O homem que amava os cachorros

Começo pelo fim, dizendo que O homem que amava os cachorros é um bom livro e merece ser lido. Espero que, daqui por diante, o que eu disser sobre as questões polêmicas que ele contém ou evoca só sirva para despertar mais a curiosidade de quem ainda não o tiver lido.

Por três razões, pelo menos, esse livro merece ser lido. A primeira é estética: o texto é bom, com uma estrutura bem elaborada. A segunda é didática: ele dá a oportunidade de conhecer fatos históricos talvez esquecidos ou, pior, escondidos. A terceira é existencial: é preciso refletir sobre os traumas do corpo social.

A qualificação “romance histórico” merece uns reparos. No núcleo da expressão “romance histórico”, o substantivo romance enfatiza o caráter ficcional de uma obra. Em O homem que amava os cachorros o interesse ficcional é bem restrito, pois os fatos históricos, como tais, é que formam o grosso de um caudal que enche mais de seiscentas páginas. Em outras palavras, não se tem uma ficção sobre fundo histórico, mas História com roupagem (bem transparente) de ficção. Digamos que há uma musculatura histórica sustentada por um esqueleto ficcional. Essa maior precisão do gênero da obra me parece importante para que um futuro leitor saiba o que esperar e não comece a ler achando que vai encontrar ficção pura (ou história pura, aliás).

Como bem disse o próprio Padura em sua palestra do dia 15 de abril (no teatro Anchieta, em São Paulo), essa é a história de um assassinato cujo executante e cujo mandante são conhecidos por todos. Como então se explica que ela possa despertar interesse e levar alguém a comprar o livro? A resposta pode ser mais fácil do que parece: o interesse não está exatamente no fato em si, mas na busca de uma explicação para as circunstâncias que o cercaram. A personalidade do assassino ainda hoje causa perplexidade. Padura tenta reconstruí-la. A gratuidade e a violência do golpe mortal continuam provocando arrepios: que espécie de lógica pode haver por trás dele? Padura tenta explicar. Além disso, a construção da trama é primorosa. Tudo vai sendo elaborado aos poucos, e o caminho para o clímax (o assassinato) consegue ser cheio de suspense. É bem verdade que, depois disso, o texto passa a deslizar por certo anticlímax, quando envereda por caminhos mais propriamente políticos, com explicações que sem dúvida despertarão o interesse de leitores mais politizados, mas poderão causar algum cansaço nos menos politizados. De qualquer maneira, a construção da narrativa se vale de expedientes inteligentes na manipulação dos diversos narradores. Há, assim, os dois personagens principais — Trotski e Mercader — em torno dos quais os outros gravitam. Um e outro vão sendo focalizados alternadamente, numa narrativa em terceira pessoa, que, como logo se percebe, é feita por um narrador que também é personagem. Seu drama pessoal, relatado em primeira pessoa, faz parte da trama: cubano, ele passa por enormes dificuldades pessoais e políticas (não é difícil identificá-lo como o alter ego do autor). A inerente falta de onisciência de um narrador-personagem é suprida pelo relato que o próprio assassino lhe faz, durante alguns encontros ocorridos numa praia (evento este ficcional). Detalhe: o assassino não dá a conhecer sua real identidade, que o narrador só descobre no fim. Para desenvolver o desfecho, outro personagem secundário passa para o primeiro plano: ele arremata a trama, de um modo que não esclarecerei aqui, para não estragar o prazer dos prováveis leitores.

Enfim, Padura lançou mão de uma verdadeira ginástica ficcional, que se pode dizer bem-sucedida, a fim de criar, para uma história conhecida, um entrecho e um desfecho dignos de um bom escritor.

Isso quanto à forma.

As maiores dúvidas, pelo menos para mim, dizem respeito aos dados políticos que, claro, não podem faltar nessa história. Interessante é que sua discussão parece ter sido evitada na palestra a que assisti. Lamentei, pois cheguei lá cheia de indagações e com elas saí.

O que torna especial esse assassinato histórico é que suas motivações estiveram por trás de grande parte de tudo o que aconteceu ao longo do século XX. As pessoas nele envolvidas foram representantes de algumas das grandes ideias míticas que moveram esse século tenebroso. Não há como montar essa história na História sem entrar no mérito das ideologias por trás dela. E mais: ideologias que determinaram a existência do regime político vigente em Cuba (país natal do autor) há mais de meio século. No entanto, Padura diz que não faz política. Acreditando que ele tenha sido sincero ao dizer isso, interpreto que por “fazer política” ele entende “ser político profissional” ou “ser militante”. Padura pode não ser nem um nem outro, pode não fazer política institucional, na posição ou na oposição, mas faz, sim, política o tempo todo em seu livro. Do modo como todos fazemos política, mesmo (e talvez principalmente) quando achamos que não fazemos.

