Ivana Arruda Leite

IVANA ARRUDA LEITE nasceu em Araçatuba, em 1951. É mestre em sociologia pela USP. Escreveu três livros de contos: Histórias da mulher do fim do século, Falo de Mulher e Ao homem que não me quis, todos esgotados aguardando reedição em breve. Escreveu também dois romances: Hotel Novo Mundo e Alameda Santos, uma novela: Eu te darei o céu – e outras promessas dos anos 60 e vários infanto-juvenis.

Tem o blog www.doidivana.wordpress.com e está no twitter como @doidivana

EU. Ivana, tive a oportunidade de te conhecer pessoalmente nos encontros promovidos pela Secretaria da Cultura, em torno dos finalistas do Prêmio São Paulo. Confesso que não tinha lido nada seu antes e, na ocasião, li o Hotel Novo Mundo. Queria saber diante de quem eu estaria na nossa mesa-redonda do dia 21 de julho. O que mais chamou a atenção na sua prosa foi a espontaneidade. Ela é espontânea mesmo ou aquilo tudo é muito elaborado? Como é que você cria?

IVANA. Meu objetivo quando escrevo um conto ou romance é convencer e emocionar o leitor. Dentro desse foco, o texto deve chegar o mais próximo possível da oralidade das pessoas comuns, da fala que se ouve no dia a dia. Pra mim, o trabalho do escritor é dar ao texto essa aparente informalidade (totalmente artificial) sem que ela coloque em risco a qualidade literária.

EU. Pois, olha, você convence. Acabo de ler no seu blog o conto Banho de Mulher. Qualquer um jura que é você mesma? É?

IVANA.  Nem morta eu respondo essa pergunta.  Se aconteceu ou não, não é da conta do leitor. Jamais dou aval de autenticidade a nada que escrevo, embora me sinta elogiada quando as pessoas acham que é verídico. Melhor que isso só quando elas próprias se reconhecem: “Nossa , sou eu escrita”.

EU. Bom, dá pra ver que você é convincente. Essa coisa de acharem que o que escrevemos foi vivenciado é muito interessante. Já me fizeram várias vezes essa pergunta, que eu acho muito engraçada, por isso quis te espicaçar com ela. Essa busca da verdade na mentira da ficção foi o que sempre alimentou a literatura. Não é à toa que ela continua viva e forte, não? Se as pessoas não buscassem alguma coisa essencial em contos, romances, filmes, telenovelas etc., a ficção não existiria. Já em Hotel Novo Mundo não me perguntei: será que aqui é Ivana? Por que não me perguntei? Será que é por estar na 3ª. pessoa? Será só por isso?

IVANA. Querendo ou não, a gente fica tentando fazer aproximações da obra com o autor. Ainda mais hoje em dia, quando todo mundo sabe da vida de todo mundo. Quando leio livros de amigos meus, pessoas  íntimas do meu convívio, é um problema. Demoro umas 50 páginas pra fazer o amigo calar a boca e ouvir a voz do livro. No caso do Hotel Novo Mundo pode ser por ser pela narrativa na terceira pessoa; pode ser porque as informações que você tinha de mim não batiam com a história que eu conto ali; pode ser porque você não me conhecesse bem. Vai saber…

EU. Imagino que com você aconteça o que acontece com todo escritor: a realidade vivenciada sofre uma alquimia e vira outra coisa que é aquilo que lhe deu origem, mas também não é. Parece que esse processo é geral. Agora, como é que essa alquimia acontece em você? Ela é fácil, vem pronta, ou você precisa ficar escarafunchando os miolos? Por exemplo, que tipo de coisa te estimula?

