Charles d’Orléans – alguns poemas

Blog-Elmo esculpidoExtraído de artigo publicado nosCadernos de Literatura e Tradução, nº 6, USP, São Paulo, 2005

A situação social de Charles d’Orléans contri­buiu muito para o conhecimento que hoje se tem de sua obra. Em vida, esse príncipe (neto, sobrinho e pai de reis) conseguiu montar um manuscrito autógrafo, a partir do qual Pierre Champion estabeleceu a compilação mais respeitada hoje em dia. Nela, os poe­mas são apresentados em seqüência cronológica aproximada. Champion propôs a seqüência cronológica da poética do príncipe em 1927, numa obra que foi reeditada em 1971, em dois volumes. O primeiro é dedicado a baladas, canções, com­plaintes e caroles, enquanto o segundo contém os rondéis. Pelo que se depreende dessa compilação, embora o grosso da com­posição da juventude de Charles d’Orléans tenha sido constituí­do por baladas, o poeta também as compôs na maturidade. O primeiro volume de Champion, portanto, deve ser manuseado com cuidado na tentativa de distinguir, pelas características dos poemas, aqueles que pertencem à maturidade e os que perten­cem à juventude. No fim do volume encontram-se as baladas que, de modo geral, podem ser arroladas entre os poemas da idade madura. Sabe-se que só nesta última fase Charles d’Orléans se dedicou sistematicamente à composição de ron­déis. A composição de canções, segundo Champion, não tem elementos cronológicos para estabelecer com clareza as datas de produção.

A análise temática pode fornecer chaves preciosas para o estudo da evolução dessa poética. O que se mostra, logo à primeira vista, é uma fidelidade espantosa à temática do amor cor­tês, muito cultivada a partir de Roman de la Rose. Ou seja, a obra toda se pauta por uma mitologia montada em torno de umas poucas dezenas de personificações, que interagem como personagens de uma comédia que o autor foi construindo ao longo da vida. Um estudo mais atento também mostra que, se no início tais personificações/personagens se vestem da púrpura das gran­des personalidades, no fim já não ostentam nenhum manto suntuoso: sua roupagem, se não chega a ser burguesa, é de uma nobreza menos solene, mais risonha, mais brincalhona. Ou elas simplesmente desaparecem para dar lugar a uma meditação mais jocosa, irônica, desenganada, quando não ressentida.

É esse tratamento final que observamos nas canções abaixo. As personificações desapareceram, e o que ficou foi o tratamento jocoso de uma temática que antes chegara a ganhar nuances mitológicas: a corte amorosa.

A primeira canção é a de número LXXIII e está na página 247 da coleção de Pierre Champion. O motivo do poema é o tradicional­mente explorado pelo poeta: a corte amorosa. Mas, ao contrário do que ocorre nos poemas da juventude, em que frequentemente um amante presta homenagem ao rei do Amor, o clima já não é de diáfana mitologia pagano-cris­tã: as personagens já não são personificações, são entes quase palpáveis; já se fazem presentes certas minúcias da realidade con­creta (por exemplo, fogo extraído do pavimento pelas patas dos cavalos), numa exploração inusitada de imagens visuais. Fato in­teressante é que já se observa com mais frequência uma constru­ção metafórica interessante: os cavaleiros são esporados tanto quanto os cavalos, num entrelaçamento que mescla as isotopias “humano” e “animal”, remetendo, por associação, à idéia de força do aguilhão sexual, imagem inconcebível nos poemas da juventude, mesmo na forma velada com que é apresentada aqui. Não há lirismo, há gracejo; não há participação, há distanciamento irônico.

A tradução não poderia perder de vista esses elementos. Nem os formais: “forma fixa”, estrofes com refrões em distribuição esquemática, esquema de rimas. Outros recursos poéticos de observa­ção obrigatória: sequência de palavras semanticamente próxi­mas (a expressão “jeunes amoureux nouveaux” seguida de “en la nouvelle saison”) que constitui uma recorrência cujo objetivo é enfatizar e associar as ideias de juventude, novidade e “novicia­do” (no amor). Essa ideia se desdobra na segunda estrofe com a imagem visual (dos cavalos arrancando fogo do pavimento): só do atrito entre a agudeza e a lisura do ferro e do pavimento é que saem chispas, de resto como também só do car­vão novo e seco é que se extrai fogo. Destaque-se também que os versos em que tais palavras (jeunes, nouveaux, nouvelle) se en­contram são exatamente os versos de refrão.

Além disso, não se pode deixar de dar o devido peso à aliteração entre as nasais n-m-n em alternância com as fricativas j-v tendo pelo meio a vibrante r, bem como à assonância entre os grupos vocálicos “fortes” que acompanham cada uma dessas consoantes: eu-ou-eu-ou-eau (a única exceção é o –e mudo final de jeunes), o que empresta ao verso uma cadência bastante regular (lembramos, mais uma vez que esse é o verso do refrão, e que essa é uma composição tradicionalmente feita para ser cantada). Tentei recuperar essa seqüência com Jovens novéis namorados. O adjetivo “novéis”, de sabor antiquado e prosodicamente bem pró­ximo de nouveaux, tem a vantagem de entrelaçar em si as idéias de novo e novato, ao mesmo tempo que ajuda a reproduzir a aliteração presente no poema francês).

