Lia Wyler

Lia Wyler nasceu em Ourinhos, SP, mas radicou-se desde cedo no Rio de Janeiro, RJ. Fez Licenciatura e Bacharelado em Letras “Português-Inglês” na PUC-RJ, com especialização em Tradução. Na ECO-UFRJ recebeu o título de Mestre em Comunicação em 1995 defendendo a dissertação Tradução no Brasil: o ofício de incorporar o outroe na USP cursou os créditos para um doutoramento. Começou a traduzir textos de ciências, humanidades e ficção na década de 1970. Entre suas traduções contam-se autores como Bruno Bettelheim, Carl Sagan, Margaret Atwood, Norman Mailer, Bashevis Singer, Chester Himes, Estes-Pinkola, Muriel Spark, Stephen King, Tom Wolfe, Joyce Carol Oates, Conan Doyle, Bárbara Pym, Sylvia Plath e a série Harry Potter de J.K.Rowling que lhe valeu o Prêmio Monteiro Lobato Tradução-Criança. Como pesquisadora, colaborou na primeira enciclopédia mundial de tradução The Routledge Encyclopedia of Translation Studies e anualmente publica artigos de tradução em revistas especializadas do Brasil e do exterior. De suas pesquisas nasceu o livro adotado em cursos universitários de tradução Línguas, poetas e bacharéis: uma crônica da tradução no Brasil (Editora Rocco, 2003). De 1991 a 1993 exerceu a presidência do Sindicato Nacional dos Tradutores.

EU: Minha querida amiga, desde que você me falou no ano passado de um encontro em Paris só de tradutores do Harry Potter fiquei muito intrigada. Nunca vi coisa igual. Que fenômeno é esse?

LIA: Fui tomando conhecimento do encontro aos poucos, ao longo de seis meses. A UNESCO patrocinou o evento e mandaram convites para todos, mas só me dei conta de que era a única tradutora da América Latina — por razões óbvias, os livros em espanhol são traduzidos na Espanha e aqueles em inglês a rigor não precisam de tradução — quando já estava em Paris. Levei um tempão para entender e aceitar a insistência dos organizadores. Convidaram os meus colegas da Ásia, África e eu e até o tradutor das Ilhas Faröe que eu nem sabia que falava uma língua própria, o faroense, adotada por 48 mil pessoas. Fui à Internet descobrir que povo era esse, se era independente, que paisagens habitava, que costumes adotava, numa evidência muito óbvia de que tradução é cultura.:-))) Os organizadores não mandaram, porém, convites para a J.K.Rowling nem para a Warner Licensing, detentora dos direitos sobre a obra impressa, filmada, reproduzida pelo meio que for, pois o encontro foi reservado aos tradutores.

EU: Qual foi exatamente o objetivo da UNESCO quando resolveu organizar esse encontro? Sei que você fez uma pesquisa entre os leitores do Harry Potter antes de ir ao encontro (processo bem cansativo, aliás), mas acompanhei de longe.

LIA: Avaliar o impacto global da série Harry Potter na opinião dos sessenta e oito tradutores. Impacto global aqui desdobrado em impacto educacional positivo, produzido pelas traduções, promoção do letramento, aprendizado de inglês e aumento da frequência nos hábitos de leitura, não somente na população infanto-juvenil, como na população adulta. A pesquisa entre os leitores de Harry Potter visou principalmente dar resposta a essas questões e eles corresponderam plenamente: tive mais de setecentas respostas e ainda hoje as recebo.

Outro ponto focal foi o impacto social exercido pela série no mercado editorial, na mídia, na sociedade. A academia pode continuar ignorando o papel relevante desempenhado pelos tradutores comerciais na sociedade como um todo, e continuar se concentrando em descobrir qual foi o percentual de palavras traduzidas em cada volume da série, se em sua opinião e na de algum teórico extravagante o tradutor acertou ou errou. Pode fingir que Harry Potter não existiu extra-academia, porque admitir sua existência na sociedade é repensar o que fazem os professores de letras neste país, mais especificamente, repensar o papel dos tradutores na transmissão cultural entre os povos.

EU. No que você acaba de dizer há assunto para duas teses: o impacto educacional e social do Harry Potter e a posição da Academia diante do tradutor que atua no mercado. Este último assunto eu conheço de perto. O primeiro, não. Então me conta quais foram as conclusões do congresso e as tuas. Antes, eu tomo a liberdade de fazer algumas constatações que podem parecer óbvias, mas talvez sirvam de gancho para você. Esse congresso só existiu porque o volume de traduções e de vendas da obra foi excepcional e foi global. Isso implica um volume de distribuição e propaganda que exige um capital fantástico. Fica então a impressão de que a magnitude da penetração dessa obra é consequência da língua em que foi escrita e do Hemisfério de onde saiu, de que, se tivesse sido escrita em finlandês, por exemplo, ela não teria saído dos limites do seu país. Claro, qualquer um pode responder que, se ela fosse ruim, ainda que escrita em inglês, teria pouca penetração. Será mesmo? Você acha que a obra é boa de fato, que mereceu todo esse sucesso? E o impacto dela sobre leitores de cultura diferente: é benéfico, maléfico ou nenhum dos dois?