IVANA. Hoje dificilmente sou estimulada por coisas que vejo na rua, que ouço nos bares, que vivencio. Sempre fui o tipo do escritor que vai dar uma volta no quarteirão e volta com um conto pronto mas, de uns tempos pra cá,  o passado tem me sido mais útil. A lembrança de coisas que vivi há 30, 40 anos me motivam mais do que as que eu vivi ontem. E sabe por quê? Tudo culpa da internet. Logo que abri meu blog (janeiro/2005) percebi que ele era um “ladrão” por onde escoavam idéias e sentimentos que sempre frutificaram em literatura. Com o twitter, então, piorou. Tudo que vejo ou penso vai pra lá imediatamente. E todos sabemos que sem reserva não há história. Taí uma das dificuldades que enfrento neste momento. Como resolvê-la? Nem desconfio.

EU. Se você sabe onde está o problema já tem a solução. A internet é ambígua. Assim como serve para divulgar o trabalho da gente, pode acabar sorvendo o tutano e deixando o osso. O que te sugiro, se é que você está para sugestões, seria dividir as coisas: umas para uma ficção mais elaborada, em busca de publicação convencional, e outras para o blog. É mais ou menos o que eu faço, se bem que quem acaba subnutrido, no meu caso, é o blog. Você fala em reserva do passado, no fato de não ter aproveitado ainda essa reserva. É interessante que essa tem sido minha fonte sempre: vivências armazenadas que se transformam em ficção. Agora, outra questão é saber como fluem as coisas vividas, as coisas passadas, se com facilidade ou não… E se elas vêm brutas ou destiladas. O modo de elaborar essas coisas é sempre problemático. Não sei como isso funciona para você.

IVANA. Permita-me discordar mas o fato de eu saber onde está o problema não quer dizer que eu saiba como solucioná-lo. Pra mim, essa coisa da internet entra na cota do vício mesmo. Não é questão de planejamento nem de boa vontade. É adição no duro. O problema é que essa tralha toda (o meu blog, o blog dos amigos, o blog das mil bobagens que eu visito diariamente, o twitter, etc) é mil vezes mais atraente do que a aridez do word cego, surdo e mudo. Já que estamos no terreno dos vícios, eu ainda tenho outro problema: depois que parei de fumar (completo 6 anos de total abstinência agora em outubro) minha concentração nunca mais foi a mesma. Antigamente, com um cigarrinho do lado, eu passava horas e horas escrevendo na boa. Hoje não consigo permanecer sentada por duas inteiras. Mas será que vale a pena voltar a fumar pelo bem da literatura?  Never! Quanto à elaboração das coisas do passado, posso te garantir que, no meu caso, só vem à tona o que já foi depurado. Não meto a mão em cumbuca que (ainda) não pode ser aberta. Por isso, sempre que uma lembrança me vem à mente eu sei que ela não dói mais e me divirto escrevendo sobre ela.

EU. Ivana, acho que somos dois opostos. O que me parece ótimo, aliás. Veja só: sempre tive meus vícios sob controle. Do cigarro eu fazia um uso social. Como a bebida para quem não é alcoólatra. Mas, já que a vida do fumante anda bem difícil ultimamente, nem para uso social mais ele me serve. O fumante na nossa sociedade está virando marginal. Os poderes públicos andam preocupados demais com a saúde do corpo de seus eleitores (de classe média, arrisco dizer), e com isso arranjam um jeito politicamente correto de deixarem de lado a saúde do corpo social, que anda bem ruinzinha. Sou filha de um fumante que morreu com enfizema pulmonar e neta de outro, que morreu de câncer nos pulmões. O cigarro é um veneno brutal, mas acho que cada indivíduo deveria ter alguma margem de decisão sobre o que fazer de si mesmo. E lá vou eu fugindo do assunto. Voltando: esse controle dos meus vícios acho que excedeu os limites. Quando te vejo escrever no twitter, no teu blog, na internet enfim, de certo modo invejo a tua espontaneidade. Acho que o meu fechamento começou já na adolescência, quando caiu sobre nós o golpe militar. Ali eu estava começando, me abrindo. Para os que me rodeavam, para mim, ali começava uma idade das trevas. Com o recrudescimento da censura, eu não via como escrever, porque tudo era perigo. Havia os que escreviam (ainda). Havia os que compunham, os que arriscavam enveredar pelo protesto ou pelo realismo e sofriam as consequências. Alguns escreviam cifrado. Na década de 70 floresceu o realismo fantástico, em que se dizia sem falar ou se falava sem dizer. Mas nunca me satisfez. Nunca me vi escrevendo daquele jeito. Sentia que a escrita como comprometimento. Na verdade, é sempre. Mas, quando esse comprometimento implica censura e até prisão, tentar o realismo pode ser perigoso, e eu me algemei. E as algemas me condicionaram. Só de uns anos para cá comecei a acreditar (com reservas) que estamos numa democracia. Mas, pelo que ensina a história deste país, todo dia me pergunto: quanto tempo vai durar?

