada não era de nossos dias. Eu respondi que há problemáticas humanas que persistem de geração em geração, mas com roupagens diferentes, e que em muitos casos só a aparência muda. Dias depois peguei teu livro. E encontrei isto:

mas eu não poderia também falar de bem bem sacanagens com ele porque ele não iria gostar. Não mesmo. Ainda com nosso casamento moderno geração moderna nova e tal ainda assim eu vinte e poucos anos tive buquê contrato grinalda. Ele o marido acharia que a mulher é puta puta ficaria desconfiado iria minguar a relação o casamento entraria em crise numa dessas crises bem modernas […]

mais adiante:

[…] você poderia até dizer que eu sou uma mulher de antigamente mas eu não sou — sou uma mulher de hoje e eu sou-era boba eu sou-era uma mulher de agora eu sou-era verdadeiramente imbecilóide […]

Aí percebi duas coisas. A primeira foi uma coincidência de ponto de partida: o desencontro de desejos no casamento, que eu tinha usado como ideia central de Immaculada conto, há muitos anos. Minha intenção era então abordar a disjunção entre casamento e paixão que ocorre com um tipo (acho que frequente) de homem que é incapaz de ver a mulher na esposa santificada. A outra coisa que vi foi a confirmação do que eu havia dito na entrevista: a persistência das problemáticas com roupagens diferentes. Esse segundo trecho que citei pareceu uma resposta pronta, e eu só lamentei não ter lido antes o teu livro. Agora eu levanto uma terceira questão: somos duas mulheres e trabalhamos com elementos comuns, elementos importantes por sinal, e os caminhos foram tão diferentes… O que você acha disso?

BRISA. Ivone, também essas questões levantei eu enquanto lia o Immaculada. Para mim, parece clara uma coincidência temática: pois nem a sua grande angular, que constitui em detalhes um percurso histórico-social moldado num universo tão masculino como o dos cafezais, da política republicana e da política dos negócios, conseguiu me dispersar de um problema fundamental que, na minha leitura (sim, já começo assumindo a minha parcialidade), era o da mulher e o de sua representação individual e social. Embora o ponto de partida de ambas as narrativas seja de fato o “desencontro de desejos no casamento”, não quer dizer que esta seja a questão mais importante, antes desse elemento conjugal existe um desencontro fundamental já plantado, que é o de nossas personagens com elas mesmas. Há uma procura primeira que parte desse desencontro, e que é essencialmente (e necessariamente) identitária. A angústia da minha personagem (inominada) é pela constituição do próprio nome. O próprio título do livro vem então para expressar uma tentativa e, sobretudo, uma ausência que é muito funda. Neste ponto, a sua opção por dar o nome do livro a uma personagem que só entra na segunda parte da história e tem a sua voz e presença sempre abafadas, sempre contidas, foi um artifício muito bem aplicado: o próprio título já é ele mesmo um espelho (sutil, quase sutilíssimo) do problema, como mostrasse para onde se deve olhar. Um problema que então aparece mergulhado no caldo de tantos outros, os quais, sendo tantos e tão vários, nem assim o conseguem consumir. E que, como você mesma já disse, abordamos de modos tão diferentes. O seu panorama é mais amplo, você faz uso de um narrador distanciado, enquanto eu parto para a micro-esfera caótica e instável da primeira pessoa. Fora isso, há a diferença crucial que se dá nas escolhas estéticas e no plano da linguagem. Nos modos de narrar, que são muito distintos. O seu caminho é mais lúcido, detalhista, o meu é cindido e cheio de ruídos. A velha história do Apolíneo x Dionisíaco, no entanto, neste caso, como extremos apenas aparentes, já que surpreendentemente encontrados. Cada qual em seu estilo, eu e você acabamos mostrando a persistência de uma situação, ainda que com uma ou outra camada que lhe tenha sido acrescida pelo tempo, a persistência das mesmas chagas em modos e épocas tão distantes. Interessante é ver que, enquanto a minha personagem tem um nome que é, na verdade, um fantasma, a Immaculada também um fantasma foi dado como nome, pois seu nome não passa de algo absolutamente exterior em relação a ela, do testemunho de uma expectativa, de um compromisso de virtude assinado por terceiros. Ambos os nomes, portanto, um pela ausência, outro pela presença, pesam sobre as personagens, assombram-nas.