LIA: Não, Ivone, o congresso existiu porque o mundo está interessado em entender um fenômeno tão amplo e tão semelhante em países tão dessemelhantes. Porque as experiências dos tradutores com os editores, com os livreiros, com os fãs, sejam no Tibete, sejam na França, têm tantos pontos comuns. Sobre a sua segunda afirmação não tenho como negá-la, mas posso ilustrá-la com uma historieta que contam no mundo editorial. Um chefão de marketing dizia em coquetel de feira de livros em Nova York que era capaz de transformar qualquer livro, por mais chato que fosse, em best-seller mundial. Que escolhessem um chama-sono que ele comprovaria sua afirmação. Escolheram O Nome da Rosa, Ivone, que se tornou um best-seller mundial e até um filme visto por milhões de espectadores. Best-seller porque vendeu e não porque foi lido. Muita gente o comprou para figurar na estante e o encostou ao perceber que o texto tinha mais de um nível e que não fora escrito para qualquer leitor. Será que estamos diante de igual fenômeno, mas tratando-se agora de um livro juvenil lido por adultos? Sete volumes lidos mais de dez vezes, ensebados e orelhudos à espera da continuação que demorava dois anos para chegar às livrarias. As crianças desligaram a televisão e se trancaram no quarto com o Harry Potter. Largaram o futebol nos recreios escolares para ler o Harry Potter, fizeram fila na neve para comprar o livro à meia-noite (isto, sim, jogada de marketing, bem como concursos em livrarias, brindes e as centenas de subprodutos da série) e se vestiram de Harry, Rony e Hermione para mencionar os mais populares. Usaram a Internet para comentar, criticar, piratear. Meninos passaram a escolher amigos entre leitores como eles e a aguardar com ansiedade a chegada da carta matriculando-os em Hogwarts. Propaganda? É bem verdade que a propaganda bem focada levou a Alemanha nazista à guerra. Mas havia uma ideologia subjacente, uma guerra perdida, privações, perda de soberania. Como obter o mesmo efeito com algo lúdico? Em tempo: a divulgação inicial da série Harry Potter foi feita boca a boca. Quanto à obra ser benéfica ou maléfica, uma obra que levou e ainda leva adultos à leitura esquecida, que leva crianças ao aprendizado precoce da leitura, que leva ao interesse por línguas estrangeiras pode ser maléfica caso o seu conteúdo não atinja a excelência preconizada pelos literatos? Aha já sei, é maléfica porque é obra de feitiçaria! rs rs rs Dostoievski já dizia que devíamos rever os critérios de excelência pelos quais julgamos as obras literárias.

EU: Quando falei em benéfico ou maléfico quis me referir ao banho de cultura estrangeira através de uma história de aventuras cujo único objetivo não sai disso. Meu ponto de vista era esse, e não o fato de tratar ou não de bruxaria. Aliás, esses dois ingredientes juntos, bruxaria e aventura, parecem produzir uma mexida bastante lucrativa. Fico aqui matutando no motivo de outras culturas não a explorarem. As latinas, em particular. Dogmatismo religioso enrustido? Séculos e séculos de controle inquisitorial religioso teriam incutido tanto pudor, tanto medo do pecado e da fogueira? Tudo isso racionalizado, mascarado, escusado com convicções racionalistas? Enfim, puritanismo religioso + purismo racionalista = bloqueio da imaginação? Elucubrações. Esse é um ponto da nossa conversa. Outro é a questão do best-seller, que agora abordo. Segundo me contou alguém, quando a Rowling acertou a edição do primeiro volume, recebeu de seu editor o conselho de trabalhar em alguma outra coisa para ganhar a vida e não ficar contando somente com direitos autorais. Isso significa que nem ele acreditava em tamanho sucesso.

Quanto ao Nome da rosa, digo que foi um dos melhores livros que li até hoje. Nele, Eco conseguiu a dose certa de ingredientes em cada nível de leitura, prendendo pela estória e pela história. Acontece que a sede de banalidade é insaciável. Tão insaciável que, quando fizeram o filme, fecharam tudo com a chave de um happy-end lamentável, bem ao gosto do mau gosto americano. Então estamos lá: aventura com happy-end, a fórmula centenária que não se esgota.

LIA:  Entre parênteses, não sei onde obteve essa informação mas não é muito fidedigna, uma vez que não leva em conta a cronologia. Entre esse momento e a explosão existem prêmios ganhos pela autora independentemente de vendas. Logo, se o marketing funcionou aí, e funcionou, deve ter sido em grande parte a reboque, e não como elemento gerador.

