A estranheza do mito

Retomo o assunto do artigo O mito da estranheza, mas agora de maneira mais dinâmica, quero dizer, caminhando da teoria à prática e dando exemplos. Naquele eu falava da mania de estrangeirizar tudo — como se fosse preciso resgatar os pecados da domesticação — e da grande confusão que se faz entre estrangeirização (legítima em alguns casos) e decalque (ilegítimo sempre). Neste, pretendo tratar da estranheza de aderir à estranheza, contrariando o bom senso. Temos o costume de engolir mitos; não os criamos, mas os acatamos religiosamente. E é da natureza do mito perseverar na contracorrente dos fatos.

Continuar lendo “A estranheza do mito”

Anúncios

O mito da estranheza

moon02_edited-1AEste é um momento em que as editoras brasileiras estão dando preferência às traduções feitas diretamente de idiomas originais mais “exóticos”, abandonando de vez as traduções de traduções de línguas pertencentes a um universo cultural mais próximo, como o do francês e do inglês. O enriquecimento de nossa sociedade deve ter relação com essa mudança, que conta já umas duas décadas. Coincide, não por acaso, com uma discussão (já também não muito nova) sobre duas atitudes aparentemente antagônicas: a domesticação e a estrangeirização em tradução. Para os que não pertencem ao ramo, tento explicar: a tradução domesticadora cria um texto fluente, que não parece traduzido, lançando mão de arredondamentos sintáticos, fugas vocabulares e adaptações culturais capazes de criar grande distância em relação àquilo que está na língua original e pode causar estranheza; a estrangeirizadora teria, teoricamente, o objetivo de deixar transparecer essa mesma estranheza, preservando tudo o que seja possível da língua de origem.

Continuar lendo “O mito da estranheza”