A oposição Trotski-Stalin foi tão intensa, produziu resultados tão escabrosos, que ainda hoje precisa ser pensada, se não explicada. Aí, parece-me, está um ponto fraco da obra. Mesmo que seja tedioso e perigoso para o sucesso de uma ficção minudenciar o que significava exatamente a “revolução permanente” defendida por Trotski, em oposição à revolução de um único país, preconizada por Stalin, mesmo que seja complicado discutir as duas lógicas subjacentes às duas posições, parece muito necessário entender quais as verdadeiras razões que levaram um estadista a perseguir uma pessoa pelo mundo inteiro e não descansar até exterminá-la, depois de dar fim a quase toda a sua família. Mesmo que Padura tenha razão em não querer entrar nesses meandros mais espinhosos, mesmo que as diferenças entre os dois desafetos não fossem assim tão profundas (ou, como dizem alguns historiadores, a semente de Stalin já estava em Lênin e em Trotski), parece insuficiente explicar todos aqueles acontecimentos, como faz Padura, apenas pelo mau-caratismo de Stalin, homem movido pela inveja, pelo ódio, pela necessidade de poder. Não deixa de ser verdadeira essa dimensão de Stalin, a julgar por seus crimes, mas é impossível que seja a única. Um paranoico que, no poder, só contasse com a mola de sua pulsão de morte não sustentaria a sua posição por tanto tempo. Stalin, com certeza, era isso e muito mais. Mas levantar essa lebre conduziria Padura para outras veredas, e o livro seria outro. Ele precisou optar. Empreender a ambiciosa tarefa de escrever uma obra épica (que é o que é O homem que amava os cachorros) e contar as motivações pela metade pode gerar mal-entendidos. Por outro lado, desenvolvê-las plenamente pode gerar tédio no leitor e compromissos indesejados por parte do escritor. Difícil equilíbrio.

Que Padura busca o tempo todo. A acusação a Stalin tem dois resultados sobre o leitor: o primeiro é levá-lo a acreditar durante muito tempo que o autor é um trotskista tardio; o segundo é fazer uma crítica nada velada ao regime cubano e a seu alinhamento com a União Soviética, o que teria levado os cubanos a viverem uma ilusão de décadas, para depois, com a queda do regime soviético, perceberem que o sonho era pesadelo. As vicissitudes do narrador Iván dão conta disso, e o desfecho, aliás, é uma grande alegoria nesse sentido.

A impressão da adesão de Padura ao ideário de Trotski, que acompanha boa parte do livro, é desmontada já perto do fim, quando tanto o trotskismo quanto o stalinismo são sumariamente descartados como soluções para a problemática social. O que sobraria? — pergunta-se o leitor. Uma pista interessante talvez se encontre antes desse rechaço duplo, nas seguintes palavras, proferidas pelo personagem-narrador Iván: “…tinha aprendido que a verdadeira grandeza humana está na prática da bondade incondicional, na capacidade de dar aos que nada têm não o que nos sobra, mas uma parte do pouco que temos. Dar até doer, e não fazer política nem pretender prerrogativas com essa ação, muito menos praticar a enganosa filosofia de obrigar os outros a aceitar em nossos conceitos do bem e da verdade por (acreditarmos) serem os únicos possíveis e por, além disso, deverem estar agradecidos pelo que lhes demos, mesmo que não o tivessem pedido.” Salvo engano, entramos no terreno do cristianismo primitivo. Acredito seriamente encontrar aí uma resposta.

Talvez esse trecho represente o que Padura sente e pensa como cidadão e ente político; talvez seja aquilo em que acredita quando diz que não faz política. No entanto, quando quem o diz vive em Cuba, essa profissão de fé se destaca pelo inesperado.

Enfim, a impressão com que fechei o livro foi a de que, após todas as agruras dos nossos séculos conflituosos, ainda há a necessidade de depositar-se esperança numa utopia, a maior talvez já engendrada no Ocidente, a única que não admite luta.

A tradução é assinada por Helena Pitta (lusitana?) e conta com um interessante prefácio de Gilberto Maringoni, que certamente poderá ajudar a dirimir muitas das dúvidas históricas que o leitor venha a ter durante a leitura.

2 comentários em “O homem que amava os cachorros

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