Vamos por partes: por que não exploramos ou por que os latinos não exploram a dobradinha aventura e feitiçaria? A Margaret Atwood, em uma série de conferências que pronunciou na Universidade de Cambridge cita E. K. Brown em The Problem of a Canadian Literature (1943) e fiquei impressionada que o homem diga uma coisa que também se aplica ao Brasil e a qualquer país americano: a uma colônia falta a energia espiritual para transcender a rotina, e falta-lhe energia porque não crê suficientemente em si mesma… porque o lugar ideal não existe em seu presente, nem em seu passado, nem em seu futuro, mas em algum ponto além de suas próprias fronteiras, além de suas próprias possibilidades… Uma grande arte (literatura) é favorecida por artistas e um público que possuem em comum um interesse característico e apaixonado pelo tipo de vida que existe no país em que vivem.  Isso daria conta de uma parte. Por outro lado, talvez até por causa da Inquisição e o fato de o nosso país ter sido extensamente colonizado por cristãos novos, não faz parte de nossa tradição discutir religião, nem em família, muito menos se comprometer escrevendo, exceto doutos ensaios sobre  práticas extraoficiais como a feitiçaria dos negros e dos índios, pelas quais os brancos só se interessavam na cozinha ou no terreiro. Outro obstáculo que se soma aos que citei é a tradição arraigada de que aventura não é literatura – viu o que aconteceu com os nossos romancistas folhetinistas do século XIX? Machado de Assis, José de Alencar e outros menos ilustres não foram além de algumas tentativas no gênero que consideraram pífias. Particularmente, acho happy-end catártico…

EU: As afirmações de E.K. Brown decerto têm uma dose de verdade, no caso do Brasil. Mas a “falta a energia espiritual” de que podemos em grande parte padecer não nos impediu de ter uma grande literatura. Temos grandes talentos, aliás, não só no campo literário. É pena que estejamos sempre dependendo de talentos solitários. O que nos falta é organicidade, sangue fluindo do povo para o artista e vice-versa. Nossas elites sempre estiveram distantes do seu povo por uma série de razões que não me atrevo a enumerar, com medo de pecar por falta ou por excesso. E não acredito em arte robusta sem essa circulação vital, em que um alimenta o outro. Muitos dos nossos grandes talentos, em artes que não dependem da língua, acabam por se realizar no exterior, quando cerceados aqui. O escritor está preso ao cordão umbilical de sua língua. Sua única saída é extrair arte da realidade que tem em mãos, mas isso, todos sabem, nem sempre é fácil. Aqui, a clivagem artista-público é muito pronunciada. Temos altas taxas de analfabetismo, baixa escolaridade e um sistema educacional deficiente. O que os meios de comunicação de massas oferecem ao seu público é deplorável. Não lhe dão oportunidade de conhecer nada além do trivial, tantas vezes sórdido. Somos patriarcalistas e autoritários. Em nossa tradição, pensar foi frequentemente perigoso. Que dirá duvidar? Então alguém poderia dizer: a tal falta de energia espiritual é justamente o entrave para resolver esses problemas. Círculo vicioso. Pode ser. Mas não podemos nos render a uma visão dessas, porque ela é fatalista. Uma série de condicionamentos históricos determinou essa realidade que vivemos. Ou fazemos um esforço descomunal para nos livrarmos dessas coisas, ou vamos ficar atolados para o resto da vida. É preciso acreditar em energia suficiente para sair do impasse.

Mas retomo a história do folhetim. Vivemos um momento literário em que se foge de “contar histórias”. Não vou discutir se isso é bom ou mau. É possível escrever um bom livro contando ou não uma história, acho que há alguns mal-entendidos a respeito. O que quero lembrar é que o folhetim, morto ou vilipendiado nos livros, está vivo nas telenovelas, e estas estão bem saudáveis porque atendem a um anseio. E quem busca a aventura ou a história envolvente nos livros de seu país, de sua língua, e não as acha, vai procurá-las nas traduções. E assim se alarga o abismo entre os que escrevem em português e quem não os lê.

LIA – Pois é, traduções para os que leem e telenovelas para os que não leem ou têm preguiça de fazê-lo ou porque buscam uma droga alienante de efeito mais rápido. O mérito de Harry Potter é justamente ter ocupado a imaginação das duas categorias. Pare para relembrar a trajetória do folhetim em nosso país: primeiro, maior lucro para os donos de jornais então beneficiados por maior capacidade de impressão; em segundo lugar, entretenimento para as senhoras ociosas e os estudantes de medicina, direito e engenharia – a nova fornada de profissionais intelectualizados, menos interessados em estudar do que em todo o resto. Folhetins impressos no rodapé dos jornais, em que um lia e muitos escutavam a leitura feita, da sala de visitas à senzala. Veja a proporção dos que realmente precisavam saber ler. Isso até o advento do rádio e a irradiação de folhetins, que congregava os moradores de uma casa em torno do rádio para saber de quem o bastardinho era filho ou com quem Mariana ia casar. Daí para a telenovela levou tempo:  o tempo de produzirem e venderem aparelhos de televisão e fabricar as telenovelas . Abrem emissora, fecham emissora mas a telenovela continua sua trajetória impassível. E assim, de vez em quando um Harry Potter incendeia a imaginação dos adolescentes que são logo imitados pelos carentes, também filhos de Deus…

3 comentários em “Lia Wyler

  1. Parabéns pela belíssima entrevista. Para mim, uma amante das letras e da tradução, ver “dois titãs da academia e da tradução” em um colóqui desse nível é uma honra!
    Obrigada!
    Fátima

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