EU. A escrita de Immaculada ocorreu enquanto eu fazia análise. Durante todo o tempo eu procurava descobrir por que me recusava a entrar no universo íntimo da personagem e optava pela narrativa fora dela (que é o contrário do que você fez). Não tenho ainda “a” resposta. Tento agora uma possível explicação. Durante todo o tempo vi aquele tipo de (con)vivência como parte inelutável de um sistema e resolvi, como diz você, abrir o ângulo da lente e fotografar o sistema. Você, ao contrário, usou lente de microscópio e fotografou a imagem do sistema dentro da personagem.

Nestes últimos dias retomei a morte de paula d. e fui anotando nas margens os paralelos com Immaculada. Eu diria que — ainda na metáfora fotográfica — as duas em certos pontos se encaixam como o negativo e o positivo (nada como as antigas tecnologias para nos fornecer metáforas — as das novas estão em gestação?).

Mas, deixando de divagar, vou começar a enumerar esses paralelos. A questão do nome. Interessante que paula d. assim se batiza, a si mesma, e, no mesmo dia em que se batiza, ela “se morre” (ainda no campo da metáfora); Immaculada, ao contrário, recebe o nome do berço como destino traçado, carrega-o pela vida, sempre a contradizê-lo, e nem quando morre de verdade mata o mito. Porque o nome paula d. tem como um dos significados (entre vários possíveis)  a apropriação de uma identidade ficcional, paradoxalmente num momento de busca da verdade identitária; o nome Immaculada representa um mito sexual e religioso imposto como identidade cartorial.

Com o desenrolar da conversa passarei a outros paralelos. Por enquanto a questão dos maridos. Os dois são senhores bem postos, com respectivas esposas descontentes. Estereótipo — dirão! Mas, imitando Luiz Ruffato, direi que as histórias mesmas são sempre contadas como outras (e, por vezes, são contadas de formas tão díspares que o leitor nem percebe que se trata da mesma história). A originalidade das duas histórias, a meu ver, está no seguinte: a normalidade da vida masculina foi preservada nos dois casos; anormais são as referidas esposas. O peso das convenções sociais põe as duas como marginais, irremediavelmente derrotadas. Não sei o que você acha dessa minha visão.

BRISA. Ivone, concordo que os maridos se põem do lado da normalidade nas duas histórias. E já vou também divagando um pouco. Quanto aos maridos, há aqui um contraste interessante, como se você optasse pelo direito e eu pelo avesso de um caminho. Explico: em Immaculada, é Francisco, o marido, que dá as caras. O narrador assume o seu percurso como o fio da meada (deixando o de Immaculada em segundo plano, contando-o, no fundo, transversalmente). Essa opção narrativa serve de referência aos papéis de ambos na sociedade, já indicando, por si mesma, o caminho dominante e o desvio. Já n`a morte de paula d., o marido não é mais que um eco. Não tem rosto, não tem nome, nem voz própria. Em um filme, a minha personagem do marido apareceria sempre de costas, indefinida e embaçada à distância, enquanto o seu Francisco teria a câmera diretamente focada em seu rosto e seguindo o seu encalço. Isso está relacionado àquelas nossas escolhas fotográficas, porque seguindo o fio de Francisco você expande a sua lente e “fotografa o sistema” de que, afinal, essa personagem é um retrato direto. Enquanto eu, optando por estreitar o ângulo de minha lente, fotografei a personagem e, conseqüentemente, “distorci” o sistema através dela.