Característica pouco usual, presente nessa primeira can­ção, é o verso de sete sílabas. O fato chama a atenção porque é muito maior a frequência de octossílabos, tanto em Charles d’Orléans quanto em outros poetas de sua épo­ca. De tal maneira que se pode dizer que o octossílabo está para a poesia francesa da época assim como o heptassílabo está para a portuguesa (Cf. SPINA, 1971, p. 24). A tradução dessa canção em heptassílabos rende assim um ritmo bastante familiar aos ou­vidos lusófonos, ao contrário do que ocorre em parte com outros versos.

CHANSON LXXIII

Jeunes amoureux nouveaux,
En la nouvelle saison,
Par les rues, sans raison
Chevauchent faisant les sauts.


Et font saillir des carreaux
Le feu, comme de charbon :
Jeunes amoureux nouveaux
En la nouvelle saison.


Je ne sais si leurs travaux
Ils emploient bien ou non ;
Mais piqués de l’éperon
Sont autant que leurs chevaux,
Jeunes amoureux nouveaux.

TRADUÇÃO

Jovens, novéis namorados,
Chegada a nova estação,
Pelas ruas, sem razão,
Vão saltando em cavalgada.

E fogo, do chão calçado,
Arrancam, qual do carvão.
Jovens, novéis namorados,
Chegada a nova estação.

Não sei se é bem empregado
Tanto trabalho, se não.
Mas qual seus cavalos vão
Os donos esporeados.
Jovens, novéis namorados.

CHANSON LXXIV

Gardez le trait de la fenestre,
Amans, qui par ruez passez,
Car plus tot en serez blessez
Que de trait d’arc ou d’alabestre

N’alez a destre ne a senestre
Regardant, mais le yeulx bessez;
Gardez le trait de la fenestre,
Amans, qui par ruez passez,

Se n’avez medecin, bon maistre,
Si tost que vous serez navrez
A Dieu soyez recommendez;
Mort vous tiens, demandez le prestre:
Gardez le trait de la fenestre.

TRADUÇÃO

Cuida das setas da janela,
Amante que nas ruas vais,
Porque são elas mais mortais
Que setas de arco, que quadrelos.

Não olhes esta parte, aquela,
Baixar os olhos convém mais.
Cuida das setas da janela,
Amante que nas ruas vais.

Se médico por ti não zela,
E se ferido acaso cais,
Entrega a alma a Deus, ao pai,
A morte é certa: ao padre apela.
Cuida das setas da janela.

A estrutura formal dessas canções é idêntica à dos rondéis. Nelas se observa o uso do rentrement, que é a retomada do pri­meiro verso como refrão, de tal modo que ele encerra o poema como se fechasse um círculo. Essa semelhança provocou certa hesitação na nomenclatura dos manuscritos de poemas de Charles d’Orléans, ou seja, o mesmo poema aparece ora como chanson, ora como rondeau. Não havendo notação musical nesses manuscritos, su­põe-se que a rubrica chanson indicasse uma composição destina­da ao canto. Na composição cantada, o refrão podia não ser retomado por inteiro:

Desse modo, o elemento inicial tem grande peso. É nele que se lança a idéia principal, é com ele que se termina o poema.

Finalmente, vale comentar um dado evidente: a afinidade temática entre as duas canções. Em ambas a “personagem” é a mesma: o amante; o cenário é o mesmo: a rua. E como se a canção LXXIV continuasse a LXXIII. O amante, que na primeira cavalga afoito, é alertado na segunda a guardar-se de ser atingi­do pelas setas que voam das janelas. Como reminiscência da velha temática, os olhos são a porta de entrada do padecimento amoroso: as setas são lançadas, mas o amante que se mantém de olhos baixos não é atingido. Para quem leia esse poema sem conhecimento de toda a temática de Charles d’Orléans, o conse­lho a manter os olhos baixos pode parecer sem nexo ou, pelo menos, perder grande parte do poder alusivo. Interessante, nesse sentido, é que Charles d’Orléans se contenta com aludir àquilo que antes afirmava às escâncaras: pelos olhos entra a paixão amorosa que atinge o coração; seu veículo, a beleza. A mitologia não está presente. Restam seus ecos.

Bibliografia

CHAMPION P., Charles d’Orléans, poésies, vol. I, Paris: Librairie Honoré Champion, 1971.

CHAMPION R, Charles d’Orléans, poésies, vol. I, Paris: Librairie Honoré Champion, 1966.

CIGADA, S. L’Opera poetica di Charles d’Orléans, Milão: Società Editrice Vita e Pensiero, 1960.

GALDERISI, C. Le lexique de Charles d’Orléans dans les rondeaux, Ge­nebra: Droz, 1993.

POIRION, D., (1965/1978) Le poète et le prince, l’évolution du lyrisme courtois de Guillaume de Machaut à Charles d’Orléans, Paris: Presses Universitaires de France, 1965.

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