IVANA. Sua visão é bem mais pessimista que a minha. Acho que estamos sim numa democracia. Não vejo a menor possibilidade de algo que a ameace (estarei sendo ingênua?). O problema é que este regime tem falhas (menos que os demais, é verdade). Além disso, infelizmente, a população brasileira está longe de decidir os destinos da nação com sabedoria e bom senso (vide o desfile de bizarrices no horário eleitoral gratuito). Mas não estamos aqui pra falar de política. A menos que, como no seu caso, ela bloqueie a liberdade de expressão individual, o que não foi o meu caso. Minha família, na época da ditadura, estava entre as que aplaudiam o milagre e davam graças aos militares por eles nos salvarem do comunismo. Eu era uma menina de classe média que estudava no Ginásio Meira, perto da Augusta. Tudo que eu queria era tomar chá no Yara e assistir Jovem Guarda aos domingos. Aliás, essa época é o tema do meu livro “Eu te darei o céu – e outras promessas dos anos 60” (ed. 34). Como se dizia, fui uma adolescente totalmente alienada, cuja rebeldia não ia além dos gritos do iê-iê-iê.  Sempre me achei meio “dona do mundo”, tipo: “falo o que me dá na telha”. Por sorte (e muita análise na cabeça) aprendi a fazer um  melhor uso dessa minha nojice. Na literatura isso funciona.

EU. Do ponto de vista da criação a situação política me tolheu e eu me condicionei. Depois, precisei de um tempo para me livrar do fantasma. Mas, para encerrar, gostaria de te fazer uma pergunta que me intriga desde que li Hotel Novo Mundo. É sobre o final. Uma autora de tendências feministas teria botado ali uma reviravolta na vida e na cabeça da personagem, mas você não fez isso. Você pensou em outras possibilidades de final?

IVANA. Que interessante esta sua observação! Nunca ninguém me falou que um final mais “feminista” seria de outra forma. Por acaso as feministas não têm (ou não se dão) uma segunda chance na vida? O fato de a Renata engatar outro romance mal tendo terminado o primeiro não quer dizer que ela vá repetir os erros do passado. Até porque o Divino é muito diferente do César. Agora, o mais engraçado é que todos que me conhecem mais profundamente e mesmo os que leram o que escrevi antes foram unânimes em salientar o aspecto inovador do final da história DENTRO DO CONTEXTO da minha obra. Escrever sobre mulheres que dão um basta à dominação masculina e vão se virar sozinhas, custe o que custar, foi o que eu sempre fiz. Permitir que ela se renda e busque um ombro pra se amparar é que foi revolucionário. Como vê, há muitas formas de se instaurar a nova ordem. Acreditar no amor talvez seja a maior delas.

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9 comentários em “Ivana Arruda Leite

  1. Caramba, meninas! voces começam uma entrevista e ela vai ficando sensacional
    daí quando eu tô conferindo/aprendendo/curtindo adoidado, voces abortam assim…
    abruptamente? Pelamordedeus continuemmmmmmmmmmmm.
    Gente, que papo macanudo!Abraço da Fatima/SC

  2. adorei seu livro querida sou aluna da escola E.E. DR Genésio Cândido Pereira , me endicaram seu livro aí fiquei com ele pra ler adorei …

    parabéns pelo seu trabalho !

    ass : alessandra 1° A …..

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