Também acho que a derrota das duas, Immaculada e aquela-sem-nome, é uma derrota irremediável. A minha personagem está enlutada de si mesma, entre a sua autoconsciência e o agir há um abismo insuperável – o que a própria assume com grande acidez e ironia. Como um amigo meu (Nilton Resende) já escreveu, é uma ironia desesperada, de quem ri da própria desgraça quando sabe que, diante dela, nada pode, nada consegue. Um escárnio dolorido, apodrecido, amargo, que se fortalece na consciência da impotência, o que alguns chamariam de fraqueza (eu diria que não pode haver fraqueza se há antes enfrentamento). Por isso, a tomada de si é também sinônimo de luto profundo. Ela estará morta para sempre.

Em Immaculada a derrota é uma marca de nascença, pois ela já nasceu derrotada, uma derrota que foi registrada em cartório e posteriormente oferecida como garantia de um negócio. E agora retornando àquele ponto da normalidade: a “transgressão”, no caso dela, aparece de forma quase inocente, pois deriva da sua natureza “móbil”, da sua inquietude natural. Uma inquietude que é sempre registrada pelo narrador como, no mínimo, inconveniente. Registros como esse, postos como contrastantes em um tecido social mais abrangente, vão mostrando onde está a anomalia: na mulher que pensa e age por si própria, na mulher cuja vontade é indesejada. Resta-lhe o fingimento como forma de sobrevivência emocional e social, fingimento convenientemente enxergado pelo sexo oposto como um defeito inerente ao espírito feminino. Resta-lhe aprender a ser marginal num ambiente cheio de interditos. Uma anomalia, portanto, que o próprio sistema produz por baixo do tecido, e que instantaneamente repele quando chega à superfície. Não sei como você vê essa questão. Para mim, o que instaura a normalidade no seu livro é essa voz externa, que nos toma pela mão para indicar o caminho das pedras. Enquanto já no meu livro a normalidade se revela pela boca do seu oposto, em um processo subversivo dela própria. Em ambos os casos, trata-se de uma normalidade duríssima, opressora, de uma normalidade forçada que contrasta com a transgressão (derrotada) que as mulheres representam, uma vez assumida a sua postura marginal. Talvez a “originalidade” ocorra porque essa normalidade, embora seja a grande antagonista, é também a grande vencedora. Colocamos a arma na mão do bandido.

EU. Muito interessante sua análise sobre o foco dos maridos. O foco narrativo, claro, está associado ao tipo de abordagem que escolhemos. Para uma grande angular, precisei da terceira pessoa onisciente. Você usou uma primeira, às vezes em diálogo direto com o marido ou com um misterioso Amoim (mioma de trás para frente?). No seu livro, a normalidade me parece sintetizada no adjetivo ortodoxo, aplicado ao sistema educacional escolhido.  A questão da anomalia produzida pelo sistema “por baixo do tecido” me parece outro paralelo interessante. Nos dois casos há repressão, mas com algumas nuanças. Em Immaculada o sistema age por meio dos pais muito bem constituídos num casamento que, embora forçado (segundo os padrões que Immaculada abomina), foi bem-sucedido (propositadamente, pois eu não queria que o foco recaísse no ultrapassado sistema de matrimônio arranjado, meu intuito não era tratar disso), ao passo que paula d. (ou a inominada) é fruto de um casal abortado, o que é condenado pela sociedade, que vê nela uma possível repetidora do fenômeno da separação de casais. Nesse caso, o “repúdio” ao marido (mas não só a ele, e sim a todo o reino a que se dá o nome de “lar”) é um interdito, um tabu, pois confirmaria o que sempre se vaticinou a respeito da personagem. Vaticínios inversos, portanto, nos dois livros: uma é prevista como pura; a outra, como puta. E as duas se revelam inconvenientemente humanas.

Portanto, foi aí um paralelo. Mais outro: o ato de trancar-se. As duas se tornam reclusas. Outro ainda, este muito interessante, porque me parece do âmbito de alguma representação inconsciente que aflorou em nós duas, que é o amarelo hipnótico: tuas borboletas e minhas giestas. Isso me impressionou muito. Mais outro: tua personagem é advogada (dado autobiográfico?), o marido da minha também é (a convivência que tive com advogados me inspirou). Bom, Brisa, temos um material infindável pelo jeito. Eu te diria que, se continuarmos falando demais, poderemos esgotar um assunto que eu adoraria ver abordado por uma terceira pessoa. Agora é tua vez de dizer o que acha de tudo isso.

BRISA: não havia pensado nesse paralelo do amarelo. Amarelo, para mim, é cor de uma alegria tão escancarada que chega a ser tentadora, é difícil não olhá-la. Uma alegria tão óbvia e fácil que chega a ser insistente e até inconveniente. Meio falsa, porque é como se lhe tivesse sido imposta. Você gosta porque te dá certo prazer vê-la, mas, ao mesmo tempo, detesta porque é quase obrigado a adorá-la. Confesso (me chame de maluca) que os girassóis me irritam um pouco, embora goste deles.

As duas personagens de fato se tornam reclusas, apesar de, no fundo, sempre o terem sido. E ambas as prisões se “oficializam” e se estreitam com o casamento, ou a sua promessa. Como a última volta da chave. Mas, embora esse prisma do casamento seja importante nos dois casos, corremos o risco de uma redução (impertinente) à superfície, quando há um subsolo muito mais fundo, onde borboletas e giestas se misturam.

Sim, minha personagem é advogada, escolhi-lhe essa profissão por estar tradicionalmente ligada a um ambiente de formalidades extremas e até, por vezes, de uma liturgia que não deixa de tanger a teatralidade. Como mais uma instância de anulação, ou melhor, de neutralização, da identidade e da subjetividade em favor de outras lógicas tidas como frias. No plano teórico, aliás, há quem aproxime o direito da arte de palco e das performances. Advogar é também lidar cotidianamente com uma gama profusa de burocracia (tribunais em Kafka são verdadeiros labirintos), e a burocracia aproxima-se muito rápido do absurdo. Tudo isso somado faz com que seja fácil sufocar-se, embora nem todos se sufoquem. Obviamente, o direito é mais uma voz de pesada normatividade que incide sobre ela; ao lado das vozes sempre falantes da família (Pai, Marido, filhinhos), da igreja (deus, Padre), da sociedade (vizinhos), estão as vozes dos tribunais (Senhor Juiz) e da lei. São vozes pressupostas. Há outro dado, também: na ficção, os personagens ligados ao direito costumam ser muito rígidos e até austeros, e eu queria quebrar essa casca, mostrar o lado mole da fruta. Mas o papel do direito no livro é, sobretudo, alegórico, pois a própria personagem vê-se de repente do lado dos “culpados”, e essa discussão acerca da materialidade da inocência e da culpa é permanentemente evocada. É uma fronteira difícil de atravessar, tanto quanto pode ser difícil olhar para dentro, onde mora a própria anarquia, com tantos interditos à espreita. Amoim (ou o de dentro revirado) surge como elemento dessa anarquia. O mioma foi inconsciente, eu juro, embora sempre ouvisse dizer, na infância, que quem jura mente.

E: ufa! Isto aqui, sim, é que está sendo realmente olhar pra dentro, mas pra dentro do livro. Muito bom conversar contigo, mas a tentação foi grande e acabei mordendo (em cheio) a maçã. É como você disse: falamos demais. Confesso que nunca quis fazê-lo por medo de acharem que o estou “explicando” (sendo eu apenas mais uma das pontas possíveis). E agora? Talvez devamos traçar um meridiano para cortar tantos paralelos.

 

5 comentários em “Brisa Paim

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